Alessandra Pimentel relata experiência pessoal com a ansiedade e defende atenção aos sinais do corpo, ajuda profissional e mudanças concretas na rotina
Uma crise grave de ansiedade levou Alessandra Pimentel a uma emergência hospitalar com pressão arterial em níveis muito elevados e suspeita inicial de infarto. Os exames cardiológicos não identificaram alterações, mas o episódio serviu de alerta para uma situação que vinha sendo construída por uma rotina de trabalho excessiva e um estilo de vida prejudicial à saúde.
O relato foi feito por Alessandra Pimentel, gestora do Núcleo de Educação Profissional da Escola de Saúde Pública de Fortaleza, durante entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas e exibido pela TV Atitude Popular no dia 2 de julho. A conversa discutiu a ansiedade na vida contemporânea, os sinais de alerta e as possibilidades de prevenção e cuidado.
Ao analisar a dimensão do problema, Alessandra destacou que milhões de brasileiros convivem com transtornos de ansiedade e que muitas pessoas sequer identificam o que estão sentindo. Em alguns casos, os sintomas são interpretados como consequências naturais do estresse cotidiano.
Para a gestora, o aumento dos casos precisa ser compreendido dentro das condições concretas de vida. Situação econômica, moradia, acesso à educação e ao lazer, relações de trabalho e a velocidade da circulação de informações influenciam a saúde mental.
“O ser humano é biopsicossocial. Eu não posso dizer que, para ter saúde, preciso de uma única coisa”, afirmou.
Segundo Alessandra, uma das características da ansiedade é a preocupação constante com acontecimentos que ainda não ocorreram. A pressão por respostas imediatas e a dificuldade de conviver com a espera contribuem para esse processo.
“A ansiedade é a doença do excesso de futuro. A preocupação com o que vai acontecer, o que será, o que virá”, explicou.
Durante a entrevista, Alessandra destacou que a ansiedade faz parte da vida, mas alguns sinais indicam a necessidade de maior atenção e avaliação profissional. Entre os primeiros aspectos que devem ser observados está a qualidade do sono.
“O primeiro sinal de que as coisas não estão indo bem é quando a gente não consegue dormir bem”, afirmou.
Segundo ela, o sono adequado é fundamental para o repouso do organismo e para a saúde cerebral. Alterações bruscas de humor, tristeza persistente e apatia também precisam ser observadas, especialmente quando atividades e relações anteriormente importantes deixam de produzir interesse ou sentido.
Em quadros mais intensos, podem surgir manifestações físicas, como taquicardia, sensação de aperto na região do estômago, aflição e desconforto crescente. Alessandra falou sobre esses sintomas a partir de sua própria experiência.
Em 2023, embora já realizasse terapia e tivesse acompanhamento de profissionais de saúde, ela enfrentou um episódio grave. Na época, trabalhava cerca de 12 horas por dia.
“Cheguei à emergência do hospital com a minha pressão 20 por 10. Todos os médicos achavam que eu estava infartando”, relatou.
Depois de uma bateria de exames sem indicação de problema cardíaco, Alessandra começou a considerar que a origem do episódio poderia estar relacionada à ansiedade. Procurou atendimento psiquiátrico e ouviu da médica uma advertência que modificou sua relação com o trabalho e com o próprio corpo.
“Ela usou uma frase simples: ‘Ou você para ou você morre’.”
Alessandra conta que a advertência provocou uma mudança na maneira como conduzia a própria rotina.
“Aquilo foi uma sacudida para que eu mudasse a minha vida e entendesse que o ser humano também tem limites. O nosso corpo tem limites”, afirmou.
Para ela, um dos riscos está em ignorar os sinais de adoecimento durante muito tempo. A pessoa mantém a rotina, acumula desgaste e acredita ser capaz de suportar indefinidamente as pressões até enfrentar uma situação mais grave.
A primeira decisão tomada por Alessandra foi buscar ajuda profissional. Durante a entrevista, ela criticou a ideia de que transtornos de ansiedade seriam uma manifestação de fraqueza ou algo que desapareceria espontaneamente.
