A adesão da Frente Parlamentar da Agropecuária e de Ronaldo Caiado a Flávio Bolsonaro expõe um conflito que não cabe em afinidade ideológica. O agro brasileiro se aproxima de Washington enquanto disputa com produtores americanos alguns dos mercados que sustentam sua própria expansão.
Por Reynaldo Aragon
O problema não é gostar dos Estados Unidos ou da China. É saber quem compra, quem concorre, quem controla ativos estratégicos e o que o Brasil perde quando troca margem de manobra por alinhamento. Os documentos já permitem fazer essa conta sem adivinhação.
Quando a ideologia chega à planilha
Há alguns meses publiquei um texto chamado “Se Lula cair, vocês caem junto”. O argumento era simples. Num mundo reorganizado pela disputa entre Estados Unidos e China, afinidade política não revoga interesse econômico. Potências defendem seus produtores, suas empresas, sua tecnologia e seu poder. Não era uma profecia. Era uma conta. A julgar pelo entusiasmo com que parte do agro recebeu a candidatura de Flávio Bolsonaro, talvez valha conferir os números mais uma vez.
Em 1º de outubro, a diretoria da Frente Parlamentar da Agropecuária declarou apoio oficial a Flávio. Quatro dias depois, Ronaldo Caiado anunciou que faria o mesmo no segundo turno. Nada há de estranho em empresários, produtores ou suas representações políticas apoiarem quem consideram mais próximo de seus interesses. A curiosidade começa quando se pergunta se todos os interesses entraram na planilha.
E planilha é justamente uma coisa que o agro sabe fazer. O produtor calcula fertilizante, diesel, frete, câmbio, produtividade, juros, seguro, armazenagem e preço futuro. Alguns centavos por tonelada têm a desagradável propriedade de continuar sendo dinheiro quando multiplicados por uma safra inteira. É uma atividade pouco tolerante a romantismo contábil. Por isso chama atenção a facilidade com que uma parte do setor parece abandonar a calculadora quando a conta chega à geopolítica.
No primeiro trimestre de 2026, a China comprou US$ 11,33 bilhões do agronegócio brasileiro e respondeu por 29,8% das exportações do setor. Os Estados Unidos compraram US$ 2,24 bilhões, equivalentes a 5,9%. No mesmo período, as vendas do agro brasileiro ao mercado americano caíram 31,2%. Esses números não fazem de Pequim amiga do Brasil nem de Washington inimiga. Apenas lembram que países compram, vendem, protegem mercados e defendem interesses. É menos emocionante que uma fotografia de campanha, mas costuma pagar melhor.
O produtor de Iowa também fez a conta
O agricultor americano não interrompe a colheita para verificar a afinidade ideológica do concorrente de Mato Grosso. Ele olha preço, produtividade, mercado e governo. O Departamento de Agricultura dos próprios Estados Unidos descreve o Brasil como concorrente em soja, milho, algodão, carnes, açúcar, café, suco de laranja e etanol. Na soja, o Brasil tomou a liderança americana e hoje responde por parcela próxima de 60% das exportações mundiais. No milho, chegou a superar os Estados Unidos como maior exportador em 2023. No algodão, os dois países disputam a ponta do comércio internacional.
Essa mudança não ocorreu num seminário sobre multipolaridade. Ocorreu em portos, contratos e toneladas. Há vinte anos, os Estados Unidos respondiam por cerca de 40% das exportações mundiais de soja e 68% das de milho. Em 2024, essas participações haviam caído para aproximadamente 26% e 30%. Seria preciso uma confiança extraordinária na fraternidade entre povos para imaginar que Washington observou duas décadas de perda de mercado e decidiu não fazer nada a respeito.
Trump fez exatamente o contrário. A Casa Branca negociou com Pequim compromissos de compra de pelo menos 25 milhões de toneladas de soja americana por ano entre 2026 e 2028, além de pelo menos US$ 17 bilhões anuais em outros produtos agrícolas dos Estados Unidos. O acesso da carne bovina americana ao mercado chinês também entrou no pacote. Washington apresentou o acordo como vitória de seus agricultores. Naturalmente. America First ainda não ganhou uma tradução em que Goiás venha antes de Iowa.
A guerra comercial anterior já havia mostrado o outro lado da equação. Pesquisa publicada em 2026 na revista The World Economy estimou que a retaliação chinesa contra produtos americanos elevou em 28,4% o valor e em 21,2% a quantidade das exportações brasileiras beneficiadas pelo desvio de comércio. Quando o produto americano perdeu espaço na China, o brasileiro ocupou parte dele. Quando Washington negocia para recuperar mercado, tenta recuperar exatamente aquilo que perdeu. Não há vilão nessa história. Há concorrente.
