Em análise no Democracia no Ar, o professor Osmar de Sá Ponte avalia os efeitos da ressaca pós-Janela Partidária no Ceará, discute a saída de Luizianne Lins do PT, o redesenho das alianças para 2026 e o peso das articulações nacionais sobre a política local
A edição mais recente do programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, trouxe uma análise detida sobre os efeitos da Janela Partidária no Ceará e no Brasil, em debate conduzido por Sara Goes com comentários do professor Osmar de Sá Ponte. A partir da reorganização das siglas e das lideranças após o período legal de trocas partidárias, o programa discutiu como se redesenha o tabuleiro político para as eleições de 2026.
Ao longo da conversa, Osmar de Sá Ponte sustentou que a movimentação recente não pode ser lida apenas como dança de cadeiras ou oportunismo episódico. Para ele, as mudanças expressam uma disputa mais profunda sobre poder, governabilidade, alianças e representação institucional, sobretudo num momento em que o Senado passa a ocupar posição decisiva na estabilidade democrática brasileira. “O Senado hoje é a grande disputa política”, afirmou.
A análise partiu do caso cearense, mas rapidamente se expandiu para o quadro nacional. No centro do debate apareceu a crise interna do PT no Ceará, agravada pela saída da deputada federal e ex-prefeita de Fortaleza Luizianne Lins, que deixou o partido no dia 2 de abril. A ruptura foi tratada no programa como um marco de reacomodação das forças progressistas no estado, mas também como sintoma de impasses maiores entre identidade partidária, estratégia eleitoral e pactos de coalizão.
Para Osmar, a trajetória de Luizianne não pode ser reduzida a um detalhe lateral da conjuntura. “A Luizianne é um símbolo da nossa política”, disse. Em seguida, reforçou o peso político da ex-prefeita ao afirmar que ela possui “uma característica muito própria, muito autêntica”, algo que, segundo ele, “credibiliza muito a esquerda”. Por isso, advertiu que o PT sofreu, sim, uma perda relevante com sua saída. “Não adianta querer diminuir e achar que o PT não perdeu muito. Eu acho que perdeu.”
Ao comentar o processo que levou ao rompimento, o professor retomou a sucessão de conflitos acumulados nas últimas disputas. Sua leitura é a de que, ao deixar de acomodar com razoabilidade os diferentes interesses da base governista, o PT aprofundou tensões que já vinham de antes, especialmente desde a eleição municipal de Fortaleza. Segundo ele, parte do problema está no fato de que a esquerda brasileira, por sua longa experiência como oposição, se acostumou historicamente a montar suas chapas sozinha, sem precisar negociar de fato com aliados. Quando passa a ocupar o governo, no entanto, a lógica muda.
“Quando você tá no governo, muda a história”, resumiu. Na avaliação do comentarista, um partido que já ocupa o governo estadual não pode se comportar como se estivesse sozinho no tabuleiro. A disputa por vagas majoritárias, portanto, não pode ignorar o peso dos demais partidos da coalizão. “Não é possível que um partido queira ter mais do que um lugar na majoritária”, declarou, associando esse impasse diretamente às dificuldades de composição no Ceará.
A observação ajuda a entender o pano de fundo da crise. O campo governista no estado reúne PT, PSB, PSD e outras forças que exigem participação proporcional no desenho da chapa de 2026. Para Osmar, o problema não é apenas saber quem “merece” ser candidato, mas como equilibrar interesses partidários e viabilidade eleitoral. Nesse ponto, ele foi explícito ao mencionar nomes fortes do próprio campo petista. Luizianne, disse ele, “merece” disputar o Senado. José Guimarães, também. Mas a política, insistiu, não se resolve apenas pelo critério do merecimento individual.
