Atitude Popular

“O Irã venceu por pontos a guerra”

Análise de Lejeune Mirhan no Democracia no Ar aponta desgaste militar dos Estados Unidos e de Israel, risco de colapso energético e financeiro e aprofundamento da crise geopolítica no Golfo Pérsico

No programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, a jornalista Sara Goes recebeu o sociólogo, professor universitário aposentado, escritor e analista internacional Lejeune Mirhan para um balanço do primeiro mês da guerra no Golfo Pérsico. A entrevista, com comentários de Fábio Sobral, examinou os principais desdobramentos do conflito, os interesses estratégicos das grandes potências, a centralidade do petróleo e os riscos de ampliação da crise para além do Oriente Médio.

Autor de diversos livros e comentarista de canais como TV dos Trabalhadores, TV 247 e DCM TV, Lejeune sustentou que, apesar da destruição e do alto custo humano imposto ao Irã, o país saiu politicamente fortalecido diante dos Estados Unidos e de Israel. Para ele, o conflito não pode ser lido apenas pela ótica militar tradicional, mas como uma disputa que envolve logística bélica, controle energético, rotas marítimas, capacidade industrial e reposicionamento diplomático global.

Segundo o analista, o primeiro dado decisivo é o esgotamento material da guerra. Ele afirmou que os estoques de mísseis israelenses chegaram ao limite, inclusive com o esvaziamento de sistemas considerados estratégicos na defesa antimísseis. Ao descrever a intensidade do confronto, Lejeune chamou atenção para a velocidade e o alcance dos mísseis iranianos, capazes de atingir a estratosfera e percorrer grandes distâncias em poucos minutos, comprimindo drasticamente o tempo de resposta dos sistemas de alerta.

Em sua avaliação, isso ajuda a explicar por que previsões de uma guerra longa não se confirmaram até aqui. “Precisava acabar essa guerra”, afirmou. Para o professor, não se tratava de um conflito sustentável por muitos meses nas condições em que vinha sendo travado, sobretudo porque o custo diário e o consumo acelerado de armamentos tornavam a continuidade cada vez mais difícil para os dois blocos em confronto, ainda que em escalas distintas.

Lejeune também destacou o ataque a bases militares dos Estados Unidos na região como um dos fatos mais importantes do conflito. Ele observou que, pela primeira vez, estruturas militares norte-americanas no Oriente Médio foram diretamente atingidas em larga escala, o que, em sua leitura, alterou o cálculo estratégico de Washington. Mesmo ressaltando a dificuldade de mensurar integralmente os danos, o professor disse que a ofensiva expôs fragilidades de uma potência acostumada a operar sob a imagem de invulnerabilidade.

Ao abordar a dimensão naval da guerra, o analista argumentou que o poderio militar dos Estados Unidos encontra limites concretos quando submetido ao desgaste contínuo, à necessidade de reposição de mísseis e à vulnerabilidade das rotas no Golfo. Para ele, o fechamento do estreito de Ormuz foi central para forçar uma mudança de postura da Casa Branca. “Trump teve que recuar”, resumiu. Na leitura de Lejeune, o cessar-fogo de 14 dias não expressa uma paz consolidada, mas uma pausa tática produzida por impasses militares, econômicos e diplomáticos.

O professor sustentou que o papel do Paquistão nas negociações em Islamabad não é periférico, mas revela a entrada mais direta da China no tabuleiro. Segundo ele, a proposta de mediação paquistanesa foi aceita porque se apoia numa nova correlação de forças internacionais, na qual Pequim e Moscou aparecem como fiadores de uma negociação que os Estados Unidos já não conseguem controlar sozinhos. Nesse cenário, a guerra deixa de ser um episódio regional e passa a expressar um deslocamento mais amplo da ordem mundial.

