Bruno Bassi alerta para avanço da direita e do ruralismo na disputa por 54 cadeiras do Senado e defende mobilização dos movimentos sociais diante de um Congresso mais conservador
A composição do Senado Federal a partir de 2027 pode alterar de maneira significativa as condições políticas do próximo governo. Essa foi uma das principais questões discutidas no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, que recebeu Bruno Bassi, coordenador de projetos e pesquisador do Observatório De Olho nos Ruralistas. A entrevista analisou a renovação de 54 cadeiras do Senado, a atuação das bancadas corporativas e os possíveis efeitos de um Legislativo ainda mais alinhado à direita.
Bruno Bassi avaliou que o Senado deixou de exercer, nos últimos anos, o papel de contenção que historicamente desempenhava diante de propostas mais agressivas aprovadas pela Câmara dos Deputados. Segundo ele, a mudança ficou especialmente evidente na legislatura atual, quando os senadores passaram a aprovar ou ampliar medidas consideradas prejudiciais aos direitos sociais e ambientais.
“Na última eleição, o Senado piorou muito”, afirmou Bruno. Para ele, a mudança de perfil da Casa pode ser observada em votações como a aprovação do projeto sobre agrotóxicos, do marco temporal para terras indígenas e do projeto de flexibilização do licenciamento ambiental.
O pesquisador destacou que, em alguns casos, o Senado não apenas aprovou projetos que haviam avançado na Câmara, mas também contribuiu para ampliar os impactos negativos de determinadas propostas. O licenciamento ambiental foi citado como exemplo de uma matéria cujo texto recebeu mudanças consideradas mais graves durante sua tramitação no Senado.
Essa alteração de perfil transformou a Casa em um dos principais alvos da direita brasileira. Bruno explicou que o interesse do PL e de outros partidos conservadores está relacionado à possibilidade de alcançar uma maioria capaz de aprovar medidas contra ministros do Supremo Tribunal Federal e alterar regras constitucionais.
“Então esse é o panorama que a gente tinha, né? E aí qual que é o panorama dessas eleições? No momento, pelo que mostram as pesquisas, é muito grave”, afirmou.
A eleição de 2026 renovará duas das três cadeiras de senador em cada estado e no Distrito Federal, totalizando 54 vagas. Para Bruno, as pesquisas disponíveis indicavam crescimento do PL e de outras forças de direita, enquanto os partidos de esquerda e centro-esquerda apresentavam uma expansão mais limitada.
O pesquisador, contudo, ponderou que a eleição para o Senado possui características próprias e que as pesquisas apresentam maior dificuldade para capturar o comportamento do eleitor nesse tipo de disputa. Ele citou como exemplo a eleição de Dilma Rousseff em Minas Gerais, quando levantamentos divulgados às vésperas da votação apontavam um resultado que não se confirmou nas urnas.
Segundo Bruno, quando há duas vagas em disputa, o eleitor pode decidir sua segunda escolha apenas nos momentos finais da campanha. Também existe a possibilidade de votos nulos, votos em legenda e alterações de última hora.
Mesmo com essas ressalvas, o pesquisador considerou preocupante a possibilidade de crescimento da direita e da extrema direita na composição do Senado. A avaliação considera não apenas o desempenho do PL, mas a possibilidade de articulação com partidos que costumam integrar o chamado Centrão e que, em determinadas pautas, votam alinhados aos interesses conservadores.
Bruno chamou atenção para o fato de que os senadores eleitos permanecerão no cargo por oito anos. Isso significa que o resultado da eleição terá efeitos que ultrapassarão o próximo mandato presidencial.
“O Senado será uma casa decisiva nos próximos 4 anos”, afirmou. Na avaliação do pesquisador, a composição da Casa terá influência direta sobre a capacidade do governo de aprovar políticas públicas e enfrentar temas relacionados à questão ambiental, aos direitos indígenas e às demandas dos movimentos sociais.
Durante o programa, o professor Fábio Sobral ampliou a discussão para a relação entre a disputa eleitoral e o crime organizado. Ele afirmou estar preocupado não apenas com a composição do Senado, mas com o que classificou como uma presença crescente de grupos criminosos na política institucional.
Sobral criticou a possibilidade de candidaturas associadas, segundo ele, a grupos criminosos e questionou a atuação da Justiça Eleitoral diante dessas disputas. Também afirmou que a permanência de determinadas candidaturas seria resultado de anos de tolerância institucional diante de manifestações e práticas atribuídas à extrema direita.
Em sua análise, o professor relacionou ainda organizações criminosas, milícias e atividades econômicas ilegais. Ele mencionou investigações sobre lavagem de dinheiro e afirmou que setores do sistema financeiro estariam sendo utilizados por grupos criminosos para movimentar recursos.
A discussão voltou então para a composição do Senado e para a necessidade de atuação dos movimentos sociais. Bruno Bassi afirmou que, independentemente de quem vencer a eleição presidencial, as organizações populares terão de manter capacidade de mobilização para enfrentar um Congresso que tende a permanecer conservador.
O pesquisador apresentou dados levantados pelo Observatório De Olho nos Ruralistas sobre a Frente Parlamentar da Agropecuária, a FPA. Segundo ele, a frente conta atualmente com 48 senadores, considerando os 18 que permanecerão na Casa após a renovação. A projeção baseada nas pesquisas disponíveis poderia elevar esse número para 56.
Bruno apresentou também um cenário mais pessimista, elaborado pelo instituto Polindata, que trabalha com análises de cenários a partir de pesquisas eleitorais. Nesse levantamento, o número de senadores que poderiam integrar a FPA chegaria a 63.
