Juros a 15%, poder dos bancos e desinformação eleitoral pautam debate sobre política econômica no Café com Democracia
A manutenção da taxa Selic em patamar elevado, os efeitos do crédito caro no bolso do trabalhador e a disputa política em torno do Banco Central dominaram o debate do programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, com participação do professor Nelson Campos, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará. Ao longo da conversa, o convidado relacionou juros altos à concentração de riqueza, à influência do poder econômico sobre instituições e ao ambiente de desinformação que, segundo ele, tende a se intensificar em ano eleitoral.
Esta matéria foi produzida a partir do transcript do programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, que tratou do tema “Política econômica e o impacto dos juros altos” e repercutiu a decisão do Banco Central de manter a Selic em 15%, num contexto de inflação pressionando preços e de disputa narrativa sobre rumos da economia.
“Quem manda num país? O poder econômico”
Logo no início, Nelson Campos respondeu à pergunta sobre a chamada autonomia do Banco Central, formalizada em 2021, propondo um enquadramento mais amplo: para ele, a economia define as estruturas políticas e ideológicas porque é na “base material” que se decide, em última instância, quem tem poder.
“Quem é que manda no país? O poder econômico.”
O professor explicou sua visão a partir de uma leitura estrutural: quem controla o que se produz, para quem se produz e como se produz tende a influenciar as instituições. Na prática, disse, o sistema favorece agentes que lucram com taxas elevadas — especialmente o setor financeiro, que ganha mais quando o custo do dinheiro sobe.
“Esses banqueiros que vivem das taxas de juros… quanto mais elevadas sejam as taxas de juros, maior a rentabilidade de seus investimentos.”
Crédito caro, consumo travado e o “controle” da inflação
Ao discutir a decisão de manter a Selic em 15%, Nelson Campos argumentou que a lógica dominante no sistema financeiro é conter inflação “dificultando o consumo”. Ele descreveu o mecanismo: juros altos tornam empréstimos mais caros, restringem crédito e diminuem a pressão de demanda — o que, na teoria econômica clássica, ajudaria a segurar preços.
“Uma forma de controlar a inflação… é aumentar a taxa de juros, exatamente para dificultar o crédito e consequentemente diminuir a pressão de consumo.”
O convidado também chamou atenção para os impactos sociais desse caminho. Segundo ele, o peso recai com mais força sobre quem tem menos renda e menos acesso a crédito — tanto na pessoa física quanto no pequeno empreendedor.
“Normalmente quem sofre é quem tem menos.”
A partir daí, o professor fez uma crítica direta ao que chamou de “ganância desmedida” de grupos econômicos que, em sua avaliação, não têm compromisso com bem-estar coletivo, e sim com a rentabilidade de carteiras e investimentos.
“Eles não estão preocupados com o bem-estar da população… estão preocupados com a rentabilidade de suas carteiras.”
Banco Master, fundo garantidor e captura do Estado
Em outro trecho do programa, Nelson Campos usou o caso do Banco Master como exemplo para ilustrar relações entre risco, rentabilidade e proteção institucional. O professor mencionou o fundo garantidor como mecanismo de segurança para investidores até um determinado limite e afirmou que o debate em torno dessa garantia mostra como o sistema cria amortecedores para o capital — enquanto o crédito ao trabalhador permanece caro e restrito.
“O Banco Master… vivia do fundo garantidor… Até 250 mil reais, a pessoa estaria com o seu investimento garantido.”
Nesse contexto, ele afirmou que banqueiros “procuram interferir no Banco Central” e citou nominalmente o ex-presidente da autoridade monetária, atribuindo-lhe conhecimento prévio sobre a situação do banco. Para o professor, esse tipo de engrenagem evidencia que a tal “independência” do Banco Central deve ser questionada: independente de quem?
“A pergunta que você fez, independência de quê?”
