Em entrevista ao Café com Democracia, o historiador Didier Junior mostra como Cajazeiras, no Alto Sertão paraibano, transformou-se em uma cena rock que resiste às margens da grande mídia
Quando se fala em Paraíba, o imaginário imediato costuma ser o forró, o baião, Luiz Gonzaga. Mas, na manhã de 21 de novembro, o programa Café com Democracia, da Rádio Web Atitude Popular, lançou outro mapa afetivo para o estado: o das guitarras distorcidas de Cajazeiras, “cidade que ensinou a Paraíba a ler” e que hoje também ensina o sertão a ouvir rock. A conversa foi conduzida por Luiz Regadas com o historiador Didier Junior, doutorando em História pela UFRGS e pesquisador da cena roqueira cajazeirense.
Ao longo da entrevista, Didier articulou sua trajetória acadêmica, seu vínculo afetivo com a cidade onde nasceu e a pesquisa que já virou monografia, livro, artigo acadêmico e documentário. No texto “Um rock do pós-fim do mundo: contracultura, rock ‘n’ roll e paisagens sonoras no Alto Sertão paraibano (Cajazeiras, 1998–2007)”, ele analisa como, a partir do fim dos anos 1980, o rock cria uma “paisagem sonora” própria no sertão, em contraponto às sonoridades tradicionais que costumam monopolizar a imagem da região.
Do “fim do mundo” à paisagem sonora do sertão
Cajazeiras foi apresentada pela imprensa da capital, nos anos 1990, como palco de “um rock do fim do mundo” – manchete do jornal Correio da Paraíba para falar da banda Conspiração Apocalipse, primeira banda de rock da cidade e do Alto Sertão.
Didier retoma essa imagem provocativa para explicar o título da entrevista:
“É um título, a princípio, bem polêmico, para entender que Cajazeiras é o fim do mundo, mas poderíamos dizer que sim, de certa forma, porque Cajazeiras fica a quase 475 km da capital João Pessoa.”
Distante dos centros de decisão e das políticas culturais, a cidade, diz ele, muitas vezes é “desassistida”, inclusive em editais de cultura. Ao mesmo tempo, tem tradição de polo educacional e religioso, com figuras como o padre Rolim e o próprio padre Cícero passando por suas escolas. Nesse ambiente marcado pela educação, pela religiosidade e por uma ideia tradicional de sertão, surge, em 1989, uma banda com nome de terremoto bíblico: Conspiração Apocalipse.
“Foi a partir desse momento que eu comecei a entender como Cajazeiras é uma cidade de rock and roll, uma cidade que começou ali no final da década de 80 com a banda Conspiração Apocalipse.”
Conspiração Apocalipse: do baile à distorção
Antes de 1989, o circuito musical cajazeirense era dominado por bandas de baile e repertórios de Jovem Guarda – festas e matinês que não chegavam a confrontar o ambiente político ou social. A Conspiração Apocalipse rompe esse padrão: assume distorção, letras próprias, crítica social e, com o tempo, constrói uma obra majoritariamente autoral.
Na monografia que deu origem ao livro “Canções e tensões apocalípticas”, Didier mapeia esse percurso: os primeiros shows, o diálogo com Legião Urbana, Cazuza, Queen, até a opção de abandonar os covers e defender um repertório totalmente próprio. Em 2003, a banda lança o disco “Trágica Lógica do Absurdo”, após 14 anos de estrada – um registro que só saiu graças a um raro financiamento da Lei de Incentivo Cultural da Paraíba.
“Percebam o tanto de tempo que a banda demorou para conseguir gravar seu primeiro registro físico. Foi um dos primeiros projetos culturais do sertão a ser aprovado. Isso mostra a dificuldade que o sertão tem de aprovar projetos culturais até hoje.”
As letras tratam de temas políticos, ambientais e existenciais. Didier cita, por exemplo, “Mãe Terra”, composta antes mesmo da fundação oficial do MST, e “Yank Vision”, crítica direta ao olhar colonizador dos Estados Unidos sobre o mundo.
“A banda sempre trouxe uma trajetória artística, social e política. A questão social é muito presente nas letras, com músicas como ‘Mãe Terra’ e ‘Yank Vision’, que falam da visão estadunidense, dessa tentativa de colonizar, de se meter em conflitos bélicos.”
A iconografia também fala por si. A capa de “Trágica Lógica do Absurdo”, desenhada à mão pelo guitarrista Gilberto Alves, traz uma caveira idosa, de boca aberta em grito contido. Para Didier, é um símbolo da própria condição sertaneja:
“A caveira representa que tudo está em movimento e tudo é passageiro. Tudo que a gente vive uma hora vai se acabar. É um símbolo muito forte para o rock e para a banda.”
