Ação pede R$ 20 mil e retratação pública por comentário sobre o atentado contra Cid Gomes. Em vídeo, jornalista afirma que tentou contato com o político e relata que ele recusou a possibilidade de retratação
O ex-deputado federal Capitão Wagner (União Brasil) move uma ação de indenização por danos morais contra a jornalista Inês Aparecida, uma das apresentadoras do podcast cearense As Cunhãs, por comentários feitos durante um episódio publicado em 1º de julho de 2026. Protocolada em 10 de agosto no Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), a ação pede indenização de R$ 20 mil e retratação pública no podcast e nos canais em que o conteúdo foi divulgado.
Em manifestação publicada nas redes sociais, Inês afirmou que precisou interromper a atenção dedicada à campanha eleitoral para comparecer a uma audiência para a qual foi intimada. Ela também declarou que tentou entrar em contato com Wagner, mas não obteve resposta, e que, segundo seu relato, o político recusou a possibilidade de uma retratação e afirmou que pretendia processá-la.
A controvérsia ganhou repercussão após a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) divulgar, em 24 de outubro, uma nota de solidariedade à jornalista. O caso coloca em debate os limites entre crítica política, liberdade de expressão e proteção à honra de figuras públicas.
O processo ocorre ainda após a derrota de Wagner na disputa pelo Senado e a publicação de um vídeo em que ele reage com insultos às declarações do senador Cid Gomes (PSB). A sequência de acontecimentos permite examinar tanto a ação judicial quanto a postura pública do político diante de críticas e divergências.
O que motivou o processo
Na petição inicial, Wagner afirma que Inês o teria apontado como “mentor intelectual” do atentado contra Cid Gomes, ocorrido em fevereiro de 2020, em Sobral, durante um episódio envolvendo policiais militares amotinados e uma retroescavadeira conduzida pelo senador.
O trecho questionado foi apresentado no podcast durante uma discussão sobre alianças políticas no Ceará e o posicionamento de Cid na campanha eleitoral de 2026. Ao comentar a aproximação entre Wagner e Ciro Gomes, a jornalista afirmou que Cid estaria indignado ao ver o irmão aliado ao ex-deputado e acrescentou que Wagner, embora não tivesse disparado a arma, seria, indiretamente, o “mentor intelectual” do atentado.
“Aquelas declarações dele revoltadas, porque ele estava indignado quando ele via o irmão aliadíssimo com o Capitão Wagner, sabendo o que o Capitão Wagner fez com ele. Diretamente não, porque ele não pegou na arma, mas indiretamente, digamos, é o mentor intelectual daquele atentado contra ele. Então, eu ficaria muito admirada. Acabaria todo…”
A ação sustenta que a declaração atribuiu ao político responsabilidade por um crime sem apresentar provas ou indicar investigação que o apontasse como mandante. Para Wagner, a fala ultrapassou os limites da crítica e atingiu sua honra e imagem.
Inês afirma que tentou contato e que Wagner recusou a retratação
Em vídeo publicado nas redes sociais, Inês Aparecida relatou que soube do processo quando Camila, outra integrante de As Cunhãs, entrou em contato com Wagner para convidá-lo a participar das sabatinas promovidas pelo podcast com candidatos ao governo do Ceará e ao Senado.
Segundo a jornalista, Wagner informou que não participaria porque estava processando-a. Inês contou que a equipe se surpreendeu com a notícia e que foi levantada a possibilidade de uma retratação, inclusive durante uma das sabatinas, caso ele se considerasse ofendido.
“Ela argumentou e disse que a gente podia… eu poderia me retratar em algum episódio, até mesmo na sabatina, se eles estavam se sentindo ofendidos. Aí ele disse que não. Ele queria mesmo era me processar”, afirmou.
Inês também disse que tentou falar diretamente com o político, por telefone e por mensagens enviadas nos dias 7 e 17 de agosto, mas não recebeu resposta. De acordo com o relato, Wagner teria dito a interlocutores que estava disposto a processá-la.
A jornalista ressaltou que, conforme sua compreensão, as ações foram movidas contra ela individualmente, e não contra o podcast. “As ações são contra a minha pessoa e não contra o podcast. As ações são contra Inês Aparecida”, declarou.
