O mundo está perdendo o medo da guerra nuclear — justamente quando o risco volta a crescer

Da Redação

Fim do New START, modernização dos arsenais, guerras sob a sombra atômica, armas hipersônicas, drones e inteligência artificial estão desmontando mecanismos de contenção construídos durante a Guerra Fria. Análise publicada pela RT alerta para uma mudança ainda mais perigosa: armas nucleares podem deixar de ser percebidas como instrumentos que jamais devem ser usados e voltar a ser tratadas como armas possíveis de combate.

Durante boa parte da Guerra Fria, a humanidade conviveu com um paradoxo brutal. Estados Unidos e União Soviética acumularam capacidade suficiente para destruir um ao outro e provocar uma catástrofe planetária, mas foi precisamente a consciência dessa destruição que estabeleceu um limite para o confronto direto entre as grandes potências. Não havia confiança, amizade ou altruísmo naquele equilíbrio. Havia medo. O adversário precisava acreditar que um primeiro ataque produziria uma retaliação devastadora e que, portanto, uma guerra nuclear não poderia oferecer uma vitória politicamente utilizável. O terror da destruição mútua transformou-se, paradoxalmente, numa forma de disciplina.

Esse medo começa a perder força justamente quando as estruturas criadas para administrar o perigo estão se desfazendo.

É essa a provocação central de um ensaio publicado nesta quinta-feira (3) pela RT, originalmente escrito para a revista Russia in Global Affairs pelo cientista político russo Fyodor Lukyanov, diretor de pesquisa do Valdai Discussion Club. Para ele, a transformação mais preocupante do atual sistema internacional não é simplesmente a existência de mais armas ou conflitos. É uma alteração na maneira como governos e sociedades começam a imaginar a própria guerra nuclear: aquilo que durante décadas foi tratado como o limite absoluto da política corre o risco de voltar a ser pensado como uma possibilidade militar.

A origem russa do argumento exige cautela. Moscou é parte diretamente interessada nessa discussão, possui um dos dois maiores arsenais nucleares do planeta e utilizou reiteradamente a dimensão nuclear como componente de sua estratégia de dissuasão durante a guerra na Ucrânia. Portanto, a interpretação de Lukyanov não deve ser confundida com descrição neutra da realidade.

O problema é que o diagnóstico central encontra respaldo muito além de Moscou.

O Stockholm International Peace Research Institute, o SIPRI, concluiu em seu anuário de 2026 que a deterioração da ordem nuclear mundial prosseguiu, com relações ruins entre as potências nucleares, ausência de diálogo estratégico e poucas perspectivas de um novo regime abrangente de controle de armamentos. O Bulletin of the Atomic Scientists, por sua vez, colocou neste ano seu Relógio do Juízo Final em 85 segundos para a meia-noite, a posição mais próxima da catástrofe desde a criação do indicador.

Portanto, existe algo maior acontecendo.

Não estamos diante apenas de outra rodada de tensão entre Washington e Moscou. O mundo está entrando numa época em que o antigo sistema de contenção nuclear se enfraquece ao mesmo tempo em que novas tecnologias tornam a guerra mais rápida, difusa e difícil de controlar.

O símbolo mais poderoso dessa mudança ocorreu em fevereiro deste ano, quando expirou o New START, último grande tratado bilateral que estabelecia limites verificáveis sobre os arsenais nucleares estratégicos implantados por Estados Unidos e Rússia. Sua extinção encerrou uma longa etapa histórica de acordos destinados a limitar a competição nuclear entre as duas maiores potências atômicas. O Bulletin advertiu que o desaparecimento do tratado encerra quase seis décadas de esforços contínuos para restringir a corrida estratégica entre Washington e Moscou.

Essa ruptura possui importância muito maior do que parece.

Tratados nucleares nunca eliminaram a rivalidade. Serviam para torná-la parcialmente previsível.

Limites quantitativos, inspeções, intercâmbio de dados, canais militares de emergência, notificações sobre exercícios e negociações estratégicas permitiam que cada lado conhecesse parte das capacidades e intenções do adversário. Não era paz. Era administração institucionalizada do medo.

