Colunista afirma que comunicação oficial induziu veículos ao erro, mas ressalta que isso não elimina a responsabilidade da imprensa pela forma como o caso foi tratado
Da Redação
O ombudsman do O Povo, João Marcelo Sena, publicou neste domingo (19) uma análise sobre a cobertura jornalística do caso da bebê Helena, reconhecendo que o jornal cometeu erros, mas atribuindo parte deles às informações oficiais inicialmente divulgadas pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).
Segundo o texto, a primeira reportagem do jornal adotou uma postura cautelosa, informando apenas que a morte da criança estava sendo investigada e destacando que a SSPDS ainda não havia confirmado a hipótese de abuso sexual. Poucas horas depois, entretanto, o jornal passou a publicar reportagens afirmando que dois homens haviam sido presos sob suspeita de estupro e homicídio, com base em uma nota oficial da secretaria que dizia que, no hospital, havia sido “constatado o crime sexual contra a vítima”.
O ombudsman reconhece que a cobertura evoluiu para um tratamento mais categórico do caso. Uma das manchetes chegou a afirmar que a bebê havia sido “estuprada e morta”, título posteriormente alterado após a divulgação do laudo da Perícia Forense, que descartou qualquer violência sexual. O texto também admite que publicações feitas pelo jornal nas redes sociais reproduziram essa versão equivocada.
Na avaliação do ombudsman, a SSPDS induziu os veículos de comunicação ao erro ao divulgar uma informação oficial baseada no exame inicial realizado pelo hospital. Ainda assim, ele ressalta que essa indução “não isenta de responsabilidade um veículo de imprensa na abordagem do caso”, reconhecendo que houve precipitação em parte da cobertura.
O artigo também destaca que, após a divulgação do laudo pericial na sexta-feira (17), o jornal revisou suas matérias, alterou títulos e passou a informar que a causa da morte foi asfixia mecânica indireta, sem indícios de abuso sexual. O novo comunicado da SSPDS também mudou de tom, substituindo a afirmação categórica de que o crime sexual havia sido constatado pela expressão “suspeita de óbito por asfixia e abuso sexual”.
Ao responder aos questionamentos do ombudsman, o editor de Segurança de O Povo, Lucas Barbosa, afirmou que o ambiente de julgamento foi impulsionado principalmente por páginas apócrifas e perfis de redes sociais que divulgaram fotos, nomes e mensagens agressivas contra os envolvidos. Segundo ele, o jornal sempre informou que a Polícia Civil aguardava o laudo pericial para concluir a investigação e atualizou seu conteúdo assim que a perícia descartou a violência sexual.
O texto conclui que o episódio evidencia um desafio permanente do jornalismo: lidar com informações oficiais que posteriormente se revelam incorretas. Para o ombudsman, justamente nesses casos torna-se ainda mais importante preservar a prudência na cobertura e evitar conclusões antes do encerramento das investigações.
Assista à análise completa
O caso também foi analisado pela jornalista *Sara Goes, no canal *TV Atitude Popular. No vídeo, ela reconstrói a cronologia da cobertura, mostra como uma hipótese inicial rapidamente foi tratada como verdade por parte da imprensa, das redes sociais e de agentes políticos, e examina o impacto da divulgação de informações que mais tarde foram desmentidas pela perícia oficial.
A análise também discute o papel da comunicação institucional, da busca por engajamento e da responsabilidade dos veículos de imprensa diante de casos de grande comoção pública. O vídeo está disponível no canal da TV Atitude Popular, no YouTube.
https://youtu.be/XXZQhZPSVLo?si=CUf_i3b6vABuqgtq


