Por Sara Goes
Julho é o mês dos ventos em Fortaleza. Eles levantam as pipas das crianças em férias e as saias de quem cruza a Praça do Ferreira, uma imagem repetida pela literatura cearense. O escritor Moreira Campos entendia como poucos o poder dessas pequenas mudanças. Bastava uma porta bater ou uma janela tremer para que uma casa inteira parecesse diferente. A explicação vinha depois.
Com uma criança de dois anos acontece algo parecido: se o Lobo Mau que sopra a casa dos porquinhos com violência acabou de entrar no seu universo, o vento deixa de ser apenas vento. Depois de assistir a uma versão dos Três Porquinhos feita por inteligência artificial, meu filho passou noites dormindo com dificuldade, acordando entre pesadelos. O lobo usava camiseta, bermuda e tinha um jeito quase engraçado. Mesmo assim, bastava o vento aumentar para ele procurar o personagem do lado de fora da janela. O vento não havia mudado, mas o significado do vento sim.
Charles Sanders Peirce chamava esse processo de semiose: a produção contínua de significado. Eu aviso que o Lobo Mau não está por perto, mas isso não interrompe o significado que o vento produz.

Dias depois, assisti ao avatar de Jair Bolsonaro apresentado na convenção do PL e lembrei do meu do meu filho. O debate girou em torno da transparência. O vídeo avisava que havia sido produzido por inteligência artificial, logo, não estaria enganando ninguém. Mas uma imagem não precisa mentir para produzir efeitos.
A semiótica faz uma pergunta diferente da Justiça Eleitoral: o que essa imagem continua produzindo mesmo depois de sabermos que ela é artificial?
Antonio Damasio mostrou que percepção e emoção caminham juntas. Ralph Adolphs demonstrou que um rosto conhecido ativa memórias e respostas emocionais antes mesmo de começarmos a analisá-lo racionalmente. Nossos álbuns fotográficos, impressos ou digitais, despertam lembranças, afetos e sensações porque um rosto conhecido nunca é apenas um rosto. Ele carrega uma história inteira.
É por isso que a grande novidade da inteligência artificial não é fabricar imagens falsas, é fabricar presenças.
O avatar de Bolsonaro não existe para convencer alguém de que ele estava naquele palco. Existe para manter sua presença circulando. O corpo deixa de ser o único lugar onde um líder político pode existir e sua existência ganha uma nova sobrevida com a inteligência artificial. Uma sobrevida semiótica.
Assim como o Lobo Mau continuou soprando toda vez que o vento batia na janela, Bolsonaro pode continuar aparecendo por meio de versões sintéticas de si mesmo. Não porque sua reprodução vai enganar alguém, mas porque o reconhecimento continua funcionando.
É esse o ponto que a velocidade do debate jurídico, por necessidade, não alcançou. A inteligência artificial transformou Bolsonaro numa espécie de Lobo Mau da política: um personagem que já não precisa estar presente para continuar habitando a imaginação coletiva.