Quando esses mecanismos desaparecem, aumenta a importância da interpretação.

E interpretação é exatamente onde começam alguns dos maiores riscos de uma crise nuclear.

Um lançamento detectado por satélite é ataque ou exercício? Um míssil convencional de longo alcance carrega ogiva convencional ou nuclear? Uma operação cibernética contra uma infraestrutura militar precede uma ofensiva estratégica? Um ataque contra um sistema de comando pretende apenas degradar capacidade convencional ou preparar uma tentativa de decapitação nuclear?

Durante uma crise real, essas perguntas precisam ser respondidas em minutos.

É por isso que a destruição da arquitetura de controle de armamentos não representa simplesmente o desaparecimento de tratados antigos. Significa a redução do tempo, da informação e da confiança disponíveis quando um erro pode adquirir consequências irreversíveis.

A mudança mais perigosa: tornar a bomba utilizável

Lukyanov identifica um problema ainda mais profundo. Durante oito décadas, a força política da arma nuclear esteve justamente no fato de que seu uso parecia quase impensável. Hiroshima e Nagasaki não foram apenas acontecimentos históricos. Transformaram-se em memória civilizacional.

A bomba existia, mas sua função fundamental passou a ser impedir que outra bomba fosse utilizada.

O que acontece se essa lógica for invertida?

O autor apresenta uma hipótese perturbadora. Imagine que uma arma nuclear seja novamente utilizada numa guerra e provoque destruição terrível, mas não desencadeie o apocalipse global previsto durante décadas. Imagine ainda que o ataque não produza uma vitória decisiva.

O efeito político poderia ser exatamente o contrário daquele esperado pelos defensores da dissuasão.

Em vez de restaurar o medo, poderia normalizar o emprego nuclear.

Governos e forças armadas poderiam concluir que determinadas armas nucleares — especialmente dispositivos de menor potência — são utilizáveis em circunstâncias extremas. A questão deixaria de ser “como impedir qualquer emprego nuclear?” e passaria a ser “qual arma nuclear utilizar, contra qual alvo e em qual intensidade?”.

Esse seria um salto histórico extremamente perigoso.

A diferença entre uma bomba nuclear e uma arma convencional nunca foi simplesmente sua potência explosiva. Existe um tabu político, moral e estratégico construído desde 1945. Rompê-lo uma única vez criaria precedentes impossíveis de calcular.

É por isso que expressões como “arma nuclear tática” podem ser enganosas para o debate público. “Tática” descreve função e emprego militar; não transforma uma explosão nuclear em acontecimento pequeno ou controlável.

O problema decisivo é o que acontece depois da primeira detonação.

Como o adversário interpreta o ataque? Responde convencionalmente? Utiliza outra arma nuclear? Ataca a plataforma responsável pelo lançamento? Procura destruir outras forças nucleares antes que sejam utilizadas?

A escalada deixa de depender exclusivamente da intenção original de quem lançou a primeira arma.

Passa a depender também daquilo que o adversário acredita que acontecerá em seguida.

E essa é uma das características mais perigosas da guerra: depois que começa, nenhum dos lados controla sozinho sua trajetória.

O cenário internacional atual torna essa possibilidade ainda mais preocupante porque conflitos regionais já estão acontecendo sob a sombra direta das armas nucleares.

O Bulletin destacou que três teatros militares recentes envolveram riscos de escalada nuclear. A guerra entre Rússia e Ucrânia permanece conectada à possibilidade de confronto com a OTAN; Índia e Paquistão voltaram a enfrentar uma crise militar acompanhada de sinalização nuclear; e ataques israelenses e norte-americanos contra instalações nucleares iranianas introduziram outra dimensão de instabilidade no regime de não proliferação.

O SIPRI chega a uma conclusão igualmente preocupante: tensões geopolíticas e guerras regionais aumentaram simultaneamente o risco de utilização de armas nucleares e de liberação descontrolada de material radioativo decorrente de ataques contra instalações nucleares civis.

Isso significa que a fronteira entre guerra convencional e risco nuclear está se tornando menos nítida.

E a tecnologia agrava o problema.

