Em entrevista ao programa Democracia no Ar, a pesquisadora Roberta Graf defende a soberania ambiental como soberania dos povos, denuncia o poder do agronegócio e alerta que, sem ruptura com o produtivismo, a Amazônia caminha para o ponto de não retorno
A COP 30 e a disputa global em torno da Amazônia serviram de ponto de partida para uma conversa que foi muito além da agenda climática oficial. No programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, a servidora do ICMBio e doutora em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp, Roberta Graf, defendeu que não há saída ambiental possível dentro da lógica do capitalismo e resumiu sua posição em uma frase que atravessou toda a entrevista: “Os verdadeiros ambientalistas são ecossocialistas”.
A entrevista foi ao ar no dia 19 de novembro de 2025 e integra a série de debates sobre soberania conduzida pela jornalista Sara Goes, com comentários do também jornalista e pesquisador Reynaldo Aragon. Ao longo de mais de cinquenta minutos, a convidada tratou de Amazônia, agronegócio, COPs, orçamento público, geopolítica e disputa cultural, sempre ressaltando que falava em nome próprio, e não em nome institucional do ICMBio.
Soberania ambiental é soberania dos povos
Logo no início, Graf desmontou a ideia de soberania ambiental restrita aos Estados nacionais ou às fronteiras militares. Para ela, o ponto de partida é outro: a centralidade dos povos que vivem e sustentam os biomas.
“A verdadeira soberania é a soberania dos povos”, afirmou. “É soberania alimentar, é soberania da terra, é soberania da água, da floresta, do mar, das cidades. E isso passa por indígenas, quilombolas e todos os povos da floresta, não só povos originários, mas também seringueiros, extrativistas, pescadores, caiçaras, gente que está integrada à natureza há séculos.”
Ao lembrar a história da ocupação do Acre, com a chegada em massa de seringueiros há cerca de 150 anos, Graf reforçou que esses grupos também se tornaram povos da floresta, com modos de vida que se aproximam das cosmologias indígenas e que deveriam ser considerados na formulação de políticas públicas.
Capitalismo como máquina de moer gente e natureza
A partir daí, a pesquisadora entrou no núcleo do seu diagnóstico: a incompatibilidade entre a preservação ambiental e o capitalismo financiarizado, baseado em monoculturas e grandes cadeias globais de produção.
“O capitalismo não é só uma máquina de moer gente, é uma máquina de moer natureza”, disse. “Ele produz aquele 0,5% de muito ricos, uma massa de pobres e um pouco de classe média, mas às custas de territórios roubados, recursos concentrados e violência. Um rico causa um impacto ambiental muitíssimo maior do que uma pessoa pobre. Não é questão de moral individual, é estrutura.”
Para Graf, não basta que a esquerda defenda políticas sociais sem rever o paradigma de desenvolvimento. “Tem muita gente de esquerda que continua produtivista, crescimentista, presa à lógica de gestão do capital. Não basta ser socialista, a gente tem que ser ecossocialista”, afirmou. “Os verdadeiros ambientalistas, ecologistas, são ecossocialistas.”
Ela lembrou que a maior parte das emissões brasileiras está ligada ao desmatamento e à expansão do agronegócio, especialmente gado e soja. “O maior problema ambiental do Brasil é o agronegócio de latifúndio, monocultura horrível para exportação, que não é para alimentar gente, é para engordar animal. O Brasil está imerso em agrotóxico, desmatamento e queimada.”
COPs importantes, mas insuficientes
Questionada sobre a relevância da COP e dos fóruns multilaterais, Graf adotou um tom crítico, sem cair no negacionismo institucional.
“As convenções ambientais são importantes, claro, mas as decisões da COP não são vinculantes. Fica tudo no papel se os países não transformam em lei interna”, explicou. “Se a ONU não consegue garantir governança global nem para impedir genocídios e guerras como na Palestina, no Congo ou em várias regiões da África, vocês acham que vai ter governança efetiva para o meio ambiente?”
Ela destacou a potência política da Cúpula dos Povos na Amazônia, que produziu um documento que define como um verdadeiro tratado de ecossocialismo, com ampla participação de indígenas, quilombolas, populações tradicionais e movimentos sociais. Ao mesmo tempo, alertou para a presença recorde de lobistas de combustíveis fósseis nas conferências climáticas recentes.
“Se não houver soberania popular, se o povo não estiver organizado para pressionar, a COP vira palco de relações públicas de empresas e governos”, resumiu.
Governo Lula, teto de gastos e amarras do sistema
Ao tratar da política ambiental do governo Lula, Graf fez questão de marcar posição: não se trata de oposição ao governo, e sim de crítica estrutural às amarras que continuam travando a área ambiental.
“Todo verdadeiro ambientalista vota em Lula na correlação de forças atual, não tem comparação com o fascismo”, pontuou. “Mas a área ambiental recebe 0 vírgula quase nada do orçamento. O Fundo Amazônia, o Fundo Clima e outros recursos existem, só que boa parte fica trancada por regras fiscais, teto de gastos, arcabouço. Até isso é engolido pelo ajuste.”
Segundo ela, servidores de Ibama e ICMBio “tiram água de pedra” para manter ações de fiscalização e conservação. “A gente segura a onda, vai a campo armado, enfrenta risco, ameaças, sabotagem, tudo com estrutura mínima. Enquanto isso, a Polícia Federal, que também é muito importante, ainda tem muito mais recurso que os órgãos ambientais.”
