O partido global: a disputa pela nova ordem mundial

Como redes políticas transnacionais transformaram eleições nacionais em peças centrais da disputa pela governança do século XXI.

Por Reynaldo Aragon 

Durante décadas, a política internacional foi analisada a partir dos Estados. Mas uma nova realidade emerge diante dos nossos olhos: líderes, partidos, think tanks, plataformas digitais e organizações transnacionais passaram a atuar além das fronteiras nacionais, disputando eleições e influenciando governos em escala global. Este artigo investiga como essa transformação está redesenhando a geografia do poder e por que o Brasil se tornou um dos principais campos de batalha dessa nova ordem mundial.

A política mudou de escala

Durante grande parte da história contemporânea, as eleições foram compreendidas como disputas internas de Estados soberanos. Os eleitores escolhiam governos, os governos definiam políticas nacionais e, a partir delas, cada país projetava sua posição no sistema internacional. Mesmo em meio à Guerra Fria, quando as grandes potências influenciavam processos políticos em diferentes regiões do planeta, permanecia a percepção de que o centro da disputa estava dentro das fronteiras nacionais.

Essa lógica deixou de explicar o mundo. As eleições continuam sendo realizadas dentro dos Estados, mas seus efeitos ultrapassam cada vez mais as fronteiras nacionais. O resultado de uma votação em Brasília, Washington, Buenos Aires ou Varsóvia já não altera apenas a política doméstica. Ele redefine alianças internacionais, reorganiza cadeias econômicas, influencia conflitos geopolíticos, afeta a regulação das plataformas digitais, modifica relações comerciais e pode alterar o equilíbrio de forças entre projetos concorrentes de organização da ordem mundial.

Essa transformação produziu uma mudança silenciosa, mas profunda. As eleições deixaram de ser apenas mecanismos de alternância de poder dentro dos países. Tornaram-se um dos principais campos de disputa entre projetos internacionais de poder. O voto continua sendo depositado nas urnas nacionais, mas seus efeitos passaram a ser calculados em escala global.

É justamente essa mudança que explica um fenômeno até pouco tempo considerado excepcional: líderes estrangeiros apoiando publicamente candidatos em outros países, organizações políticas atuando para além de suas fronteiras, think tanks compartilhando estratégias, plataformas digitais influenciando campanhas em diferentes continentes e redes ideológicas coordenando narrativas em tempo real. Esses acontecimentos costumam ser tratados como episódios isolados. Na realidade, são manifestações de uma transformação estrutural muito mais profunda.

Compreender essa mudança é essencial para interpretar o presente. A questão central já não é apenas quem vencerá uma eleição, mas qual projeto de poder internacional será fortalecido a partir dela. É nesse contexto que emerge aquilo que este artigo denomina partido global: uma articulação política transnacional que disputa governos nacionais como parte de uma batalha muito maior, a definição da próxima ordem mundial.

O nascimento do partido global

Nas últimas décadas, um fenômeno começou a se repetir com uma intensidade inédita: líderes políticos, partidos, fundações, think tanks, empresários, plataformas digitais e organizações privadas passaram a atuar de forma coordenada para influenciar processos eleitorais muito além de seus próprios países. O que antes aparecia como episódios isolados tornou-se uma dinâmica permanente da política internacional.

Nos Estados Unidos, Donald Trump transformou sua liderança em uma referência para movimentos conservadores em diferentes continentes. Na Europa, partidos e lideranças da nova direita passaram a compartilhar estratégias, campanhas e narrativas por meio de estruturas como a CPAC, o Fórum de Madri e uma ampla rede de organizações políticas e intelectuais. Na América Latina, Javier Milei, Nayib Bukele e outras lideranças passaram a integrar esse mesmo circuito de articulação política internacional, participando de eventos comuns, reproduzindo discursos semelhantes e estabelecendo alianças que ultrapassam os limites de seus Estados nacionais.

Esse processo também alcançou o Oriente Médio. Benjamin Netanyahu consolidou uma relação política privilegiada com lideranças da direita internacional, especialmente nos Estados Unidos, transformando temas relacionados a Israel em elementos centrais da disputa política em diversos países. A política externa deixou de ser apenas uma relação entre governos e passou a integrar a disputa eleitoral doméstica de outras nações.

