Governo Trump classifica os Institutos Confúcio como ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos e acusa organizações culturais chinesas de espionagem e influência ideológica nas universidades americanas. Pete Hegseth afirma ter desmantelado 80 entidades em 30 instituições, mas não apresenta provas públicas das acusações. Documentos oficiais e relatos das universidades revelam que a ofensiva também atinge programas de intercâmbio e cooperação acadêmica, ampliando a disputa entre Washington e Pequim pelo controle da produção científica e tecnológica.
Da Redação
O governo de Donald Trump ampliou sua ofensiva contra a presença chinesa nas universidades dos Estados Unidos ao classificar os Institutos Confúcio, organizações dedicadas ao ensino do mandarim e à divulgação da cultura chinesa, como ameaças à segurança nacional americana. O anúncio foi feito na sexta-feira, 23 de outubro, pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, que acusou instituições financiadas por Pequim de funcionar como instrumentos de propaganda, infiltração ideológica e roubo de propriedade intelectual. Segundo o chefe do Pentágono, 80 organizações vinculadas à China teriam retomado suas atividades sob diferentes nomes em 30 universidades americanas, apesar das restrições impostas pelo Congresso. Hegseth afirmou que todas foram desmanteladas nos últimos dois meses, mas não apresentou publicamente provas individualizadas das acusações nem uma relação completa das entidades supostamente envolvidas.
A decisão representa um novo capítulo da crescente disputa entre Washington e Pequim pelo controle de tecnologias estratégicas, pela circulação internacional do conhecimento e pela influência sobre instituições acadêmicas. A ofensiva americana ultrapassa o ensino da língua chinesa e alcança acordos de pesquisa, programas de intercâmbio, financiamento universitário e parcerias científicas que envolvem algumas das principais instituições de ensino superior dos Estados Unidos. O ponto mais controverso está na amplitude das medidas: a proteção de pesquisas sensíveis e tecnologias militares constitui uma preocupação legítima de segurança nacional, mas a extensão dessas restrições a atividades educacionais e culturais exige demonstrar concretamente quais relações representam riscos efetivos.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Hegseth afirmou que os Institutos Confúcio haviam conseguido contornar restrições legislativas mediante mudanças de nome e reorganizações institucionais. O secretário descreveu essas entidades como estruturas clandestinas destinadas a influenciar estudantes e obter conhecimentos produzidos nas universidades americanas. Segundo sua versão, as 80 organizações identificadas nas 30 instituições mantinham vínculos com o governo chinês e perseguiam objetivos incompatíveis com a segurança dos Estados Unidos. O anúncio, entretanto, não esclareceu quais universidades abrigariam cada organização, quais atividades constituiriam espionagem, que informações teriam sido apropriadas indevidamente ou quantos dos casos envolveriam efetivamente os antigos Institutos Confúcio.
Essa ausência de detalhamento é particularmente importante porque o Pentágono já havia divulgado, quatro dias antes, um balanço de uma operação mais ampla de fiscalização de parcerias acadêmicas internacionais. Em 19 de outubro, o Departamento de Defesa anunciou que 30 universidades americanas haviam adotado medidas para encerrar ou reduzir relações consideradas problemáticas com instituições estrangeiras. Segundo o comunicado, as auditorias produziram mais de 80 ações relacionadas ao encerramento de parcerias. A coincidência entre os números apresentados nesse balanço e os utilizados posteriormente por Hegseth não demonstra que se trate exatamente das mesmas organizações. Tampouco permite concluir que todas as relações encerradas envolvessem os Institutos Confúcio ou atividades de espionagem.
A operação havia começado em agosto, quando o Pentágono determinou que 30 instituições de ensino superior examinassem suas relações acadêmicas, financeiras e científicas com organizações estrangeiras incluídas em listas de preocupação para a segurança nacional. As universidades receberam prazo até 31 de agosto para apresentar resultados e medidas corretivas. O descumprimento das exigências poderia comprometer o acesso a recursos federais destinados à pesquisa. Entre os alvos estavam instituições associadas à China, mas também organizações de outros países classificadas pelo governo americano como potenciais ameaças. O procedimento incluiu ainda parcerias vinculadas a antigos Institutos Confúcio que haviam sido reorganizados sob novas denominações.