Drones atravessam fronteiras a milhares de quilômetros de seus operadores. Sistemas hipersônicos comprimem o tempo disponível para identificar e responder a um ataque. Operações cibernéticas podem atingir redes elétricas, satélites, sistemas de comunicação e estruturas militares sem que um único soldado atravesse fisicamente uma fronteira. Inteligência artificial começa a participar da coleta, classificação e interpretação de informações em velocidades incompatíveis com os processos políticos tradicionais.

O campo de batalha deixa de possuir fronteiras claramente identificáveis.

É precisamente essa transformação que Lukyanov coloca no centro de seu argumento. Para ele, a erosão das fronteiras não é mais apenas econômica ou informacional. Drones, sistemas digitais e novas tecnologias tornam progressivamente mais difícil aos Estados controlar aquilo que consideram seu espaço soberano. A guerra passa a penetrar praticamente todas as dimensões da vida social.

Essa observação merece atenção especial.

Uma usina elétrica pode ser infraestrutura civil e alvo militar. Um satélite comercial pode fornecer comunicação para tropas. Uma empresa privada pode produzir inteligência geoespacial utilizada num ataque. Uma rede social pode funcionar como infraestrutura de operações psicológicas. Cabos submarinos, centros de dados, sistemas financeiros, GPS e cadeias logísticas podem transformar-se em componentes de uma guerra sem que tenham sido originalmente construídos para isso.

Nesse ambiente, torna-se cada vez mais difícil determinar onde termina a paz e começa a guerra.

Da dissuasão para a guerra permanente

Talvez essa seja a parte mais inquietante do diagnóstico.

A guerra contemporânea começa a assumir características de uma relação permanente entre Estados.

Sanções, sabotagem, ataques cibernéticos, drones, operações clandestinas, guerra econômica, bloqueios tecnológicos, disputas financeiras, campanhas de informação e conflitos por procuração podem funcionar simultaneamente. Não existe necessariamente uma declaração formal de guerra nem uma vitória capaz de encerrar definitivamente o confronto.

O objetivo passa a ser desgastar o adversário.

Economicamente.

Militarmente.

Tecnologicamente.

Politicamente.

Psicologicamente.

Lukyanov identifica aí um paradoxo particularmente perigoso. Quanto mais tempo uma sociedade permanece submetida à confrontação, mais aprende a suportá-la. Estados desenvolvem novos mecanismos de financiamento, cadeias logísticas alternativas, sistemas tecnológicos, doutrinas militares e capacidade de mobilização.

Mas a mesma duração produz fadiga.

E uma guerra de atrito aparentemente interminável pode gerar justamente a tentação de procurar um instrumento capaz de romper o impasse de maneira decisiva.

É nesse momento que a arma nuclear reaparece.

Não necessariamente como instrumento destinado a destruir o planeta, mas como suposta solução para uma guerra que nenhum dos lados consegue terminar.

Esse é o cenário que deveria preocupar o mundo.

Durante a Guerra Fria, o imaginário nuclear era dominado pela perspectiva do fim da civilização. Filmes, livros, exercícios de defesa civil e movimentos pacifistas transformaram a bomba numa presença cultural permanente. Em 1983, The Day After foi assistido por quase 100 milhões de norte-americanos. Threads, produzido pela BBC, apresentou uma visão ainda mais devastadora do colapso social depois de uma guerra nuclear. Dr. Strangelove transformou em sátira justamente a possibilidade de sistemas militares e erros humanos produzirem aquilo que nenhum dirigente racional desejava.

Esse imaginário desapareceu progressivamente.

Uma geração inteira cresceu depois da Guerra Fria sem viver a experiência cotidiana de imaginar que cidades inteiras poderiam desaparecer em minutos.

O desaparecimento desse medo foi, durante algum tempo, uma conquista.

Hoje pode estar se tornando vulnerabilidade.

O problema não é que populações precisem viver aterrorizadas. É que dirigentes políticos, militares e sociedades não podem perder a compreensão material daquilo que significa ultrapassar o limiar nuclear.

Porque os arsenais não desapareceram junto com o medo.

Ao contrário.