O Brasil ocupa uma posição singular nesse processo. Jair Bolsonaro construiu sua projeção internacional articulado a esse mesmo ecossistema político, estabelecendo vínculos públicos com Donald Trump, Javier Milei, Viktor Orbán, Benjamin Netanyahu e outras lideranças da direita global. Mais recentemente, o apoio explícito de autoridades e parlamentares norte-americanos às pressões econômicas e diplomáticas contra o governo brasileiro, assim como as manifestações públicas de integrantes da família Trump em defesa de Bolsonaro, demonstram que a política brasileira passou a ser tratada como uma peça relevante de uma disputa geopolítica muito mais ampla. O debate nacional deixou de interessar apenas aos brasileiros.

Seria um erro interpretar esses movimentos como a existência de um comando central ou de uma organização única. Não há evidências de um “partido” formal capaz de dirigir essa articulação global. O que existe é algo mais sofisticado: uma infraestrutura política transnacional formada por organizações, financiadores, meios de comunicação, plataformas digitais, institutos de pesquisa, lideranças políticas e redes de influência que compartilham diagnósticos, interesses estratégicos, repertórios discursivos e objetivos convergentes. É essa infraestrutura que este artigo denomina partido global.

O conceito não descreve uma instituição jurídica, mas uma realidade política. Mais do que uma organização, trata-se de uma nova forma histórica de articulação do poder em escala transnacional. Da mesma forma que o capital se internacionalizou sem constituir um único conglomerado mundial, a ação política também passou a operar por meio de redes capazes de coordenar agendas, difundir narrativas, legitimar lideranças e disputar governos em diferentes países. As fronteiras nacionais permanecem, mas a competição pelo poder deixou de respeitá-las. É nesse novo terreno que se trava, hoje, a disputa pela ordem mundial.

A nova geografia do poder

Nenhuma transformação política acontece no vazio. Assim como o capitalismo industrial produziu os Estados nacionais modernos e a Guerra Fria organizou o mundo em torno de dois grandes blocos de poder, a globalização reorganizou as próprias condições materiais da política. O capital internacionalizou suas cadeias produtivas, o sistema financeiro passou a operar em tempo real, as plataformas digitais eliminaram barreiras de comunicação e a infraestrutura tecnológica conectou sociedades inteiras em uma única rede de circulação de informações, mercadorias e influência.

A política acompanhou esse movimento. Se a economia deixou de operar exclusivamente dentro das fronteiras nacionais, seria improvável que a disputa pelo poder permanecesse limitada a elas. Os mesmos fluxos que transportam capitais, dados, tecnologias e narrativas passaram a transportar projetos políticos, estratégias eleitorais, campanhas de comunicação, métodos de mobilização e formas de intervenção capazes de atravessar continentes em poucas horas.

Essa mudança alterou profundamente a natureza da soberania. Os Estados continuam sendo os principais centros de decisão institucional, mas deixaram de monopolizar a produção de poder. Hoje, empresas de tecnologia controlam infraestruturas essenciais da comunicação pública, fundos financeiros influenciam economias nacionais, think tanks formulam agendas que circulam simultaneamente em diversos países e plataformas digitais definem, por meio de algoritmos, parte significativa daquilo que bilhões de pessoas veem, compartilham e acreditam. O poder tornou-se distribuído por uma arquitetura transnacional muito mais complexa do que aquela conhecida ao longo do século XX.

Essa reorganização material também transformou o significado das eleições. Governar um país como Brasil, Estados Unidos, Argentina ou Alemanha significa influenciar cadeias globais de produção, mercados financeiros, acesso a minerais estratégicos, rotas comerciais, desenvolvimento tecnológico, regulação da inteligência artificial, exploração de recursos naturais e alianças militares. A disputa eleitoral deixou de decidir apenas quem administra um Estado; passou a interferir diretamente na correlação de forças da economia política internacional.

É por isso que governos estrangeiros, corporações, fundações privadas, plataformas digitais e redes políticas passaram a investir crescente energia na disputa por eleições realizadas fora de seus territórios. O objetivo não é apenas conquistar aliados ideológicos, mas ampliar posições de poder em uma ordem internacional marcada pela competição entre projetos distintos de organização econômica, tecnológica e geopolítica.

Nesse cenário, a política já não pode ser compreendida apenas pela lógica interna de cada país. Ela precisa ser analisada como parte de uma disputa internacional permanente, na qual as fronteiras continuam existindo, mas deixaram de delimitar o espaço real onde o poder é produzido, disputado e exercido.

O Brasil no centro da disputa

Nenhum país se torna alvo permanente de disputas internacionais por acaso. O Brasil ocupa uma posição estratégica porque reúne atributos que serão decisivos na reorganização da economia e da geopolítica do século XXI. É uma das maiores reservas de água doce do planeta, concentra parte significativa da biodiversidade mundial, possui vastas reservas de minerais críticos, enorme capacidade de produção de alimentos e energia, uma base industrial ainda relevante, liderança regional e integra o principal bloco político responsável pela construção de uma ordem internacional multipolar: os BRICS.

