No quadro “Antes que acabe o mês”, Sandra Helena e Victor Marques analisam a escalada imperialista, os rearranjos da mídia e os sinais de uma disputa global que também passa pelo Brasil
Em edição excepcional do programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, o apresentador Luiz Regadas conduziu, no quadro Antes que acabe o mês, uma conversa de balanço político com a professora de filosofia Sandra Helena e o professor da Universidade Federal do ABC Victor Marques. A partir da entrevista exibida pela emissora, os debatedores traçaram um panorama crítico dos principais fatos de março, costurando acontecimentos internacionais e nacionais para interpretar o fechamento do mês no Brasil e no mundo.
A análise, ancorada na tradição crítica da comunicação popular, partiu do material veiculado no programa para discutir a ofensiva militar contra o Irã, o papel da mídia ocidental, o cerco a Cuba, a instabilidade política internacional, os rearranjos da extrema direita e a crescente centralidade do Brasil no embate entre projetos antagônicos de sociedade. Em tom de alerta, mas também de disputa, Sandra e Victor sustentaram que o mês se encerra sob o signo de uma crise global mais profunda, em que guerra, comunicação e luta política se entrelaçam.
Logo no início, Sandra Helena retomou o espírito do próprio quadro, concebido para acompanhar os acontecimentos de um tempo em aceleração e ameaça. Ao recordar a edição anterior, exibida em 27 de fevereiro, observou que o cenário se agravou drasticamente em poucas semanas. “A gente fez o último programa discutindo os acontecimentos de fevereiro e fazendo alguns prognósticos”, lembrou. Naquele momento, segundo ela, o Irã já aparecia como alvo provável, mas ainda havia negociações em curso. Poucas horas depois, porém, o mundo amanheceu sob os efeitos dos bombardeios e da morte do líder supremo iraniano, em mais um capítulo do que chamou de “engrenagem monstruosa” posta em movimento.
A professora descreveu março como um mês em que o tom apocalíptico deixou de ser figura de linguagem para se tornar método de leitura do presente. Para ela, o mundo atravessa não apenas a crise da democracia liberal ou o colapso ambiental, mas a intensificação de uma lógica de destruição disseminada, em que guerras regionais, bloqueios econômicos e manipulações narrativas passam a compor um mesmo horizonte de catástrofe. Ainda assim, recusou qualquer leitura passiva da história. Embora reconheça o peso do momento, insiste em acompanhar o processo a partir da convicção de que vários mundos já acabaram antes e outros puderam nascer.
Ao comentar os ataques ao Irã, Victor Marques definiu a ação do governo Donald Trump como expressão de uma política “gangsterista”, brutal e desprovida até mesmo do verniz hipócrita que, em outros períodos, encobria a agressão norte-americana em nome da democracia ou dos direitos humanos. Para ele, o trumpismo não pretende justificar moralmente suas ações: atua porque pode. “O Trump se comporta como um poderoso chefão, um mafioso”, resumiu.
Segundo Victor, a aposta dos Estados Unidos foi a de produzir um trauma tão forte que levasse o Irã a aceitar uma tutela externa sem necessidade de uma mudança formal de regime. O cálculo, no entanto, falhou. O professor argumenta que Washington subestimou a resiliência do Estado iraniano e acreditou que a eliminação de lideranças seria suficiente para desorganizar a resposta. “O Irã se mostrou muito mais resiliente”, afirmou. Em vez de precipitar um colapso, os ataques produziram um efeito inverso: reforçaram a legitimidade interna do governo e ativaram um sentimento nacional de defesa da soberania.
Na mesma linha, Victor foi enfático ao afirmar que o bombardeio à escola, lembrado durante o programa como um ataque que matou cerca de 150 crianças, não deve ser tratado como acidente ou dano colateral. Para ele, tratou-se de uma ação deliberada de caráter terrorista. Ao mencionar a tática de duplo ataque, na qual o segundo bombardeio atinge justamente os que se aproximam para socorrer as vítimas do primeiro, apontou que a violência não apenas mirou crianças, mas também pais e socorristas. O episódio, disse, provocou comoção e fortaleceu o sentimento de defesa nacional dentro do Irã, em vez de enfraquecê-lo.
Sandra Helena concentrou parte importante de sua análise no modo como esses acontecimentos chegam à esfera pública. Para ela, há uma operação permanente de enquadramento informativo que apaga o ponto de partida da agressão e reorganiza a compreensão dos fatos de forma funcional aos centros de poder ocidentais. Ao criticar a cobertura sobre a guerra, observou que a mídia passou rapidamente da notícia dos bombardeios e do assassinato do líder iraniano para a construção de uma narrativa em que Donald Trump surge quase como alguém interessado em “encerrar” o conflito, desde que o Irã aceite os seus termos. O problema, na visão da professora, é que esse enquadramento dissolve o fato essencial: Estados Unidos e Israel bombardearam um país que não havia declarado guerra e que estava em processo de negociação.
Essa seletividade, lembrou Sandra, se repete quando se comparam as reações diante da morte de crianças palestinas e diante do pânico vivido por civis em Tel Aviv. Para ela, a hierarquia do luto, visível na imprensa internacional e reproduzida pela mídia brasileira, é parte constitutiva do mecanismo ideológico que sustenta a guerra. Ao falar da cobertura sobre crianças mortas em escolas e hospitais, contraposta ao choque demonstrado diante de um míssil caído perto de um casal israelense, denunciou uma economia moral em que algumas vidas são hipervisíveis e outras são tratadas como ruído de fundo.