Juros, dólar e o jogo dos investidores
O professor também explicou, de forma didática, como variações entre dólar e bolsa podem refletir movimentos de investidores em busca de rentabilidade, conectando o fenômeno às taxas elevadas. Ao abordar oferta e procura, ele afirmou que o dólar funciona como mercadoria: se a procura aumenta, o preço sobe; se a oferta cresce, tende a cair.
“O dólar é uma mercadoria como outra qualquer.”
Na leitura do convidado, esse vai-e-vem do capital se articula a um cenário internacional conturbado e a disputas de poder que atravessam governos. Ele citou Donald Trump como exemplo de tensão entre chefes de governo e bancos centrais, argumentando que há conflitos sobre limites à política econômica.
Congresso, emendas e leis para “blindar” poder
Ao tratar do ambiente político, Nelson Campos criticou a predominância de forças conservadoras no Congresso e associou esse quadro a mecanismos de autoproteção institucional. Ele mencionou o debate sobre investigação e citou instrumentos como emendas impositivas, emendas secretas e emendas Pix como parte de um cenário em que, segundo ele, grupos hegemônicos tentam reduzir transparência e dificultar apurações.
“Eles criaram leis para blindar, para proteger a eles próprios das investigações.”
O professor ponderou que não se pode “colocar todo mundo no mesmo caldeirão”, reconhecendo que há parlamentares comprometidos com causas populares. Ainda assim, sustentou que o comando político do Legislativo estaria, em grande parte, subordinado a interesses do poder econômico.
Taxar super-ricos: “não passa”, diz professor
Questionado sobre taxação de super-ricos como forma de ampliar arrecadação e viabilizar investimentos sociais — e, indiretamente, abrir caminho para juros menores — Nelson Campos foi taxativo ao avaliar a correlação de forças.
“Não passa, não passa não, porque quem tem o controle… não é o Lula, não.”
Para ele, a resistência vem do financiamento indireto: grandes grupos não entram necessariamente na política com “candidatura própria”, mas sustentam mandatos que defendem seus interesses no Legislativo.
“Ele financia os seus candidatos para que eles lá no Congresso Nacional… defendam os interesses.”
Bets, desinformação e a “indústria de fabricar mentiras”
O professor também atacou o que chamou de economia da ilusão — citando o mercado de apostas (bets) como mecanismo de transferência de renda dos mais pobres para empresários e plataformas — e relacionou isso à vulnerabilidade social.
“Para cada esperto que existe, existe um monte de bestas.”
No mesmo eixo, ele alertou para a circulação de boatos e narrativas falsas que distorcem o debate público, citando exemplos de fake news envolvendo lideranças políticas. Ao mencionar o deputado Nicolas Ferreira, o professor afirmou que mentiras se tornam capital eleitoral, impulsionando projeções de poder.
“Há uma indústria de fabricar mentiras.”
Imprensa: “tratar da realidade tal qual a realidade é”
Ao ser provocado a falar do papel do jornalismo, Nelson Campos disse que a imprensa integra a “superestrutura” da sociedade e, portanto, sofre influência de quem controla poder econômico. Ele criticou a homogeneidade editorial de grandes veículos e afirmou que o jornalismo deveria se basear em fatos, não em “achismo”.
“O jornalista tem a responsabilidade de tratar da realidade tal qual a realidade é.”
Citando a Jovem Pan como exemplo negativo, ele sustentou que parte da mídia atua como correia de transmissão de interesses econômicos e políticos, inclusive na construção de candidaturas preferidas do mercado.
Ano eleitoral e consciência política
O bloco final da entrevista voltou ao tema das eleições e ao que o professor chamou de “consciência política”. Para Nelson Campos, a escolha do eleitor não é neutra: votar em representantes comprometidos com esquemas de corrupção ou captura do Estado significa, em alguma medida, legitimar essas práticas.
“O voto não tem preço, tem consequência.”
Ele concluiu defendendo que a população observe quem financia, quem lucra e quem paga a conta dos juros altos — e criticou a inversão narrativa que, segundo ele, atribui crimes a adversários enquanto relativiza denúncias envolvendo setores da extrema direita.
📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 33.829.340/0001-89






