Historiador critica o uso eleitoral da ideia de novidade, relaciona a disputa política à preservação da memória e alerta para os efeitos de propostas que prometem ruptura sem apresentar mudanças concretas nas condições de vida da população
A ideia de que o novo representa automaticamente uma mudança para melhor pode se tornar uma ferramenta de disputa política. Em entrevista ao programa Café com Democracia, da Atitude Popular, exibido nesta quinta-feira (17), o mestre em História e Culturas Aristides Braga Neto analisou o uso eleitoral da palavra “novo” e suas relações com a memória histórica, os interesses econômicos e a disputa em torno das políticas públicas. A conversa foi conduzida pelo âncora Luiz Regadas, mestre em Políticas Públicas, cientista político e radialista.
Para Aristides, a força da novidade não está apenas na palavra utilizada por candidatos. Ela se apoia em construções culturais que atravessam gerações e influenciam a maneira como sociedades interpretam mudanças políticas. O problema, segundo o historiador, surge quando essa associação é explorada para apresentar projetos conhecidos como se fossem soluções inéditas.
“Eu diria assim que, como você vê no título, uma arma letal, não é que eu falo, o novo como é uma arma letal nas eleições de 2026”, afirmou. Ao desenvolver a ideia, ele associou o uso da novidade àquilo que chamou de “projeto de memoricídio”, uma disputa pela capacidade de preservar e transmitir experiências históricas.
A novidade como disfarce para projetos antigos
A reflexão de Aristides parte de uma pergunta sobre a recorrência de candidatos que prometem romper com o que existe, mas, uma vez no poder, reproduzem práticas e interesses já conhecidos. Para o historiador, o rótulo de novidade pode funcionar como uma maneira de afastar o eleitor da análise concreta das propostas.
A história brasileira oferece, em sua interpretação, exemplos de como a linguagem da renovação pode acompanhar a continuidade de estruturas de poder. Um dos casos citados na entrevista foi a Independência do Brasil, quando a formação do Estado brasileiro foi apresentada como uma ruptura com o domínio português.
Aristides observou que a mudança de poder entre Dom João VI e Dom Pedro I não significou o abandono de práticas repressivas. Ele relacionou a repressão à Revolução Pernambucana de 1817, durante o governo de Dom João VI, à violência empregada contra a Confederação do Equador, em 1824, já sob Dom Pedro I.
“Então, quer dizer, o novo na verdade é o que o velho fazia, o que o Dom João fazia”, declarou.
O historiador mencionou ainda a Revolução de 1930, associada à ideia de uma “República Nova”, e o Estado Novo de 1937, período de ditadura sob Getúlio Vargas. Na sua leitura, a palavra “novo” foi empregada em diferentes momentos para nomear projetos que não necessariamente representavam ampliação de direitos para os setores populares.
Aristides também lembrou a denominação da Aliança Renovadora Nacional, a Arena, partido de sustentação da ditadura militar brasileira. O nome, associado à renovação, convivia com a perseguição política e a restrição das liberdades.
A comparação histórica não pretende afirmar que os períodos são idênticos, mas chamar atenção para a necessidade de examinar o conteúdo de cada proposta. Uma mudança de nome ou de geração política não é suficiente, por si só, para demonstrar que haverá transformação nas relações econômicas e sociais.
Memória, idosos e disputa política
Um dos eixos centrais da entrevista foi a relação entre memória e participação política. Aristides sustentou que a extrema direita enfrenta dificuldades diante de grupos que preservam experiências históricas e podem confrontar narrativas de ruptura apresentadas como soluções inéditas.
O professor destacou especialmente a população idosa. Para ele, esse grupo ocupa uma posição relevante na transmissão de experiências políticas e na orientação de organizações de esquerda.
“Os dois maiores inimigos da extrema direita são as mulheres e os idosos”, afirmou, ao apresentar sua interpretação sobre os grupos que, segundo ele, representam obstáculos à expansão desse campo político.
No caso dos idosos, Aristides identificou dois aspectos. O primeiro seria econômico, relacionado à disputa em torno dos gastos sociais e dos direitos previdenciários. O segundo estaria ligado à experiência política acumulada por pessoas que participaram de lutas sociais e processos de organização ao longo de décadas.
Ele afirmou ter analisado a composição de uma parcela da direção do Partido dos Trabalhadores e estimado que 82% desse núcleo era formado por pessoas com mais de 60 anos. A fala foi apresentada como resultado de um cálculo próprio, sem detalhamento metodológico durante o programa. O percentual, portanto, deve ser compreendido como uma estimativa mencionada pelo entrevistado, não como dado estatístico independente apresentado na entrevista.
A partir dessa discussão, o historiador relacionou a experiência dos mais velhos à capacidade de organização da esquerda. Em sua avaliação, a força política desse campo não depende apenas de recursos financeiros, mas também da orientação política, da organização partidária e das experiências acumuladas em lutas anteriores.