Estados Unidos, Rússia e China modernizam seus sistemas de lançamento. A China aumenta o número de ogivas e plataformas. Washington desenvolve o sistema antimísseis Golden Dome. Países europeus voltaram a discutir formas de dissuasão nuclear menos dependentes dos Estados Unidos. Debates semelhantes surgiram no Japão e na Coreia do Sul. O Bulletin descreve o ambiente como uma competição entre grandes potências que apresenta sinais de transformação numa corrida armamentista nuclear plena.

Aqui aparece outro mecanismo perverso.

Quanto menos confiança existe na proteção oferecida por uma grande potência, maior o incentivo para aliados pensarem em sua própria capacidade nuclear.

Quanto mais países consideram adquirir essa capacidade, maior o incentivo para seus adversários fazerem o mesmo.

E quanto maior o número de atores nucleares, mais complexa se torna a velha matemática da destruição mútua.

O sistema bipolar da Guerra Fria já era extraordinariamente perigoso.

Um mundo com múltiplas potências nucleares, alianças parcialmente sobrepostas, guerras regionais, armas hipersônicas, inteligência artificial, sistemas autônomos, operações cibernéticas e tempos de decisão comprimidos pode ser muito mais difícil de estabilizar.

Esse é o ponto em que a discussão ultrapassa qualquer interpretação exclusivamente russa ou norte-americana.

Moscou tem responsabilidade pela deterioração da segurança europeia. Washington também possui uma longa história de expansão militar, guerras e arquitetura global de bases. A China amplia rapidamente seu poder estratégico. A OTAN se fortalece. Europa se rearma. Japão amplia capacidades ofensivas. Índia e Paquistão mantêm arsenais nucleares diante de uma rivalidade histórica. Coreia do Norte expande seus sistemas.

Cada potência apresenta suas próprias armas como necessárias.

E encontra nas armas do adversário a justificativa para adquirir outras.

Esse mecanismo possui uma lógica interna assustadoramente racional.

O resultado coletivo pode ser profundamente irracional.

Por isso, a grande contribuição do artigo publicado pela RT não está em aceitar a interpretação geopolítica de Moscou. Está em recuperar uma questão que desapareceu do debate público: o que acontece quando a humanidade continua possuindo capacidade de autodestruição, mas perde progressivamente a consciência política do que essa capacidade significa?

O problema talvez não seja exatamente que o mundo tenha “esquecido como temer” a guerra nuclear.

É que estamos começando a naturalizá-la.

Ela aparece em discursos.

Em doutrinas.

Em exercícios.

Em debates sobre “opções”.

Em programas de modernização.

Em discussões sobre armas “táticas”.

Em cálculos sobre escalada.

A bomba vai deixando lentamente o território do inimaginável e retornando ao território do planejamento.

Essa transformação pode ser mais perigosa do que qualquer declaração isolada de um governante.

Durante décadas, a dissuasão nuclear funcionou apoiada numa convicção silenciosa compartilhada pelos adversários: existem guerras que ninguém pode vencer e, por isso, não podem começar.

Agora essa certeza está enfraquecendo.

O New START desapareceu. O diálogo estratégico diminuiu. Os arsenais são modernizados. Novas tecnologias reduzem os tempos de decisão. Guerras convencionais aproximam-se de instalações e potências nucleares. E o próprio Bulletin of the Atomic Scientists colocou seu relógio simbólico a apenas 85 segundos da meia-noite.

A humanidade passou oito décadas tentando garantir que Hiroshima e Nagasaki fossem as primeiras e últimas cidades destruídas por armas nucleares numa guerra.

Talvez o maior perigo de 2026 seja justamente começarmos a acreditar que esse resultado estava garantido.

Nunca esteve.

A paz nuclear não foi produzida pela bomba.

Foi produzida pela consciência de suas consequências, por instituições destinadas a controlar a competição e, sobretudo, pela disposição das grandes potências de reconhecer que havia um limite além do qual nenhum interesse nacional justificaria avançar.

Esses três elementos estão enfraquecendo ao mesmo tempo.

E quando uma civilização perde o medo daquilo que pode destruí-la, o problema não é apenas que uma guerra nuclear volte a ser possível. É que ela volte a parecer pensável.

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