A dimensão dessa pressão financeira aparece numa investigação publicada pelo jornal The Washington Post em 21 de outubro. Ao examinar documentos e informações de 17 das universidades atingidas, o jornal constatou que várias instituições não haviam identificado exposição de pesquisas sensíveis ou tecnologias sujeitas a restrições de exportação. Algumas relações questionadas pelo Pentágono envolviam programas de intercâmbio estudantil, cursos de graduação e atividades acadêmicas sem ligação com projetos militares. Seis das 17 universidades analisadas indicaram que pretendiam preservar ao menos parte de suas parcerias com instituições chinesas. A investigação revelou, portanto, uma diferença relevante entre a apresentação oficial da operação como um desmantelamento de relações ameaçadoras e a natureza concreta de parte dos acordos submetidos à fiscalização.
Na Universidade Estadual de Oklahoma, por exemplo, a administração identificou acordos com a Universidade Fudan, da China, relacionados a turismo, hotelaria e intercâmbio de estudantes. Após examinar os programas, a instituição afirmou não ter encontrado riscos de exposição de pesquisas sensíveis, informações controladas para exportação ou projetos financiados pelo Departamento de Defesa. Ainda assim, decidiu encerrar as relações por precaução diante das exigências federais. Medidas semelhantes foram adotadas pela Universidade do Texas em Austin e pela Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, que anunciaram o encerramento de determinados programas de intercâmbio mesmo sem identificar envolvimento com pesquisas militares ou tecnologias restritas.
O caso da Universidade Drake, no estado de Iowa, ilustra outra dimensão do conflito. A instituição defendeu a continuidade de um programa conjunto de graduação com a Universidade Qingdao, da China, argumentando que não possuía contratos ativos de pesquisa com o Departamento de Defesa e que a universidade parceira não integrava a lista federal de instituições proibidas. O programa, que envolve aproximadamente 500 estudantes, foi apresentado pela direção universitária como uma atividade educacional legítima, sem relação demonstrada com os riscos descritos pelo governo. A posição revela que nem todas as universidades aceitaram automaticamente a interpretação do Pentágono sobre suas relações internacionais.
A ofensiva também atingiu instituições de grande relevância para a produção científica americana. Harvard, Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Johns Hopkins, Georgetown e Cornell figuraram entre as universidades submetidas às exigências de revisão de parcerias, segundo informações publicadas pela imprensa americana. A presença dessas instituições demonstra o alcance potencial da política, pois universidades dessa dimensão participam simultaneamente de pesquisas fundamentais, projetos tecnológicos de interesse militar, programas educacionais internacionais e redes científicas que dependem da circulação de pesquisadores e conhecimentos. Uma restrição administrativa capaz de afetar esse conjunto de atividades pode produzir consequências que ultrapassam o objetivo declarado de impedir a transferência indevida de informações estratégicas.
A disputa sobre os Institutos Confúcio, entretanto, não começou agora. Criados em 2004 para difundir o idioma e a cultura chinesa, esses centros passaram a funcionar em parceria com universidades estrangeiras e com financiamento de entidades vinculadas à China. Seu modelo institucional despertou questionamentos sobre transparência contratual, autonomia acadêmica, seleção de professores e possível interferência nas atividades educacionais. Críticos argumentam que programas financiados por governos estrangeiros podem estabelecer condições incompatíveis com a liberdade de investigação e de ensino. Pequim rejeita a caracterização generalizada dessas instituições como instrumentos de espionagem e sustenta que sua atuação integra práticas legítimas de intercâmbio cultural.