“A ansiedade é uma patologia como qualquer outra. A gente tem que se reconhecer em um estado patológico e reconhecer que precisa de ajuda”, afirmou.
A busca por atendimento, segundo ela, foi acompanhada por um processo de autoconhecimento e reorganização da rotina. Três anos depois da crise relatada no programa, Alessandra afirmou que aprendeu a reconhecer sinais que antecedem possíveis episódios de ansiedade.
Atualmente, segundo contou, não utiliza mais medicação e raramente apresenta crises, mas ressaltou que esse resultado foi consequência de um processo de acompanhamento e mudanças pessoais.
“A primeira coisa que eu aprendi foi olhar para mim. Olhar para mim no sentido de entender o que acontece comigo”, disse.
A gestora explicou que passou a identificar atividades e relações que ajudam a enfrentar períodos difíceis. Música, conversas com pessoas próximas, atividade física e convivência familiar passaram a ocupar outro espaço em sua rotina.
Como exemplo, contou que, depois de um dia particularmente difícil, decidiu conversar durante mais de uma hora com a filha para falar sobre aquilo que a angustiava.
“Existe toda uma rede de apoio ao nosso redor que muitas vezes a gente não enxerga, por vergonha ou por desconhecimento da sua importância”, afirmou.
A prática de exercícios também passou a fazer parte do cuidado cotidiano. Alessandra citou a hidroginástica como uma atividade que procura preservar mesmo em dias de maior pressão.
Para ela, cada pessoa precisa identificar o que favorece sua sensação de bem-estar. O objetivo não é estabelecer uma fórmula única, mas compreender quais hábitos e relações ajudam a construir uma rotina mais saudável.
A entrevista também discutiu comportamentos compulsivos que podem aparecer como tentativa de aliviar o sofrimento. Questionada sobre a relação entre ansiedade e consumo de álcool, Alessandra afirmou que pessoas em sofrimento podem procurar fontes imediatas de prazer.
O problema, segundo ela, é que o alívio momentâneo pode criar outras formas de adoecimento.
“A gente sai de uma ansiedade e agrega a essa ansiedade um quadro de alcoolismo”, alertou.
O mesmo processo pode ocorrer, segundo Alessandra, com cigarro, compras, alimentação e outros comportamentos compulsivos. Nessas situações, a busca por prazer imediato funciona como tentativa de fugir de uma angústia que continua sem tratamento.
“É uma fuga. Nós vamos buscar uma fuga para reparar um vazio interior, uma situação interior que muito nos atinge”, explicou.
Para Alessandra, a prática de atividades físicas e a recuperação do contato com espaços de lazer podem ajudar na construção de uma rotina de cuidado. Moradora de uma cidade litorânea, ela citou sua própria relação com o mar como exemplo de uma experiência que lhe proporciona tranquilidade.
A gestora também contou que passou a se afastar de relações e situações que considera prejudiciais. Isso inclui reconhecer conflitos nos quais não precisa entrar e aceitar que nem todas as situações podem ser controladas.
“Muitas vezes o mundo não é o que a gente quer”, afirmou.
Ela relacionou a ansiedade contemporânea à perda da paciência e à exigência de resultados imediatos. Ao recordar sua adolescência em Messejana, bairro de Fortaleza, falou sobre o hábito de sentar nas calçadas, conversar com vizinhos e acompanhar o cotidiano do bairro.
A lembrança serviu para discutir a necessidade de recuperar momentos nos quais a vida não esteja permanentemente subordinada à produtividade.
Outro ponto da entrevista foi a ansiedade relacionada à exposição pública. Um espectador do programa relatou sentir ansiedade antes de apresentações musicais e afirmou que somente conseguia relaxar depois das primeiras canções.
Alessandra respondeu destacando a capacidade de adaptação do cérebro e sugeriu que o músico se preparasse mentalmente para a apresentação, imaginando a recepção do público e atribuindo sentido à atividade artística.
“O nosso cérebro se molda”, afirmou ao explicar o conceito de neuroplasticidade.