Na mesma manifestação, Inês mencionou que Wagner havia desistido, em novembro de 2025, de três processos que movia contra Ciro Gomes. Ela comparou os episódios e afirmou que não possui capital eleitoral e que é mulher. O vídeo não apresenta elementos suficientes para estabelecer por que Wagner teria adotado decisões diferentes nos dois casos.
A imagem de moderação durante a campanha
Durante a campanha eleitoral de 2026, Wagner procurou projetar uma imagem pública de serenidade e proximidade familiar. Em aparições ao lado da esposa, sua comunicação também abordou questões familiares e o tema do autismo.
Em 4 de outubro, Wagner não conseguiu se eleger senador. Recebeu 2.011.388 votos, equivalentes a 20,70% dos votos válidos, e terminou em terceiro lugar. Foi sua quinta derrota consecutiva em eleições majoritárias, após as disputas pela Prefeitura de Fortaleza em 2016 e 2020, pelo governo do Ceará em 2022 e novamente pela Prefeitura em 2024.
Três dias depois, em 7 de outubro, Wagner publicou um vídeo em resposta às declarações de Cid Gomes sobre a derrota de Ciro Gomes na disputa pelo governo estadual. Cid havia afirmado que teria sido mais elegante reconhecer a vitória do governador reeleito Elmano de Freitas (PT), cumprimentá-lo e esclarecer qual posição política seria adotada dali em diante.
Wagner reagiu em tom exaltado, dirigindo-se ao senador com expressões como “cretino”, “ridículo” e “arrogante”, além de utilizar palavrões. Também acusou Cid de tentar prejudicar a aliança eleitoral do irmão e fez acusações sobre a atuação do Supremo Tribunal Federal durante a campanha.
ABI manifesta solidariedade à jornalista
Em nota divulgada em 24 de outubro, a Associação Brasileira de Imprensa manifestou solidariedade a Inês Aparecida e criticou as ações movidas por Wagner. A entidade destacou a atuação da jornalista no podcast As Cunhãs e classificou a iniciativa judicial como uma tentativa de censurar o exercício profissional do jornalismo.
A ABI também informou que Wagner havia sido convidado a participar das sabatinas eleitorais promovidas pelo podcast, mas recusou o convite. O relato de Inês acrescenta que, segundo ela, a equipe tomou conhecimento do processo durante o contato feito para apresentar o convite.
Leia na íntegra:
A ABI, por meio da sua Comissão de Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos, se solidariza com a jornalista Inês Aparecida, do podcast “As Cunhãs”, que é alvo de ações cível e criminal movidas pelo ex-deputado federal Capitão Wagner (União), candidato ao Senado Federal derrotado no Ceará.
Aliado do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e do ex-candidato a governador Ciro Gomes (PSDB), Wagner move as duas ações contra a jornalista por se considerar ofendido por ela diante de críticas feitas ao político em um episódio do podcast. Os comentários de Inês se referem à atuação do ex-deputado em episódios de ampla repercussão no Ceará ao longo de sua vida pública. Por meio das ações, Wagner requer indenização estimada em R$ 20 mil.
Em depoimento no Instagram, na quinta-feira (22/10), Inês revelou ter participado de audiência judicial nesta semana diante das ações movidas pelo ex-candidato a senador. Ela informou ter buscando contato com ele sobre o assunto, sem êxito. Na campanha, o próprio Wagner foi convidado a participar de sabatinas promovidas pelo podcast com os candidatos majoritários, mas se recusou a participar do programa.
A larga folha de serviços prestados por Inês ao jornalismo cearense faz dela uma das profissionais de maior credibilidade política no estado. No podcast “As Cunhãs”, ela atua semanalmente, de forma independente, tratando de temas da política do Ceará e do Brasil. Desta forma, a ABI repudia a tentativa do ex-deputado Capitão Wagner de censurar a atuação da profissional, revelando sua incapacidade de aceitar críticas políticas legítimas – requisito imprescindível para quem é uma pessoa pública.
Em depoimentos nas redes sociais, se solidarizaram a Inês parlamentares como a deputada federal eleita Luísa Cela (PT), a deputada estadual Larissa Gaspar (PT) e os deputados estaduais eleitos Gabriel Aguiar (Psol) e Léo Suricate (Psol).
COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DOS DIREIOS HUMANOS
Associação Brasileira de Imprensa (ABI)
Rio de Janeiro, 23 de outubro de 2026