Nem Pequim merece tratamento sentimental. Em 2026, a China limitou importações de carne bovina e passou a aplicar tarifa adicional sobre volumes brasileiros acima da cota. Quando seus interesses domésticos exigiram proteção, a parceria estratégica esperou do lado de fora. Isso é útil porque limpa a discussão de qualquer romantismo. O Brasil ganha quando compradores competem pelo que produz e perde quando transforma um deles em patrono.
Washington chegou com a lista pronta
A discussão deixaria espaço para abstrações se o governo americano não tivesse colocado no papel as políticas brasileiras que pretende alterar. A investigação da Seção 301 tratou de comércio digital, serviços de pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, acesso do etanol americano ao mercado brasileiro, combate à corrupção e desmatamento ilegal. Em julho, Washington aplicou tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos do Brasil. O próprio USTR explicou que sua ação buscava defender agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores americanos. Não chega a ser uma mensagem cifrada.
O momento mais revelador veio em 7 de julho, quando Flávio Bolsonaro participou da audiência pública do USTR. Ele informou que havia se reunido no mês anterior com Donald Trump, JD Vance e Marco Rubio para discutir as tarifas. Uma representante americana então perguntou que medidas, além das tarifas, poderiam levar o Brasil a eliminar as políticas contestadas no processo. Flávio respondeu que as tarifas não eram o caminho adequado, mencionou a possibilidade de mudança de governo em janeiro e sugeriu que Washington considerasse esperar ou suspender a decisão.
É importante não inventar aquilo que o documento não diz. Flávio não prometeu naquela resposta acabar com o Pix, desmontar o RenovaBio ou conceder cada item da lista americana. A transcrição permite uma afirmação mais precisa e, por isso mesmo, mais séria. Diante de uma pergunta sobre como obter mudanças em políticas brasileiras, a possibilidade de um novo governo apareceu na resposta do candidato. Poucas investigações recebem da realidade a gentileza de entregar pergunta, resposta e contexto no mesmo documento.
O Pix ajuda a perceber o alcance dessa agenda. Empresas e associações americanas questionaram características do sistema brasileiro de pagamentos, inclusive o papel do Banco Central e as condições de concorrência. Flávio defendeu a preservação do Pix, mas também propôs mantê-lo afastado de certas redes de pagamentos não ocidentais. O debate, portanto, não é apenas sobre soja ou tarifa. Chega à infraestrutura por onde circulam dinheiro, dados e poder econômico. O agricultor acompanha Chicago, o banco acompanha juros, a mineradora acompanha o minério. Washington tem a inconveniente vantagem de olhar tudo ao mesmo tempo.
A experiência brasileira já deveria servir de vacina contra a ideia de que proximidade política suspende interesse comercial. Em março de 2019, Jair Bolsonaro chegou a Washington oferecendo isenção unilateral de vistos, facilidades em Alcântara e uma cota anual de 750 mil toneladas de trigo com tarifa zero. A comitiva voltou frustrada com a falta de avanços em carne e açúcar, e o apoio americano à entrada do Brasil na OCDE veio condicionado a uma concessão na OMC. Meses depois, Trump ameaçou restaurar tarifas sobre aço e alumínio brasileiros e justificou a medida dizendo que a política cambial do Brasil prejudicava agricultores americanos. A amizade continuava ótima. A conta também.
Goiás já entrou na planilha de Washington
Se a geopolítica ainda parecer distante da porteira, Goiás resolve o problema. O estado governado por Caiado está no centro da corrida por minerais críticos que abastecem motores elétricos, turbinas, eletrônicos avançados e sistemas de defesa. Em março, o governo goiano assinou um memorando de cooperação com os Estados Unidos para pesquisa, processamento, manufatura e atração de investimentos. O documento admite, em determinadas condições, acesso exclusivo temporário de entidades indicadas pelos americanos a informações produzidas por levantamentos geológicos apoiados pelos Estados Unidos. Quem conhece antes o recurso, sua localização e seu potencial não recebeu apenas uma curiosidade científica.
A Serra Verde mostra a escala do movimento. A operação de Minaçu produz em escala os quatro elementos magnéticos de terras raras mais importantes para ímãs permanentes. Em 2026, a americana USA Rare Earth acertou sua aquisição numa operação de aproximadamente US$ 2,8 bilhões. A Serra Verde recebeu financiamento de até US$ 565 milhões da DFC e firmou um acordo de quinze anos para destinar 100% da produção da primeira fase a uma estrutura capitalizada por organismos do governo americano e capital privado, com pisos de preço para os quatro elementos magnéticos.