A análise da conjuntura internacional levou inevitavelmente ao tema de Cuba. Victor afirmou que o imperialismo dos Estados Unidos vive uma fase especialmente agressiva, impulsionada pelo próprio declínio relativo de sua hegemonia econômica diante do avanço chinês. Nesse contexto, disse ele, a América Latina volta a ser encarada como área prioritária de contenção e recolonização. Cuba aparece como um dos alvos mais evidentes. “Cuba é a próxima vítima nesse tabuleiro”, alertou.
O professor destacou que, no caso cubano, ainda não houve intervenção militar direta, mas já existe um bloqueio que opera, na prática, como cerco permanente à sobrevivência material do país. Lembrou que hospitais enfrentam falta de energia e que o abastecimento depende de rotas cada vez mais ameaçadas. Ao mesmo tempo, ressaltou que Donald Trump tem reiterado o desejo de subjugar a ilha, inclusive com insinuações sobre quem deveria governá-la. Para Victor, trata-se de um projeto aberto de recolonização.
Apesar da gravidade do quadro, o professor rejeitou a ideia de que o mundo esteja sob uma hegemonia estável e consolidada da direita. Sua leitura é outra: o que existe hoje é uma crise de hegemonia profunda, marcada por instabilidade, movimentos bruscos e resultados imprevisíveis. Como exemplo, citou a baixa aprovação de Trump nos Estados Unidos e o contraste com experiências progressistas locais, como a eleição de um prefeito socialista em Nova York. Na Europa, o programa também destacou sinais de resistência, como os avanços da esquerda em municípios franceses e a derrota de Giorgia Meloni em referendo na Itália.
Sandra concordou que o cenário é desigual e contraditório. Ao comentar os resultados recentes na França e na Itália, afirmou que o campo progressista segue conquistando pequenas trincheiras em meio a um quadro geral de agravamento. Essas vitórias pontuais, disse, não devem ser desprezadas, porque indicam que o desmonte humanitário em curso encontra resistência social e política. Ao mesmo tempo, advertiu que nenhuma dessas disputas pode ser tratada como periférica, sobretudo quando se olha para o peso do Brasil no tabuleiro internacional.
Foi justamente ao retornar ao cenário brasileiro que o debate ganhou um tom ainda mais estratégico. Para Sandra Helena, a conjuntura nacional precisa ser observada não apenas pelo desenrolar de escândalos, disputas judiciais e manobras midiáticas, mas pela maneira como o país se insere na batalha global em curso. Ao mencionar a cobertura do caso envolvendo o banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro, criticou duramente o que chamou de operação semiótica da GloboNews, com um gráfico televisivo que aproximava visualmente Lula e o PT do centro do escândalo, embora a apuração não justificasse aquela construção.
Na avaliação da professora, não se tratou de erro gráfico nem de improviso de estagiário, mas de gesto deliberado de guerra narrativa. Para ela, o pedido posterior de desculpas não corrige o dano, porque o principal efeito já havia sido produzido: dois dias de circulação de imagens e cortes capazes de sedimentar, no imaginário das redes, a associação entre o caso e o governo Lula. Sandra observou que, pouco depois, uma pesquisa Atlas já indicava que grande parte da população vinculava o escândalo ao governo federal, prova de que a operação comunicacional alcançara seu objetivo.
Ainda assim, ela destacou uma diferença fundamental entre esse momento e o passado recente: os escândalos emergem sob um governo que não blinda instituições e permite a atuação de órgãos de investigação, ainda que isso produza desgaste político. Em contraste, lembrou a postura assumida explicitamente por Jair Bolsonaro ao defender a interferência sobre delegados, ministros e estruturas de Estado para proteger sua família. A diferença, argumenta Sandra, é central para entender o atual ambiente republicano, ainda que permeado por campanhas de manipulação.
Victor Marques retomou o eixo mais amplo da disputa ao afirmar que o Brasil não travará, em 2026, apenas uma disputa doméstica. Na sua visão, o país tornou-se peça-chave de um embate global entre projetos civilizatórios opostos. E foi nesse contexto que proferiu a frase mais forte de sua participação: “O Lula é hoje um dos principais estadistas”. A afirmação não apareceu como mera deferência pessoal, mas como síntese de uma leitura geopolítica. Para o professor, Lula representa atualmente um dos principais polos de expressão de um espírito democrático, progressista e humanista num mundo em convulsão.
Essa centralidade, acrescentou, torna a próxima batalha eleitoral brasileira decisiva não apenas para o país, mas para toda a América Latina e para setores do mundo que ainda resistem à lógica autoritária, imperial e neofascista. “Se nós não conseguirmos ser vitoriosos, seria uma tragédia não apenas pro Brasil, mas para a América Latina e pro mundo”, afirmou.
Ao fim da conversa, o quadro Antes que acabe o mês deixou evidente que março não se encerra como simples sequência de fatos, mas como condensação de tendências profundas: guerra sem freios, cerco imperial, disputa por narrativas, rearranjos da extrema direita, instabilidade dos centros de poder e revalorização estratégica do Brasil. Em vez de um fechamento, o mês parece oferecer um aviso. O que está em disputa não é apenas a interpretação dos acontecimentos, mas a capacidade de impedir que o “antes que acabe o mês” se transforme, de vez, em “antes que acabe tudo”.
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