Durante o primeiro mandato de Donald Trump, o Departamento de Estado já havia intensificado a pressão sobre os centros chineses. Em agosto de 2020, o então secretário de Estado Mike Pompeo classificou o Confucius Institute U.S. Center, organização responsável pela coordenação da rede americana, como missão estrangeira da República Popular da China. A medida impôs obrigações de transparência sobre funcionários, financiamento e atividades, mas não determinou automaticamente o fechamento dos institutos instalados nas universidades. Posteriormente, normas aprovadas pelo Congresso estabeleceram restrições ao financiamento federal de instituições que mantivessem essas parcerias, criando incentivos econômicos para sua descontinuidade.
A eficácia dessas restrições pode ser observada nos dados do próprio governo americano. Um relatório publicado em outubro de 2023 pelo Government Accountability Office, órgão independente de fiscalização vinculado ao Congresso dos Estados Unidos, mostrou que o número de Institutos Confúcio em universidades americanas havia caído de aproximadamente 100, em 2019, para menos de cinco. O levantamento ouviu representantes de quase uma centena de instituições e identificou que a possibilidade de perder recursos federais foi um dos principais fatores responsáveis pelos encerramentos. Entre 74 instituições que responderam à pesquisa sobre os motivos do fechamento, mais de 60% apontaram a ameaça ao financiamento público como um fator de grande importância.
O mesmo relatório registrou consequências educacionais dessas decisões. Diversas universidades informaram redução das oportunidades de aprendizado do mandarim e de participação em atividades acadêmicas e culturais relacionadas à China. Algumas passaram a financiar programas com recursos próprios, enquanto outras buscaram apoio de instituições americanas, entidades de Taiwan e parceiros internacionais alternativos. O documento também identificou práticas adotadas pelas universidades para preservar o controle acadêmico dos programas, incluindo a limitação do poder decisório de funcionários estrangeiros e a submissão das direções dos institutos à administração universitária. Esses dados mostram que o debate envolve não apenas a identificação de riscos, mas também a possibilidade de estabelecer mecanismos de supervisão e transparência sem necessariamente eliminar todos os vínculos educacionais.
A legislação americana tornou-se ainda mais restritiva nos anos seguintes. A autorização de defesa para o exercício fiscal de 2021 estabeleceu limitações ao uso de recursos do Pentágono em universidades que abrigassem Institutos Confúcio. Alterações posteriores ampliaram o alcance da definição legal dessas organizações, incluindo programas financiados direta ou indiretamente pelo governo chinês e por entidades específicas de promoção linguística. O mecanismo previa possibilidades de dispensa individual, mas essa autorização excepcional deixou de valer em 1º de outubro de 2026. Dessa maneira, quando Hegseth anunciou a nova classificação, já existia um sistema jurídico e financeiro capaz de restringir significativamente a manutenção de programas enquadrados nas regras federais.
A posição chinesa também precisa ser compreendida a partir do desenvolvimento recente dessas medidas. Em 23 de outubro, no mesmo dia do anúncio de Hegseth, o Ministério do Comércio da China criticou restrições americanas à cooperação científica com instituições chinesas. A manifestação respondia especificamente às medidas envolvendo entidades de pesquisa incluídas em listas de segurança do Pentágono, e não constituía uma resposta direta ao vídeo sobre os Institutos Confúcio. O governo chinês acusou Washington de ampliar indevidamente o conceito de segurança nacional e de transformar relações acadêmicas em instrumentos de disputa política. Pequim argumentou que as restrições prejudicam a circulação de conhecimentos e podem comprometer o desenvolvimento tecnológico dos próprios Estados Unidos.
A dimensão estratégica do conflito torna-se evidente quando se observa o conjunto das restrições americanas. A chamada lista 1286, utilizada pelo Departamento de Defesa para identificar instituições estrangeiras consideradas problemáticas, envolve universidades e centros de pesquisa ligados a áreas sensíveis da competição tecnológica internacional. Entre os setores submetidos a maior atenção estão semicondutores, inteligência artificial, computação quântica e tecnologias com aplicações civis e militares. A proteção desses conhecimentos representa um objetivo declarado da política americana, especialmente diante da expansão da capacidade tecnológica chinesa. O problema surge quando categorias amplas de risco são aplicadas indistintamente a atividades acadêmicas de natureza muito diferente.