É preciso reconhecer o mérito. Washington identifica o recurso, financia a expansão, organiza a compra de longo prazo e integra o ativo a uma cadeia concebida para reduzir a dependência ocidental da China. Não é conspiração. É política industrial. Das boas, inclusive. O problema aparece quando o Brasil participa da história apenas com o buraco no chão.
Investimento estrangeiro não é pecado econômico. País que precisa de capital e tecnologia e decide rejeitar ambos pode terminar soberano apenas sobre o próprio atraso. A questão relevante é onde ficam conhecimento, beneficiamento, tecnologia, poder de decisão e margem industrial depois que o minério sai de Goiás. A nova política federal de minerais críticos tenta justamente criar triagem para mudanças de controle estrangeiro, acesso a informação geológica estratégica e operações sensíveis, além de estimular agregação de valor no país. O ponto não é impedir negócio. É evitar que negócio e estratégia sejam tratados como a mesma coisa.
A estratégia está escrita
Há uma razão para soja, Pix e terras raras aparecerem na mesma história. A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos de 2025 afirma que Washington pretende fortalecer cadeias críticas no Hemisfério Ocidental, reduzir dependências, tornar-se parceiro preferencial dos países da região e dificultar o avanço de concorrentes extrarregionais. O documento fala em identificar pontos e recursos estratégicos, mobilizar instrumentos do governo americano e desencorajar certas colaborações com outros parceiros. É uma política legítima para uma potência que sabe o que quer.
O problema brasileiro não está em Washington perseguir seus objetivos. Está em Brasília, Goiânia ou qualquer outro lugar imaginar que esses objetivos sejam automaticamente os nossos. A economia brasileira cresceu em poder externo justamente porque passou a operar entre vários centros, vendendo à China, negociando com os Estados Unidos, buscando Europa, Oriente Médio e Ásia e usando a competição entre compradores e investidores para ampliar sua própria margem. A posição mais racional não é escolher um protetor. É impedir que qualquer potência possa cobrar o preço de ser indispensável.
É por isso que o apoio de Caiado e da FPA a Flávio Bolsonaro merece uma leitura mais séria do que a fotografia eleitoral. Um projeto de aproximação maior com Washington pode produzir ganhos em algumas áreas e custos em outras. A pergunta estratégica é quem fará a conta quando o interesse do agricultor de Iowa colidir com o do produtor de Mato Grosso, quando uma empresa estrangeira quiser controlar um ativo crítico ou quando o governo americano pedir mudanças em regras brasileiras que beneficiem suas próprias empresas. Nessas horas, amizade ajuda a marcar reunião. Não decide o preço.
A calculadora também funciona na geopolítica
O agro brasileiro construiu uma das atividades mais competitivas do mundo porque aprendeu a fazer conta sem sentimentalismo. Incorporou tecnologia, assumiu risco, ampliou produtividade, encontrou mercados e aproveitou uma transformação internacional que deslocou parte do comércio agrícola dos Estados Unidos para o Brasil. Seria uma ironia peculiar chegar ao momento de maior disputa por esse espaço e decidir que geopolítica é a única área em que números podem ser substituídos por afinidade.
Nada disso exige escolher a China contra os Estados Unidos. Essa seria apenas outra forma de dependência, com bandeira diferente. O interesse brasileiro está em vender para quem comprar, negociar com quem oferecer melhores condições, receber investimento sem abrir mão de capacidade de decisão e conservar concorrência suficiente para que nenhum parceiro transforme acesso ao mercado brasileiro em direito adquirido sobre a política brasileira.
O primeiro texto terminava com um aviso. Este termina com uma conta mais completa. O governo americano já declarou os setores que pretende proteger, negociou a recuperação de mercado agrícola na China, abriu contencioso contra políticas brasileiras, incorporou minerais críticos à sua estratégia hemisférica e financiou uma cadeia de terras raras em Goiás. Flávio Bolsonaro já esteve diante do USTR discutindo esse conflito. Caiado e a principal frente parlamentar do agro decidiram apoiá-lo. Todos esses fatos podem coexistir sem teoria conspiratória alguma.
A questão é apenas se quem sabe calcular uma safra inteira está disposto a calcular também o preço de uma escolha estratégica.
Porque o mercado costuma perdoar menos que a política.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>