“A política é arte do possível”, afirmou, numa das formulações centrais da entrevista. Em sua leitura, a racionalidade política exige que as lideranças olhem para o conjunto da correlação de forças e não apenas para os desejos de um grupo ou tendência. “Você não pode propor para alguém algo que piora a situação dele e ele vai entrar de graça e você ficar com tudo”, observou, em crítica direta à ideia de que o PT pudesse reter o governo estadual e ainda reivindicar hegemonia absoluta na chapa majoritária.
Esse raciocínio o levou a defender o protagonismo do governador Elmano de Freitas na construção da aliança. Para o professor, os “aliados sinceros” do governador deveriam reconhecer nele a autoridade política para articular a composição de 2026. Em seu entendimento, negar ao chefe do Executivo estadual essa prerrogativa enfraquece não apenas o governo, mas o próprio partido. Mais do que uma questão de vaidade ou hierarquia, trata-se, segundo ele, de garantir coerência estratégica a uma coalizão ampla e heterogênea.
Ao examinar os efeitos concretos da Janela Partidária, Osmar argumentou que, do ponto de vista da base governista, as perdas e ganhos não alteraram substancialmente o equilíbrio geral. Segundo ele, o campo aliado do governo permaneceu robusto e os principais movimentos se deram mais na redistribuição interna de posições do que numa fuga estrutural de apoio. A exceção citada por ele foi o deslocamento de Mauro Filho para o campo de Ciro Gomes, algo que classificou como previsível em razão da antiga relação entre ambos.
Se na base governista o rearranjo foi mais contido, na oposição a mudança pareceu mais visível. Osmar chamou atenção para o fortalecimento do PSDB no Ceará, que passou a concentrar um conjunto maior de parlamentares identificados com o campo oposicionista de centro-direita. Em sua descrição, houve uma espécie de aglutinação de forças em torno da liderança de Ciro Gomes, o que deu nova centralidade ao PSDB na disputa estadual. O dado, no entanto, não o levou a concluir por uma alteração drástica do quadro. Para ele, trata-se antes de um reordenamento interno da oposição do que de uma virada estrutural na correlação de forças.
A figura de Ciro, aliás, apareceu no debate cercada de especulações. Osmar afirmou não acreditar, ao menos por ora, que o ex-ministro será candidato ao governo do Ceará. Sua hipótese é outra: a de que Ciro possa se integrar a uma articulação nacional voltada à reconstrução de um centro político capaz de romper a polarização entre lulismo e bolsonarismo. “Eu acho que existe um movimento nacional muito forte de construir, de resgatar essa ideia de um centro”, disse.
Essa leitura o levou a relacionar as movimentações do PSDB, do PSD e de outras siglas à possibilidade de uma frente mais ampla de despolarização. Na entrevista, ele sugeriu que esse campo poderia se organizar nacionalmente em torno de uma candidatura que não se identificasse nem com a extrema direita nem com o núcleo histórico do PT. Embora tenha reconhecido que se trata ainda de uma análise em aberto, tratou essa hipótese como uma “condição de possibilidade” real para os próximos meses.
O professor também associou esse tipo de rearranjo ao que chamou de necessidade de resgatar a autoridade política e institucional no país. Em sua visão, a crise brasileira não é apenas eleitoral, mas de credibilidade das instituições e de degradação do debate público. “A grande crise é a crise da autoridade política que tem que ser retomada”, afirmou. Para ele, a extrema direita se alimenta justamente da desmoralização da política, da suspeita generalizada e da destruição da confiança social nos partidos, no Legislativo e no Judiciário.
Por isso, uma de suas formulações mais contundentes veio ao tratar da dinâmica polarizadora que tomou conta da vida pública brasileira na última década. “Política entre o bem e o mal é sempre um viés fascista”, declarou. A frase resume uma preocupação central de sua análise: a de que a democracia não pode se sustentar na lógica de aniquilação simbólica do adversário, mas sim na construção de pactos institucionais, convivência entre diferenças e respeito às regras do jogo.
