“O que nós não queremos é interferência no Brasil”, diz Lula após conversa com Trump

Em ato em Belo Horizonte, presidente afirma ter contestado tarifas dos Estados Unidos, propõe cooperação contra o crime organizado e relata sugestão de encontro entre Trump, Putin e Xi Jinping

Da Redação

O Presidente Lula afirmou, nesta sexta-feira (21), que conversou durante uma hora e meia com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as tarifas impostas ao Brasil, o combate ao crime organizado e as guerras em curso. Em ato de campanha na Praça da Estação, em Belo Horizonte, Lula disse ter defendido a cooperação entre os dois países, mas rejeitado qualquer tentativa de interferência norte-americana em assuntos brasileiros.

As declarações foram feitas durante comício transmitido ao vivo, cuja íntegra serviu de fonte para esta matéria. O evento reuniu o vice-presidente Geraldo Alckmin, Janja, o candidato ao governo de Minas Gerais Patrus Ananias, o candidato a vice Jarbas Soares e as candidatas ao Senado Marília Campos e Áurea Carolina, além de parlamentares, dirigentes partidários e representantes de movimentos sociais.

O contato com Trump ocupou a parte central do discurso de Lula sobre política externa. O presidente afirmou que questionou diretamente os motivos apresentados pelos Estados Unidos para impor tarifas aos produtos brasileiros.

“Presidente Trump, a taxação que vocês fizeram ao Brasil é uma taxação não só irreal, como foi feita com base na mentira”, contou Lula, ao reproduzir a conversa.

Segundo o relato do presidente, Trump teria usado questões ambientais e trabalhistas para sustentar as medidas comerciais. Lula afirmou que rebateu essas justificativas com dados sobre a redução do desmatamento e o combate ao trabalho escravo no Brasil.

“Você disse que tinha desmatamento no Brasil, e no Brasil nós temos o menor desmatamento da história. E você diz que tem trabalho escravo, e nós combatemos o trabalho escravo”, declarou.

Lula disse que Trump reconheceu a necessidade de avançar no diálogo e determinou que o secretário de Comércio dos Estados Unidos procurasse o representante brasileiro responsável pelas negociações. O presidente não apresentou, durante o comício, uma data para a reunião nem detalhou quais produtos poderão ser incluídos nas conversas.

Cooperação sem interferência

Outro assunto tratado foi o combate às organizações criminosas. Lula afirmou que ofereceu cooperação entre as autoridades brasileiras e norte-americanas, mas estabeleceu como limite o respeito à soberania do Brasil.

“Ô Trump, se você quer combater o crime organizado, vamos combater o crime organizado. A Polícia Federal quer combater o crime organizado. Nós queremos prender esses bandidos”, relatou.

Na sequência, fez a ressalva que marcou sua exposição sobre a relação bilateral: “Nós queremos trabalhar juntos. O que nós não queremos é interferência no Brasil.”

A declaração indica que o governo brasileiro admite compartilhar informações, realizar investigações coordenadas e ampliar o diálogo institucional com os Estados Unidos. Lula, contudo, não detalhou quais mecanismos poderiam ser utilizados nem citou operações específicas.

Ao tratar do tema no comício, o presidente associou a cooperação internacional à autonomia das instituições brasileiras. Para ele, o combate ao crime não pode servir de justificativa para que autoridades estrangeiras interfiram em decisões policiais, judiciais ou políticas do país.

Lula propõe encontro entre Trump, Putin e Xi Jinping

Lula afirmou que também conversou com Trump sobre as guerras e sugeriu uma reunião do norte-americano com os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping.

Segundo Lula, Trump poderia receber os dois dirigentes em sua residência na Flórida para uma conversa destinada à construção de uma saída diplomática para os conflitos.

“Em setembro tem a reunião da ONU. Convida o Xi Jinping e convida o Putin na tua casa, toma um trago, toma um golo e vamos tentar encontrar um jeito de fazer paz”, contou o presidente.

Lula afirmou estar incomodado com o prolongamento das guerras e com o uso crescente de drones nos confrontos. “O mundo está precisando de paz, não está precisando de guerra. O mundo está precisando de amor, não está precisando de ódio”, declarou.

O presidente disse ter conversado por uma hora e dez minutos com Xi Jinping e relatou que, posteriormente, também telefonou para Putin. De acordo com Lula, a mensagem apresentada aos três governantes foi semelhante: países com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas precisam assumir maior responsabilidade pelas negociações de paz.

“Você é poderoso. A China é muito grande. A China tem tudo de que precisa. Agora é preciso que vocês se reúnam”, disse Lula, ao reproduzir parte do diálogo com Xi.

O Brasil não integra o grupo de membros permanentes do Conselho de Segurança, composto por Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido. Lula argumentou que a continuidade das guerras evidencia as limitações do atual sistema internacional e a necessidade de envolvimento direto das grandes potências.

Relação com os Estados Unidos e soberania

Ao explicar sua posição diante de Trump, Lula recordou sua primeira participação em uma reunião ampliada do G7, realizada em Évian, na França, em 2003. O presidente contou que se sentiu inicialmente intimidado ao entrar sozinho em uma sala com líderes das maiores economias mundiais.

Lula afirmou ter mudado de postura ao comparar a trajetória daqueles governantes com sua própria experiência como trabalhador, migrante nordestino e sobrevivente da fome.

“Esses caras são mais importantes do que eu? Quem deles já passou fome? Quem deles teve que andar dois mil quilômetros de pau de arara para não morrer de fome?”, questionou.