Tocaia da Paraíba e o sertão que chega à universidade
Se a Conspiração Apocalipse consolida a semente local, outra banda ajuda a projetar Cajazeiras para além das fronteiras do estado: Tocaia da Paraíba. É sobre ela que Didier se debruça no mestrado, agora olhando mais de perto as relações entre universidade, circulação cultural e rock.
“A Tocaia da Paraíba foi uma banda que teve uma projeção um pouco mais expansiva. Eles tocaram na Unicamp, na UFMG, em festivais como o Mada, em Natal. Conseguiram circular bem mais.”
Formada a partir da aproximação entre o músico Naldinho Braga e o professor de Letras Inglês Erivan Araújo, a Tocaia transforma o repertório do sertão em experimentação: mistura rock com baião, maracatu, repente, reggae, sem abandonar a pegada autoral. Em Cajazeiras, outras bandas seguem o mesmo caminho: Baião de Doido, Cabeça Chata, Comportamento Zero, Arlequim Rock ‘n’ Roll Band, entre outras.
Didier lembra que mapeou ao menos oito bandas autorais formadas entre 1995 e 2010, mostrando que não se trata de um episódio isolado, mas de uma cena – com gerações, estilos e circuitos alternativos de circulação.
Rock, forró e a disputa de sentidos no Nordeste
Ao contrário do estereótipo que reserva ao Nordeste apenas o lugar do forró e do “piseiro da moda”, a pesquisa de Didier aponta para uma disputa de sentidos sobre quem representa a região.
“O forró é um gênero extremamente importante para o sertão paraibano, mas o rock também pode ser uma linguagem, é uma linguagem possível para o sertão.”
Essa disputa aparece tanto nas letras quanto nos palcos. O rock de Cajazeiras dialoga com Gonzaga, com o baião, com o repente – mas recusa ser encaixado apenas como “exotismo regional”. É arte que fala de desemprego, terra, colonização cultural, juventude, fé e fim do mundo, sem pedir licença à lógica da grande mídia.
Ao comentar por que bandas como Conspiração Apocalipse não “explodiram” nacionalmente, Didier é direto:
“O Nordeste está muito vinculado a sonoridades mais tradicionais. E existe, sim, preconceito com o nosso Nordeste quando foge desse roteiro. Ainda mais quando as letras têm reivindicação social, crítica política.”
Entre o papel, o palco e a tela: livro e documentário
A pesquisa de Didier começou como monografia em História pela UFCG, virou livro, circulou por Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, Cajazeiras, Campina Grande, João Pessoa e agora chega também ao cinema. Em parceria com a cineasta cajazeirense Veruza Guedes, referência do audiovisual no Alto Sertão, ele roteirizou e codirigiu um documentário financiado pela Lei Paulo Gustavo da Paraíba.
“Eu entendi que não bastava só falar e escrever, talvez fosse necessário filmar. A gente gravou esse documentário em 2024, com cerca de 18 entrevistas, e ele está estreando em 2025.”
O filme, de cerca de 20 minutos, acompanha diferentes gerações da cena rock de Cajazeiras, da década de 1990 até os anos 2010. A exibição tem sido feita em festivais de cinema, universidades e circuitos independentes; depois desse percurso obrigatório para prestar contas aos editais, a ideia é disponibilizá-lo gratuitamente no YouTube.
“É um documentário muito visual. A gente tentou fazer com que não fosse só fala, tem muita imagem, muita coisa da cidade. A ideia é mostrar como Cajazeiras é uma cidade rock and roll, uma cidade que respira o rock cotidianamente.”
Quem quiser acompanhar os próximos passos do filme e da pesquisa pode seguir o perfil @historiandoss no Instagram, onde Didier publica bastidores, reflexões e registros da cena musical paraibana.
Rock como resistência em tempos de apagamento
No fim da entrevista, ficou claro que falar de rock em Cajazeiras é também falar de resistência cultural: à concentração de recursos nas capitais, ao monopólio das grandes gravadoras, ao preconceito com a produção do interior e ao enquadramento estreito do que seria “música nordestina”.
“A ideia é mostrar como o rock é resistência, como ele fala de temas sensíveis da sociedade e como existem diversas gerações na cena de Cajazeiras. Não é uma coisa rasa, é um iceberg cheio de camadas.”
Enquanto a grande mídia insiste em repetir fórmulas, o sertão levanta sua própria trilha sonora – com caveiras que gritam, distorções que pensam e uma juventude que insiste em produzir, mesmo com pouca estrutura, editais escassos e circulação independente.
Se um dia Cajazeiras foi chamada de “fim do mundo”, o rock que nasce dali mostra justamente o contrário: há mundos inteiros sendo inventados a partir das margens.
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