Osmar não relativizou o papel da extrema direita nesse processo, mas também cobrou mais sobriedade e autocontenção dos demais poderes. Em sua avaliação, o sistema político brasileiro precisa passar por um ajuste de funções e limites para que cada poder recupere sua identidade própria. Ele criticou o excesso de protagonismo do Judiciário em alguns momentos, a hipertrofia do Legislativo por meio das emendas e a erosão da capacidade programática do Executivo. Sem essa reorganização, sustentou, o país seguirá exposto a crises recorrentes de governabilidade e legitimidade.
Dentro desse quadro, a disputa pelo Senado ganhou relevo estratégico. Osmar argumentou que as eleições de 2026 serão decisivas não apenas para a Presidência, mas para a composição da Casa que, em sua leitura, tem funcionado como instância-chave de contenção ou validação de aventuras autoritárias. Seu temor é que a direita e a extrema direita ampliem sua presença na instituição e passem a usar esse poder para desestabilizar um eventual novo governo Lula ou qualquer outro governo de perfil democrático-popular.
No caso cearense, ele avalia que há condições de o campo do centro democrático, da centro-esquerda e da esquerda eleger dois senadores, desde que não desperdice força em conflitos internos. A unidade, portanto, aparece em sua análise não como um valor abstrato, mas como necessidade prática diante de uma disputa nacional mais dura. A lógica vale tanto para a definição da chapa local quanto para os acordos nacionais envolvendo nomes como Camilo Santana, Cid Gomes, Simone Tebet, Marina Silva e outras lideranças.
A menção a Camilo foi uma das passagens mais sugestivas da entrevista. Osmar observou com interesse os sinais emitidos pelo presidente Lula ao apontar o ex-governador e atual ministro como um nome de projeção nacional. Ainda que sem cravar cenários, ele considerou simbólica a hipótese de Camilo surgir como sucessor político de Lula no futuro. Para o Ceará, disse, isso projeta ainda mais o peso do estado nas negociações nacionais e reforça a centralidade do senador licenciado no desenho da sucessão estadual.
Outro ponto relevante da conversa foi a defesa de uma noção mais ampla de tolerância democrática nas alianças. Ao comentar nomes de fora do campo tradicional da esquerda que dialogam com setores progressistas, Osmar sustentou que a política exige capacidade de conversar com a sociedade real, e não apenas com aqueles que pensam da mesma forma. O cuidado que propôs, no entanto, foi outro: preservar identidades partidárias sem dissolvê-las em arranjos puramente táticos. Para ele, ampliar o campo democrático não pode significar apagar os contornos programáticos das legendas.
No balanço geral, a entrevista desenhou um quadro de transição. A Janela Partidária terminou, mas sua ressaca está apenas começando. O Ceará segue como um dos estados mais intensos da política nacional, com crises que misturam velhas rivalidades, novas composições e projeções que ultrapassam os limites regionais. Na leitura de Osmar de Sá Ponte, a sucessão de 2026 não será decidida apenas pela força dos nomes, mas pela capacidade de ler o momento histórico com alguma complexidade.
A advertência final do professor foi nesse sentido. Em vez de análises sectárias ou simplificadoras, ele defendeu olhar amplo sobre os riscos que cercam a democracia brasileira, inclusive os de interferência internacional e os de corrosão institucional produzidos pela extrema direita. Para ele, o que está em jogo não é somente a disputa por mandatos, mas a capacidade do país de reconstruir um ambiente político em que divergência não signifique destruição mútua.
No Ceará, esse debate já começou. E ele passa, inevitavelmente, pela forma como partidos, lideranças e movimentos vão administrar as sequelas da Janela Partidária, o peso simbólico da saída de Luizianne Lins do PT, o reposicionamento da oposição em torno do PSDB e as negociações que devem definir a chapa governista. Se a política é mesmo, como disse Osmar, a arte do possível, os próximos meses dirão quais possibilidades prevalecerão no estado e no país.
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