É justamente essa combinação que transforma o país em um espaço permanente de disputa entre projetos distintos de poder global. De um lado, forças comprometidas com a preservação de uma ordem internacional concentradora, hierarquizada e subordinada aos interesses das grandes potências e do capital financeiro transnacional. De outro, países que defendem uma redistribuição do poder internacional, o fortalecimento da soberania nacional, a ampliação da cooperação Sul-Sul, a reforma das instituições multilaterais e a construção de uma ordem multipolar menos assimétrica.

Essa disputa deixou de ocorrer apenas nos fóruns diplomáticos. Ela atravessa eleições, parlamentos, sistemas judiciais, plataformas digitais, mercados financeiros e meios de comunicação. O governo que emerge das urnas brasileiras influencia diretamente temas como a expansão dos BRICS, a desdolarização parcial do comércio internacional, a integração sul-americana, a política climática, a exploração de minerais estratégicos, a regulação das plataformas digitais e a própria distribuição do poder econômico global.

Por essa razão, o Brasil passou a ocupar lugar central no debate político de lideranças estrangeiras. As manifestações públicas de Donald Trump em defesa de Jair Bolsonaro, o alinhamento imediato de Javier Milei a essa agenda internacional, a aproximação política entre Bolsonaro e Benjamin Netanyahu, o apoio de setores da direita internacional às pressões econômicas contra o governo brasileiro e a mobilização de redes transnacionais em torno da política nacional não são acontecimentos desconectados. Todos expressam o reconhecimento de que o futuro político brasileiro produz consequências muito além das fronteiras do país.

Seria um equívoco reduzir essa disputa a uma simples polarização entre direita e esquerda. O que está em jogo é a definição de qual projeto de governança internacional ganhará força nas próximas décadas. De um lado, consolida-se uma articulação internacional marcada pelo nacionalismo excludente, pelo autoritarismo, pela concentração de poder econômico, pela militarização das relações internacionais e pela erosão de direitos democráticos, frequentemente acompanhada de discursos ultranacionalistas, xenófobos e supremacistas. De outro, avança um projeto ainda heterogêneo, impulsionado sobretudo por países do Sul Global, que busca ampliar a multipolaridade, fortalecer a soberania dos Estados, reformar as instituições internacionais e construir relações menos assimétricas entre as nações.

É nesse cruzamento entre recursos estratégicos, posição geopolítica e capacidade de influência internacional que o Brasil deixa de ser apenas um país importante. Torna-se um dos territórios decisivos da disputa pela configuração da próxima ordem mundial.

Quando as eleições nacionais se tornam disputas internacionais

A internacionalização da política deixou de ser uma hipótese para se tornar uma prática cotidiana. Nunca tantos governos, líderes políticos, fundações privadas, empresários, plataformas digitais e organizações transnacionais participaram de forma tão explícita do debate político interno de outros países. A fronteira entre política doméstica e política internacional tornou-se cada vez mais difusa.

Essa transformação pode ser observada na maneira como eleições nacionais passaram a mobilizar atores externos. A eleição presidencial brasileira de 2022 foi acompanhada de perto por governos, mercados financeiros, organismos internacionais e lideranças políticas estrangeiras. Mais recentemente, a crise diplomática envolvendo o governo brasileiro e a administração de Donald Trump revelou um novo patamar dessa disputa. Tarifas comerciais, sanções, declarações públicas, manifestações de parlamentares norte-americanos e a defesa aberta de Jair Bolsonaro por integrantes do governo e do círculo político de Trump demonstraram que a disputa em torno da política brasileira passou a integrar interesses geopolíticos que extrapolam a realidade nacional.

O mesmo padrão pode ser identificado em outras regiões. Javier Milei converteu sua política doméstica em um símbolo de alcance internacional, tornando-se uma das principais referências da nova direita global. Benjamin Netanyahu transformou a política israelense em elemento permanente da polarização internacional. Viktor Orbán, na Hungria, consolidou seu governo como laboratório de uma agenda iliberal que influencia movimentos conservadores em diferentes continentes. Em todos esses casos, as fronteiras nacionais permanecem como espaço institucional das eleições, mas a disputa política já é organizada, financiada, narrada e legitimada por redes que operam em escala transnacional.