A disputa coloca as universidades numa posição particularmente delicada. Uma parcela importante da pesquisa científica americana depende de recursos públicos e de contratos associados ao sistema federal de defesa. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento do conhecimento exige colaboração internacional, intercâmbio de pesquisadores e relações com instituições estrangeiras. Quando a continuidade do financiamento passa a depender do rompimento de determinadas parcerias, as administrações universitárias enfrentam escolhas que podem envolver a preservação de contratos estratégicos, a autonomia acadêmica e os interesses de estudantes e pesquisadores. As decisões deixam de ser exclusivamente educacionais e passam a integrar a política externa e de segurança dos Estados Unidos.
A participação do Pentágono nesse processo também evidencia uma característica estrutural do sistema científico americano: a estreita relação entre universidades, financiamento federal, indústria tecnológica e complexo de defesa. Desde a Segunda Guerra Mundial, instituições de ensino superior participam do desenvolvimento de conhecimentos que posteriormente encontram aplicações militares, industriais e comerciais. Essa articulação contribuiu para a formação de setores estratégicos da economia americana, mas também estabeleceu uma relação de dependência entre parte da pesquisa universitária e as prioridades do Estado. A atual ofensiva contra parcerias chinesas demonstra como decisões de segurança nacional podem alcançar diretamente a organização da produção científica e as relações internacionais das universidades.
Isso não significa que preocupações com espionagem industrial, transferência tecnológica indevida ou interferência estrangeira devam ser descartadas. Instituições acadêmicas que desenvolvem pesquisas sensíveis precisam adotar mecanismos capazes de proteger informações classificadas, assegurar transparência contratual e impedir violações de regras de exportação. O rigor necessário a essas medidas, entretanto, também exige individualização das acusações, documentação verificável e proporcionalidade das restrições. A existência de financiamento estrangeiro não constitui, por si só, demonstração de espionagem, assim como a finalidade cultural declarada por uma organização não elimina a necessidade de fiscalização de suas atividades.
O anúncio de Hegseth permanece marcado por essa distinção. O secretário afirmou ter identificado e desmantelado 80 organizações em 30 universidades, mas não apresentou provas públicas suficientes para demonstrar que todas funcionavam como estruturas clandestinas de influência ou apropriação ilegal de conhecimento. A documentação disponível sobre as auditorias revela o encerramento e a revisão de diversas parcerias, inclusive algumas que as próprias instituições americanas consideraram desvinculadas de pesquisas sensíveis. A ausência de informações individualizadas impede estabelecer equivalência entre o número de ações administrativas e a quantidade de operações efetivamente comprovadas de espionagem.
O episódio ocorre num momento em que Estados Unidos e China disputam posições centrais nas cadeias globais de tecnologia, produção industrial e inovação científica. A competição não se limita às tarifas comerciais, ao acesso a matérias-primas ou ao domínio de mercados. Envolve também quem financia a pesquisa, quem controla sua utilização, quais universidades podem cooperar e quais conhecimentos passam a ser tratados como recursos estratégicos sujeitos a restrições nacionais. Nesse ambiente, iniciativas de intercâmbio cultural e educacional podem adquirir importância política que ultrapassa suas atividades imediatas.
Ao transformar os Institutos Confúcio em alvos de uma nova classificação de segurança nacional, Washington aprofunda uma política que já provocou o fechamento da quase totalidade desses centros em universidades americanas. O alcance efetivo das novas medidas e a consistência das acusações anunciadas pelo Pentágono dependerão da divulgação de documentos, critérios e evidências ainda não apresentados publicamente. O que está demonstrado é a ampliação da pressão do Estado americano sobre as relações acadêmicas com a China. O que permanece sem comprovação pública suficiente é a afirmação de que todas as entidades apontadas pelo secretário de Defesa constituíam instrumentos clandestinos de espionagem e influência ideológica. Entre a proteção de tecnologias estratégicas e a liberdade de cooperação científica, a ofensiva expõe uma disputa que já ultrapassou os laboratórios e se tornou parte da reorganização das relações de poder entre as duas maiores economias do planeta.