Lejeune rejeitou a ideia de que o Irã tenha derrotado militarmente os Estados Unidos de maneira absoluta, mas insistiu que Teerã obteve vantagem no plano político e diplomático. “O Irã venceu por pontos a guerra”, afirmou. A metáfora do boxe foi usada por ele para explicar que, embora o país persa tenha sofrido perdas humanas e danos estruturais muito superiores, conseguiu impor custos inesperados ao inimigo, resistir à pressão e obrigar Washington a negociar em termos menos triunfalistas do que sua retórica sugeria.

Na entrevista, o analista também foi duro ao tratar da narrativa construída por Donald Trump. Para ele, o presidente norte-americano apresenta o cessar-fogo como uma demonstração de força, quando, na realidade, estaria tentando mascarar dificuldades logísticas, militares e financeiras. Lejeune classificou Trump como um agente movido por interesses imediatos e por uma lógica de manipulação permanente da opinião pública e dos mercados. Em sua interpretação, declarações contraditórias não são mero improviso, mas parte de uma estratégia voltada também à especulação com o preço do petróleo.

Essa dimensão econômica ocupou lugar central na conversa. O professor lembrou que a economia mundial continua profundamente dependente dos combustíveis fósseis e que o Golfo Pérsico concentra parcela decisiva da produção energética global. Por isso, qualquer interrupção mais prolongada no fluxo de petróleo, gás e derivados pode provocar efeitos devastadores em cadeia. Lejeune alertou para a possibilidade de uma crise ainda maior que a de 1929 caso o circuito financeiro alimentado pelos recursos do Golfo entre em colapso.

Ao discutir a racionalidade do conflito, ele argumentou que o discurso moral dos Estados Unidos sobre democracia, regime e civilização encobre o verdadeiro centro da disputa. “Hoje a questão que move o mundo é o petróleo”, declarou. A partir dessa chave, o professor interpretou a ofensiva contra o Irã não como uma cruzada ideológica, mas como parte de uma luta pelo controle de reservas, rotas, moedas de referência e mecanismos de poder global.

Lejeune também sustentou que o Irã não busca produzir armas nucleares, recordando que existe uma proibição religiosa formal nesse sentido, baseada em uma fatwa já tornada pública pelas lideranças iranianas. Para ele, a insistência norte-americana em transformar o programa nuclear iraniano num pretexto permanente de pressão ignora deliberadamente essa posição e funciona como instrumento de desestabilização contínua. O ponto realmente sensível, segundo o analista, não seria a bomba atômica, mas a soberania do Irã sobre seu próprio programa energético e tecnológico.

Outro ponto destacado na entrevista foi o papel de Israel na ampliação da guerra. Lejeune avaliou que o governo de Benjamin Netanyahu não se conforma com qualquer arranjo que reduza sua liberdade de agressão na região e, por isso, mantém ataques e pressões paralelas, inclusive sobre o Líbano. Em sua leitura, a ofensiva israelense prolonga a lógica colonial, desrespeita cessar-fogos sucessivos e busca converter guerra em expansão territorial, mesmo diante do desgaste crescente de sua imagem internacional e de setores centrais de sua economia.

Ao final, o professor apresentou quatro cenários possíveis para os próximos passos do conflito: a consolidação do cessar-fogo, a retomada das hostilidades pelos Estados Unidos, a escalada para um ataque nuclear e um colapso do mercado financeiro internacional provocado pelo travamento do circuito energético do Golfo. Sem se apresentar como alguém que faz previsões fechadas, ele insistiu que o momento exige atenção à combinação entre guerra, especulação, energia e rearranjo geopolítico.

Mais do que um balanço conjuntural, a entrevista ofereceu uma leitura estrutural da crise. Ao articular petróleo, indústria bélica, corredores estratégicos, alianças diplomáticas e disputa por hegemonia, Lejeune Mirhan defendeu que o conflito no Golfo Pérsico já ultrapassou a condição de guerra regional. Para ele, o que está em jogo é a própria capacidade dos Estados Unidos de seguir ditando unilateralmente as regras da ordem internacional em um mundo cada vez mais tensionado e menos previsível.

Referências

O capital (1867), de Karl Marx

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