“Quem é que detém esse poder de orientar esse grupo? São pessoas com mais de 60 anos na sua maioria”, disse.
A fala foi acompanhada por uma crítica ao uso de expressões depreciativas para desqualificar pessoas mais velhas. Aristides citou termos como “dinossauro”, “senil”, “caduco” e “fora da realidade”, frequentemente empregados para associar idade à incapacidade de compreender o mundo contemporâneo.
Para o professor, esse tipo de discurso desloca a discussão sobre as condições que permitem ou impedem a participação dos idosos. Ele recorreu a uma comparação com a acessibilidade: se uma ponte desaparece, o problema não está necessariamente no caminhão que precisa atravessá-la, mas na ausência da estrutura que permite a passagem.
“É a questão da acessibilidade pro idoso, meu amigo”, afirmou.
A comparação foi usada para sustentar que dificuldades enfrentadas por pessoas mais velhas não devem ser automaticamente atribuídas à idade. Barreiras urbanas, sociais e políticas também determinam as possibilidades de participação e autonomia.
O Estado, as políticas públicas e a promessa de renovação
A discussão sobre o “novo” avançou para o papel do Estado brasileiro. Durante a entrevista, Luiz Regadas apresentou a ideia de que estruturas estatais poderiam ser descritas como antigas ou ineficientes em discursos eleitorais. Aristides contestou essa associação automática entre antiguidade e incompetência.
“O Estado tá todo dia criando políticas mais amplas de atendimento ao povo”, afirmou.
O historiador citou investimentos em hospitais, Unidades de Pronto Atendimento, indústria, estaleiros e fábricas como exemplos de ações que, em sua interpretação, demonstram a capacidade de atuação do Estado. A declaração foi apresentada em defesa da continuidade e do aprimoramento das políticas públicas.
Aristides também criticou a ideia de que a iniciativa privada seria necessariamente mais eficiente. Durante a conversa, mencionou empresas que enfrentaram dificuldades financeiras, entre elas 123milhas, Americanas, Oi e Light. A referência foi utilizada para questionar a generalização de que o setor privado seria sempre mais competente do que o Estado.
O debate incluiu ainda a exploração de petróleo, a Petrobras e o papel do Estado em setores estratégicos. Regadas lembrou a importância do pré-sal e das decisões tomadas em torno de seus recursos. Aristides defendeu a necessidade de preservar a capacidade brasileira de investir em áreas estratégicas e de utilizar os recursos públicos em benefício da população.
A conversa também mencionou a Embraer, a Boeing e a Base de Alcântara. As referências apareceram no contexto de uma discussão sobre soberania econômica e tecnológica, embora o programa não tenha detalhado os acordos e acontecimentos mencionados.
Previdência e o impacto das decisões econômicas
A situação dos aposentados ocupou parte significativa do diálogo. Luiz Regadas observou que os idosos representam uma parcela expressiva do eleitorado brasileiro e relacionou a discussão eleitoral às políticas de aposentadoria e ao reajuste dos benefícios.
Aristides argumentou que a disputa em torno das contas públicas pode atingir diretamente a população idosa. Para ele, uma redução na renda dos aposentados afeta não apenas a pessoa que recebe o benefício, mas também sua posição dentro da família.
“O maior ataque é você reduzir o dinheiro dele. Quando você reduz agora o dinheiro dele, ele fica menos importante no núcleo familiar dele”, declarou.
A afirmação foi apresentada como uma crítica às políticas que reduzem a renda disponível dos aposentados. O historiador defendeu que o eleitor avalie as consequências concretas de cada proposta sobre a previdência, os salários e os serviços públicos.
Regadas citou também o período posterior ao impeachment de 2016 e a proposta conhecida como “Uma ponte para o futuro”, apresentada pelo então PMDB, hoje MDB. Na entrevista, os dois relacionaram o debate sobre austeridade e investimentos sociais às decisões tomadas nos governos seguintes.
O historiador criticou propostas de redução de gastos sociais e afirmou que o discurso sobre responsabilidade fiscal pode ocultar interesses econômicos. Segundo ele, é necessário observar quem será afetado por cortes em aposentadorias, saúde e educação.
A conversa não apresentou uma análise técnica detalhada dos indicadores previdenciários ou dos impactos fiscais de cada proposta. O foco foi político e histórico, com ênfase na necessidade de examinar as consequências sociais das decisões econômicas.
A dívida pública e a disputa em torno dos números
Outro momento do programa tratou da dívida pública brasileira. Luiz Regadas mencionou a circulação de argumentos que atribuem ao PT a responsabilidade pelo endividamento do país. Aristides questionou a forma como os números são utilizados no debate político.
“Esses números, sabe, é outra enganação. Ninguém sabe o que que é isso. Fala 10 trilhões, 50 bilhões, tanto tal, já é uma salada”, afirmou.
O professor defendeu que o eleitor observe a relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto, em vez de considerar apenas valores absolutos. Durante a conversa, citou percentuais de endividamento de Brasil, Estados Unidos e Japão para argumentar que o tamanho da dívida precisa ser analisado em contexto.