Esse movimento não ocorre apenas em um dos polos da política internacional. O fortalecimento dos BRICS, a ampliação das articulações entre países do Sul Global, a defesa de novas instituições financeiras internacionais, os projetos de integração regional e as iniciativas voltadas à construção de uma ordem multipolar também expressam uma crescente coordenação política além das fronteiras nacionais. A diferença é que esses projetos disputam concepções distintas de governança global e de distribuição do poder internacional.

O que emerge desse processo é uma nova realidade histórica. As eleições continuam sendo nacionais em sua forma jurídica, mas tornaram-se internacionais em seus interesses, em seus impactos e nos atores que buscam influenciá-las. O voto depositado por um cidadão brasileiro continua valendo apenas dentro do território nacional. As consequências desse voto, entretanto, são hoje calculadas em Washington, Bruxelas, Moscou, Pequim, Tel Aviv, Buenos Aires, Brasilia e em diversas outras capitais onde se decide, cada vez mais, o futuro da ordem internacional.

A disputa pela nova ordem mundial

A grande disputa do século XXI não ocorre apenas entre governos, partidos ou lideranças. Ela opõe projetos distintos de organização da ordem internacional. O mundo atravessa uma transição histórica marcada pelo esgotamento da arquitetura de poder consolidada após o fim da Guerra Fria e pela emergência de novos polos econômicos, tecnológicos e geopolíticos. Em períodos como esse, as eleições deixam de ser acontecimentos exclusivamente nacionais e passam a integrar a disputa pela configuração do sistema internacional.

Nesse contexto, consolidam-se dois grandes projetos de governança global.  Essa disputa não se organiza, fundamentalmente, em torno das categorias tradicionais de direita e esquerda. Ela opõe projetos distintos de reorganização da ordem internacional, capazes de reunir governos, partidos e interesses econômicos muito diferentes entre si. De um lado, uma articulação transnacional que busca preservar a concentração do poder econômico, financeiro, militar e tecnológico nas mãos de um número reduzido de países e corporações, frequentemente associada ao avanço de agendas autoritárias, ultranacionalistas, supremacistas, militarizadas e hostis à ampliação de direitos e da soberania dos povos. De outro, um projeto ainda em construção, impulsionado sobretudo por países do Sul Global, que defende uma ordem multipolar baseada na ampliação da soberania nacional, na reforma das instituições internacionais, na cooperação entre os povos e em uma distribuição menos desigual do poder mundial.

Os BRICS constituem hoje a principal expressão institucional desse projeto multipolar. Mais do que um bloco econômico, representam a construção de uma arquitetura alternativa de governança internacional, baseada na ampliação da soberania dos Estados, na cooperação entre o Sul Global e na redistribuição do poder econômico, financeiro e político em escala mundial. É justamente por simbolizar essa transição que o bloco passou a ocupar posição central na disputa geopolítica do século XXI.

Essa disputa não elimina as contradições internas de nenhum desses blocos nem transforma seus protagonistas em atores homogêneos. A história nunca se move dessa forma. Mas ela revela uma mudança estrutural: o centro da política internacional deslocou-se da simples relação entre Estados para a disputa permanente entre projetos históricos de reorganização do mundo.

É nesse cenário que o conceito de partido global ganha sentido analítico. Ele não designa uma organização formal nem uma direção única capaz de comandar governos a partir de um centro oculto. Designa uma infraestrutura política transnacional que conecta lideranças, partidos, fundações, think tanks, plataformas digitais, grupos econômicos e redes de influência em torno de estratégias convergentes de poder. Sua força não reside na existência de um comando centralizado, mas na capacidade de produzir coordenação política, difundir narrativas, construir legitimidade e disputar governos em diferentes países como partes de um mesmo tabuleiro geopolítico.

Compreender essa transformação é uma condição para compreender o próprio Brasil. O país deixou de ser apenas objeto das disputas internacionais para tornar-se um dos espaços onde o futuro da ordem mundial está sendo negociado. Cada eleição, cada decisão estratégica sobre tecnologia, recursos naturais, integração regional, inteligência artificial, comunicação, defesa ou desenvolvimento passou a produzir efeitos que extrapolam o território nacional. A soberania continua sendo exercida dentro das fronteiras do Estado, mas sua defesa depende cada vez mais da capacidade de compreender forças que operam muito além delas.

O desafio do nosso tempo, portanto, não consiste apenas em escolher governos. Consiste em compreender quais projetos históricos disputam a reorganização da ordem internacional e quais interesses materiais procuram definir o futuro da humanidade. As eleições continuam sendo realizadas dentro das fronteiras nacionais. A disputa pela ordem mundial, porém, já não reconhece fronteiras.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>