Na avaliação de Lula, a experiência social brasileira não deveria ser tratada como motivo de inferioridade diante das grandes potências, mas como uma contribuição ao debate internacional.

“Eu sou mais eu, porque são eles que têm que aprender comigo. Eles precisam conhecer o meu mundo”, afirmou.

O presidente relacionou esse episódio à conversa com Trump e defendeu uma diplomacia que dialogue com os Estados Unidos sem adotar uma posição subordinada. “Se a gente não se respeitar, ninguém respeita a gente. Se você quiser respeito, você tem que se respeitar”, declarou.

Disputa por minerais e tecnologia

A relação com os Estados Unidos também apareceu no debate sobre minerais críticos e terras raras. Lula afirmou que o Brasil está disposto a negociar com empresas e governos estrangeiros, mas pretende exigir que parte da transformação industrial desses recursos ocorra no território nacional.

“Eu estou dizendo para a China, estou dizendo para os Estados Unidos, para a França, para a Itália: nós queremos fazer cooperação com vocês. Nós queremos trabalhar juntos”, disse.

O presidente apresentou, porém, uma condição: os recursos minerais brasileiros deverão ser utilizados para criar cadeias produtivas, empregos qualificados e tecnologia dentro do país.

“A gente não quer vender minério para vocês e comprar chip. A gente não quer vender minério e comprar bateria para carro elétrico. A gente quer fazer a bateria aqui, quer fazer os chips aqui”, afirmou.

A posição confronta um modelo econômico no qual o Brasil exporta matéria-prima e importa produtos industrializados com maior valor. A disputa pelas terras raras ganhou importância internacional porque esses elementos são utilizados em semicondutores, equipamentos militares, telecomunicações, turbinas eólicas e veículos elétricos.

Patrus Ananias reforçou a proposta e afirmou que Minas Gerais não pode repetir com o lítio, o nióbio e as terras raras o modelo histórico de exportação de recursos sem transformação local.

“Nós não podemos continuar exportando matéria-prima e comprando depois a matéria-prima industrializada quatro, cinco ou dez vezes mais cara”, declarou o candidato ao governo mineiro.

Dados brasileiros não devem ficar sob controle externo

Lula também relacionou a soberania nacional ao controle dos dados digitais. O presidente disse que o Brasil pretende atrair centros de processamento, mas não quer que as informações produzidas no país fiquem exclusivamente sob domínio de empresas ou governos estrangeiros.

“Nós não queremos deixar os dados do povo brasileiro na mão dos americanos, dos chineses ou dos russos. Têm que ser nossos dados para a gente poder criar a nossa inteligência artificial”, afirmou.

O presidente citou o Redata, programa encaminhado ao Congresso Nacional para estimular a instalação de data centers. Segundo Lula, a proposta poderá transformar o Brasil em um dos centros internacionais de armazenamento e processamento de informações.

O discurso combinou a abertura a investimentos estrangeiros com a defesa de regras nacionais sobre propriedade, armazenamento e utilização dos dados. Lula também afirmou que o país precisa formar engenheiros, matemáticos e especialistas para desenvolver sistemas próprios de inteligência artificial.

“O Brasil não vai ficar dependendo nem da China, nem dos Estados Unidos para fazer a sua inteligência artificial”, declarou.

Petróleo e indústria de defesa

A defesa de uma relação menos dependente dos Estados Unidos também apareceu nas propostas para o setor energético e a indústria de defesa. Lula anunciou que pretende ampliar os investimentos na proteção das fronteiras terrestres, marítimas e das reservas naturais brasileiras.

“Vamos investir na defesa para a gente tomar conta da nossa riqueza”, afirmou.

O presidente mencionou a extensão do território marítimo, a exploração de petróleo em águas profundas e as reservas de minerais críticos. Segundo ele, o desenvolvimento da indústria de defesa deverá ser integrado à pesquisa tecnológica e à produção nacional de equipamentos.

Lula afirmou que o país continuará disposto a negociar com os Estados Unidos e outras potências, desde que as parcerias contribuam para gerar empregos e capacidade industrial no Brasil.

“Quem quiser conversar conosco, a gente vai conversar, mas tem que saber que a gente quer gerar emprego para vocês, meninos e meninas que estão aqui”, declarou.

Trump e a campanha eleitoral

O relato da conversa com Trump foi inserido por Lula em uma defesa de sua experiência internacional. Em busca de um quarto mandato, o presidente apresentou sua capacidade de dialogar com os dirigentes dos Estados Unidos, da China e da Rússia como uma credencial política.

Ele também procurou afastar a interpretação de que o diálogo com Washington significaria alinhamento automático. Na formulação apresentada em Belo Horizonte, o Brasil pode cooperar com o governo norte-americano em comércio, segurança e tecnologia sem aceitar decisões unilaterais ou interferências internas.

Ao final, Lula vinculou a política externa à eleição para o Congresso Nacional e pediu votos para candidatos comprometidos com sua agenda. Além de Patrus Ananias, ele apoiou Marília Campos e Áurea Carolina para as duas vagas de Minas Gerais no Senado.

“Eu vou ganhar essas eleições. Eu vou ganhar uma ova. Quem vai ganhar são vocês, porque o poder está no dedinho de vocês”, afirmou.

A conversa com Trump, conforme relatada pelo Presidente Lula, abre uma possibilidade de negociação sobre as tarifas, mas ainda não há, no conteúdo apresentado durante o comício, um acordo concluído. O avanço dependerá da reunião entre autoridades comerciais, da definição dos produtos envolvidos e das condições estabelecidas por Brasília e Washington.