A discussão, contudo, não apresentou dados atualizados, fontes estatísticas ou metodologia para comparar os países. A referência aos números serviu à crítica do entrevistado à maneira como a dívida é mobilizada em discursos eleitorais.
Aristides também criticou o uso de argumentos sobre juros e inflação dos alimentos como justificativa para determinadas decisões econômicas. Na sua interpretação, discursos que apresentam preocupação com o consumidor precisam ser confrontados com as práticas efetivamente defendidas por seus autores.
O passado recente e as promessas de mudança
Ao longo da entrevista, o historiador retomou acontecimentos da política brasileira recente. O período posterior ao impeachment de 2016 apareceu como referência para discutir a distância entre promessas de renovação e resultados de governo.
Aristides mencionou a proposta “Uma ponte para o futuro” e afirmou que medidas adotadas após o afastamento de Dilma Rousseff produziram perdas para trabalhadores e aposentados. A fala se inseriu em sua crítica à ideia de que a mudança política seria positiva apenas por se apresentar como ruptura.
O programa também abordou as eleições de 2018 e a retirada da candidatura de Lula. Regadas lembrou que o então ex-presidente estava preso e que houve restrições à sua participação na disputa eleitoral. Aristides associou esse episódio à discussão sobre os obstáculos enfrentados pelo campo político de esquerda.
A entrevista, entretanto, não detalhou os fundamentos jurídicos do processo eleitoral de 2018 nem apresentou documentos sobre as decisões mencionadas. As referências foram utilizadas como parte da interpretação política dos participantes.
A dimensão internacional da disputa
A discussão sobre o “novo” também foi relacionada à política internacional. Aristides mencionou a ascensão de movimentos de extrema direita na Europa e a disputa geopolítica envolvendo Estados Unidos e China.
Em sua leitura, a retórica de ameaça externa pode ser utilizada para justificar projetos políticos autoritários. O historiador citou a ascensão de Hitler ao poder e a associação entre a crise política alemã e o temor de avanços revolucionários.
Aristides apresentou a interpretação de que setores da direita se articularam em torno de projetos nazifascistas para conter movimentos populares. A comparação foi estendida ao cenário contemporâneo, com referências à América Latina e às disputas em torno da soberania econômica e tecnológica.
O entrevistado também mencionou o uso de tecnologias de comunicação e a possibilidade de manipulação do pensamento por meio das redes sociais. Afirmou que determinados grupos acreditam ser capazes de controlar percepções políticas sem que os indivíduos tenham consciência desse processo.
A fala expressa uma interpretação do entrevistado sobre o uso político da tecnologia. O programa não apresentou estudos específicos que comprovassem a existência de um projeto coordenado de controle do pensamento em escala latino-americana.
A memória como instrumento de participação democrática
No encerramento, Aristides retomou a importância da memória histórica para a participação política. Para ele, a experiência acumulada por gerações anteriores não deve ser tratada como obstáculo à inovação.
“O novo é o momento presente. Quem tá vivo aqui no presente tá participando, tá trazendo a memória e está influindo no futuro”, afirmou.
A declaração sintetiza o argumento desenvolvido durante a entrevista. Em vez de compreender a novidade como uma ruptura automática com o passado, o historiador propôs que o eleitor examine a relação entre experiência histórica, políticas públicas e propostas de governo.
Aristides também defendeu que a população utilize as redes sociais para compartilhar informações e ampliar o debate político. Ele criticou o uso das plataformas apenas para discursos de efeito e afirmou que a pesquisa e a fundamentação são importantes para a formação de opiniões.
“Nós sabemos usar, eles sabem fazer outra coisa, eles sabem fazer novelinhas, eles sabem lacrar, mas isso não é saber usar a rede social, né?”, declarou.
A entrevista terminou com a proposta de aprofundar o tema em outro encontro. Luiz Regadas agradeceu a participação do professor e convidou o público a acompanhar os próximos programas do Café com Democracia, que também recebe convidados para discutir cultura, música e livros.
A conversa deixa uma questão central para o debate eleitoral: quando um candidato se apresenta como novo, o que efetivamente está sendo proposto? A resposta depende menos da linguagem utilizada na campanha e mais da análise das medidas defendidas, dos interesses envolvidos e das consequências para a população.
Referências
Capitães de Abril
Filme dirigido por Maria de Medeiros, citado por Luiz Regadas durante a entrevista como referência sobre a Revolução dos Cravos e a retomada da democracia em Portugal. A obra aborda os acontecimentos de 25 de abril de 1974, que derrubaram a ditadura portuguesa.
Sobre o programa
O Café com Democracia é um programa da rede de comitês populares pela democracia, transmitido pela Atitude Popular de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 8h. A edição de 17 de setembro recebeu Aristides Braga Neto, mestre em História e Culturas, para discutir o uso político da ideia de novidade nas eleições de 2026.
📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
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