Para ela, pensar previamente na apresentação como uma experiência de troca e não apenas como um teste de desempenho pode ajudar a reduzir a tensão. A recomendação foi aproximar-se do público, conversar e iniciar o repertório com músicas conhecidas antes de apresentar composições autorais.
A experiência pessoal com o adoecimento também influenciou o trabalho de Alessandra na Escola de Saúde Pública de Fortaleza. Segundo ela, uma das motivações para os projetos desenvolvidos pelo Núcleo de Educação Profissional foi evitar que outros trabalhadores passassem por situações semelhantes àquela que enfrentou.
“Trouxe como propósito de vida fazer com que outras pessoas não passassem pelo que eu passei”, contou.
Odontóloga de formação, Alessandra explicou que elaborou um projeto com a participação de dez profissionais voltado ao cuidado com a saúde mental dos trabalhadores.
Uma das decisões foi atuar não apenas com profissionais especializados na Rede de Atenção Psicossocial, mas também com trabalhadores que mantêm contato cotidiano com as comunidades, especialmente agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias.
Segundo ela, esses profissionais entram nas casas, conhecem problemas familiares e comunitários e enfrentam situações difíceis no cotidiano de trabalho.
O curso Saúde Mental nas Relações de Trabalho chegou à nona turma e, segundo Alessandra, já havia atendido mais de 300 profissionais no momento da entrevista.
Ao final da formação, cada participante é convidado a elaborar um plano pessoal de qualidade de vida.
“A pessoa para e escreve: o que eu vou fazer para ter mais qualidade de vida?”, explicou.
Não existe um modelo único para esses planos. Cada trabalhador identifica mudanças possíveis a partir da própria realidade.
“A gente sempre coloca o resultado da nossa vida na mão dos outros. Poucas vezes coloca esse resultado nas nossas mãos”, afirmou.
Outro projeto mencionado foi um curso de primeiros socorros psicológicos desenvolvido em parceria com o Corpo de Bombeiros. A formação prepara profissionais para acolher pessoas que passaram por situações adversas e chegam aos serviços de saúde necessitando de atenção especial.
Alessandra diferenciou esse tipo de atendimento do acompanhamento de pessoas com quadros graves de adoecimento mental. O objetivo é oferecer ferramentas para um primeiro acolhimento diante de acontecimentos traumáticos ou situações de sofrimento intenso.
A Escola de Saúde Pública também participa de outras iniciativas relacionadas à saúde mental e à preparação de profissionais para diferentes situações de crise. Alessandra mencionou formações sobre manejo de crises e atividades voltadas ao cuidado em rede de vítimas de violência armada.
Durante a entrevista, a gestora também abordou os efeitos psicológicos de eventos climáticos extremos. Ela citou as inundações no Rio Grande do Sul e afirmou que os serviços de saúde têm ampliado a atenção às consequências dessas tragédias para a saúde mental das populações atingidas.
Para quem percebe sinais de adoecimento, Alessandra orientou que a procura por ajuda pode começar pela unidade de saúde mais próxima da residência. A avaliação inicial permite identificar a necessidade de encaminhamento para atendimento especializado.
No caso dos cursos destinados aos trabalhadores da saúde de Fortaleza, as vagas podem ser preenchidas por encaminhamento das gestões dos serviços ou pela procura direta dos próprios profissionais, que passam a integrar uma lista para as turmas seguintes.
Na conclusão da entrevista, Alessandra retomou a importância de reconhecer os próprios limites e de procurar ajuda quando necessário.
“Olhe para si. Aquilo que vem de dentro jamais poderá ser avaliado com precisão por quem está de fora”, afirmou.
A mensagem sintetizou uma entrevista marcada tanto pela experiência profissional quanto por um relato pessoal de adoecimento. Para Alessandra, lidar com a ansiedade exige reconhecer sinais, procurar acompanhamento adequado e rever uma rotina que, muitas vezes, normaliza o excesso de trabalho e a ausência de descanso até que o corpo imponha seus próprios limites.
Assista ao programa completo:
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📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
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