Graf também criticou a lentidão na demarcação de terras indígenas e na reforma agrária. Citando dados de entidades como a Comissão Pastoral da Terra, lembrou que os conflitos no campo e a violência contra povos indígenas seguem em níveis alarmantes. “Tem dezenas de terras indígenas prontas para homologar, esperando só uma assinatura, travadas pela força política dos latifundiários. O Brasil ainda é dominado pelas mesmas elites das capitanias hereditárias.”
Amazônia sitiada: agronegócio, crime organizado e extrema direita
Reynaldo Aragon trouxe para o centro do debate a contradição eleitoral da região Norte, onde governadores alinhados à extrema direita dominam a Amazônia Legal, ao mesmo tempo em que populações rurais, tradicionais e pobres seguem expostas à violência de grandes interesses econômicos.
Graf descreveu um cenário de simbiose entre crime ambiental e crime organizado na região. “Na época do governo Bolsonaro, o crime comum aprendeu a fazer crime ambiental e ficou tudo entranhado. Todo garimpeiro é da facção e todo mundo da facção é garimpeiro na área florestal. É terrível”, relatou. Ela lembrou que, em cidades como Santarém, a contaminação por mercúrio atinge mais de 70% da população, com povos indígenas chegando a 100%.
A pavimentação da BR-319, entre Porto Velho e a região Norte, foi apontada como um divisor de águas. “A BR-319 pode ser o fim da Amazônia”, alertou. “Só o anúncio da obra já gera ocupação da beira da estrada, desmatamento, grilagem, boi, soja, agrotóxico. A floresta está chegando num ponto de inflexão. A seca está aumentando, os rios estão secando, as árvores estão morrendo de sede. A floresta está ficando inflamável.”
Geopolítica, think tanks e o risco de “terra ingovernável”
Na parte final do programa, Aragon trouxe à tona a narrativa, alimentada por think tanks do Norte global, de que a Amazônia seria uma “terra ingovernável” e que os países amazônicos não teriam condições de garantir soberania sobre o território. Ele expressou o temor de que crises combinando narcotráfico, facções armadas e violência ambiental sejam usadas como argumento para intervenções internacionais.
Graf concordou que esse risco existe e defendeu maior articulação com povos e governos de Venezuela, Colômbia, Equador e Peru. “A Amazônia é o coração da disputa geopolítica global”, avaliou. “Se a gente não se organizar para defender o território, a biodiversidade e os povos, governadores de extrema direita podem entregar de vez o território para os interesses do Norte global.”
Para ela, a resposta passa necessariamente por organização popular, integração entre movimentos e fortalecimento da esquerda em bases territoriais. “Não existe solução rápida. É trabalho de formiguinha, de longo prazo, entrando nas comunidades, nos bairros, nas escolas, nas associações, nos sindicatos.”
Educação ambiental, data centers e disputa cultural
Além da macroeconomia e da geopolítica, Graf chamou atenção para temas que raramente aparecem no debate público, como o impacto ambiental dos data centers e da inteligência artificial.
“Data center é um horror”, disse. “Consome água, energia, expulsa gente do campo, aquece o clima. A internet e a inteligência artificial não são imateriais. Poluem muito. E a gente está trazendo esses empreendimentos para o Brasil sem discutir soberania energética, hídrica e digital.”
Ela defendeu um “letramento digital urgente” que conecte tecnologia e meio ambiente, criticou o uso banalizado de ferramentas de inteligência artificial e relacionou tudo isso à precarização da educação, inclusive com a reforma do ensino médio.
Ao falar sobre educação ambiental, lembrou a importância das mudanças recentes que tornaram o tema mais obrigatório em diferentes espaços e faixas etárias, mas alertou para o abismo entre leis e prática. “Desde 2010 temos uma Política Nacional de Resíduos Sólidos. Mesmo assim, a maior parte das cidades não tem coleta seletiva, não tem reciclagem, não reduz embalagem. A lógica do descartável continua mandando.”
Crise da biodiversidade e chamado à militância
No encerramento, Graf lançou o alerta mais duro da noite: a crise da biodiversidade tende a ser ainda mais devastadora que a crise climática.
“A biodiversidade é o que segura a onda para a gente não ter pandemias e para manter todos os serviços ecossistêmicos, não só o clima”, explicou. “Se a gente não tiver água limpa, ar puro, solo fértil e biodiversidade, a gente está em rota de extinção da espécie humana. Não é metáfora, é base da vida.”
Por isso, ela insiste que não basta delegar a tarefa a governos ou especialistas. “Todo mundo tem que ser militante anticapitalista, militante pela igualdade social e militante ecologista”, afirmou. “A gente é maioria. Se somar os mais pobres de grana e boa parte da classe média, somos mais de 90%. O que falta é militância, organização e coragem de enfrentar os grandes interesses.”
A entrevista com Roberta Graf terminou com convite à continuidade do debate em outros espaços da rede de comunicação popular, como o canal Código Aberto, reforçando a ideia de que a disputa ambiental é também disputa de narrativa, de informação e de projeto de país.
No centro da conversa, porém, uma frase se impôs como síntese de um programa inteiro: em um planeta em colapso e uma Amazônia sitiada, “os verdadeiros ambientalistas são ecossocialistas”.
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