“Estamos falando de 80% do Senado nessa previsão ultra pessimista”, afirmou.
A presença de parlamentares vinculados ao setor rural, segundo Bruno, não se restringe aos partidos de direita ou à extrema direita. Ele destacou que partidos que integram a base governista também possuem parlamentares ligados ao agronegócio, o que produz convergências em determinadas pautas ambientais mesmo quando não existe alinhamento político completo com a direita.
O pesquisador citou como exemplo as discussões sobre licenciamento ambiental, flexibilização das regras para empreendimentos e outras medidas relacionadas ao setor produtivo. Para ele, existe uma articulação crescente entre diferentes frentes parlamentares ligadas a interesses empresariais.
“Esse alinhamento do campo que quer a destruição das leis ambientais, que quer a flexibilização do Estado para atender os interesses corporativos, ele já existe, ele já está posto”, afirmou.
Segundo Bruno, essa articulação reúne setores distintos do empresariado e se manifesta em frentes parlamentares relacionadas ao agronegócio, às empresas de tecnologia, ao setor portuário, ao transporte de cargas e a outros segmentos econômicos.
A análise também apontou os efeitos dessa composição sobre um eventual quarto mandato do Presidente Lula. Bruno afirmou que políticas relacionadas à reforma agrária, à demarcação de terras indígenas e à titulação de territórios quilombolas enfrentariam dificuldades ainda maiores diante de um Senado mais conservador.
Ele avaliou que o terceiro mandato de Lula apresentou avanços em algumas áreas, mas não cumpriu integralmente expectativas dos movimentos sociais. Citou a situação dos povos indígenas Pataxó, na Bahia, e Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, além da permanência de problemas relacionados ao garimpo em Roraima.
Na avaliação de Bruno, um eventual novo governo precisaria enfrentar essas pautas com maior pressão social, já que a via institucional teria capacidade limitada para produzir mudanças em temas nos quais o Congresso possui interesses conflitantes.
“Será necessário muita mobilização”, afirmou.
O pesquisador também considerou que os movimentos sociais estão mais preparados para esse cenário do que estavam no início do terceiro mandato. Ele explicou que, nos primeiros anos dos governos anteriores de Lula, parte das organizações sociais perdeu capacidade de mobilização porque muitos de seus dirigentes foram incorporados ao governo.
Para Bruno, esse processo tende a ser diferente em um eventual quarto mandato. A estrutura governamental já estaria mais consolidada e os movimentos sociais teriam acumulado experiência suficiente para manter uma atuação mais independente.
Outro ponto discutido foi a concentração dos meios de comunicação. Bruno defendeu a necessidade de revisar as regras de concessão de rádio e televisão e chamou atenção para a presença de políticos entre os proprietários de veículos de comunicação.
“Brasil precisa discutir concessão de mídia”, afirmou. Para ele, a concentração dos meios de comunicação continua sendo um problema democrático e a presença de grupos políticos no controle de veículos pode produzir conflitos de interesse na própria formulação das políticas públicas.
A discussão também passou pelas plataformas digitais. Bruno mencionou a existência de uma frente parlamentar ligada às empresas de tecnologia e relacionou esse grupo a outras bancadas corporativas que atuam no Congresso.
No encerramento do programa, Sousa Júnior resumiu essa presença parlamentar em seis grupos que chamou de “bancadas do B”: Bíblia, boi, bala, Big Tech, bancos e bets. Na avaliação apresentada pelo apresentador, essas bancadas poderiam ser compreendidas como diferentes expressões de interesses que atuam contra pautas populares.
A conclusão apresentada pelos participantes foi que a eleição presidencial não pode ser analisada separadamente da disputa pelo Congresso. Mesmo um governo comprometido com políticas sociais enfrentará dificuldades caso tenha de negociar permanentemente com um Senado dominado por forças conservadoras e setores empresariais organizados.
Bruno Bassi defendeu que a atuação dos movimentos sociais não termine com a eleição. Para ele, a pressão organizada será necessária para garantir avanços em questões ambientais, indígenas, trabalhistas e sociais que dificilmente terão apoio suficiente dentro de um Congresso mais alinhado aos interesses corporativos.
O programa também destacou a disputa pela comunicação. A entrevista de Lula ao Flow Podcast foi apresentada por Sousa Júnior como uma oportunidade para ampliar o alcance da comunicação alternativa diante dos grandes grupos tradicionais. A transmissão simultânea da entrevista por veículos independentes foi apontada como uma forma de disputar audiência e ampliar o alcance da mensagem presidencial.
Ao final, a discussão sobre o Senado deixou uma questão central para o próximo ciclo político: a eleição de um presidente comprometido com determinadas políticas não garante, por si só, condições para implementá-las. A composição do Legislativo, a força das bancadas corporativas e a capacidade de mobilização dos movimentos sociais serão fatores decisivos para determinar o espaço de atuação do próximo governo.
O debate do Democracia no Ar apresentou, assim, a disputa pelas 54 cadeiras do Senado como uma eleição com efeitos que ultrapassam a formação da próxima legislatura. Para Bruno Bassi, o resultado definirá parte importante das condições políticas para tratar de temas como direitos indígenas, proteção ambiental, reforma agrária, regulação das plataformas digitais e democratização da comunicação.
Referências
Não foram citados livros, autores, artistas, séries ou filmes na entrevista que exijam uma seção específica de referências bibliográficas.


