Por Sara Goes
Da gestão de Maria Luiza Fontenele à encenação recente de André Fernandes, o mesmo símbolo reaparece sem inovação: o lixo segue sendo usado como atalho narrativo por uma política que prefere repetir fórmulas conhecidas a enfrentar a complexidade real da cidade.
Na noite de 9 de abril de 2026, o deputado federal André Fernandes foi flagrado por câmeras deixando sacos de lixo na calçada da Prefeitura de Fortaleza enquanto gravava vídeos para redes sociais. As imagens mostram o parlamentar e aliados descarregando resíduos retirados de um veículo, em uma ação claramente encenada.
O episódio não pode ser tratado como um ato isolado ou como mera excentricidade de um parlamentar em busca de atenção. Ao despejar sacos de lixo na calçada do poder municipal enquanto grava vídeos para circulação nas redes, o deputado mobiliza um símbolo antigo da política local e o reinscreve em uma lógica contemporânea de produção de escândalo. O gesto é calculado, tem destinatário e carrega uma memória que a cidade conhece bem.
A trajetória de André Fernandes ajuda a entender o sentido da encenação. Ele se projetou inicialmente como influenciador digital, construindo audiência a partir de conteúdos agressivos, simplificadores e frequentemente baseados em desinformação. Seu nome circulou intensamente no período que antecedeu os atos de 8 de janeiro, quando ajudou a amplificar narrativas que tensionavam as instituições. Ao longo dos últimos anos, também acumulou episódios de declarações que banalizam a violência contra mulheres, inclusive com vídeos em tom de deboche sobre feminicídios. Essa combinação de radicalização política, apelo digital e capacidade de mobilização o levou a se tornar um dos deputados mais votados do estado e a disputar, com força, a prefeitura da capital.
Quando ele escolhe o lixo como elemento central de sua ação, não está apenas tentando criar uma imagem impactante. Está acionando um repertório histórico. Nos anos 1980, durante a gestão de Maria Luiza Fontenele, o colapso da coleta de resíduos foi convertido em símbolo de desordem administrativa. A complexidade daquele momento, marcada por disputas com empresas privadas, restrições financeiras e isolamento institucional, foi reduzida a uma narrativa simples que associava a figura da prefeita à incapacidade de governar. O lixo deixou de ser um problema urbano e passou a operar como linguagem política.
O que se observa agora é a reaparição desse mesmo signo em um contexto distinto. Na década de 1980, a imagem do lixo emergia de uma crise real e era amplificada para produzir desgaste. No episódio atual, a lógica se inverte. A imagem é produzida deliberadamente para simular a crise. Não há acúmulo espontâneo, não há colapso estrutural que se imponha por si. Há uma ação encenada que transforma o espaço público em cenário e a gestão municipal em alvo de uma narrativa previamente construída.
Essa mudança revela uma transformação mais ampla na forma de fazer política. A disputa deixa de se concentrar na interpretação dos fatos e passa a se organizar em torno da fabricação de acontecimentos. O valor não está na veracidade do que ocorre, mas na capacidade de gerar circulação, engajamento e identificação imediata. O lixo, nesse contexto, funciona como signo de fácil leitura, capaz de condensar em poucos segundos uma acusação inteira.
Fortaleza, que já assistiu ao uso desse símbolo para desgastar uma gestão marcada por ruptura e isolamento, volta a vê-lo mobilizado, agora sob a lógica da performance digital. A repetição não é casual. Ela indica que certos instrumentos permanecem disponíveis e eficazes, sobretudo quando combinados com novas tecnologias de difusão.
O que muda é o grau de mediação. No passado, a narrativa ainda dependia de processos mais lentos de construção e circulação. Hoje, ela se apresenta pronta, editada, distribuída em tempo real. O gesto substitui a análise. A imagem antecede o debate.
A cidade, mais uma vez, é convocada a interpretar o lixo. Não como problema de gestão, mas como linguagem de poder.
Imagem: Charge de Sinfrônio publicada n’O Povo. 02/01/1986












