“Os ganhos de produtividade devem servir ao povo, não às big techs”

Advogado e escritor Ricardo Souza analisa a crise da democracia liberal, o avanço da extrema direita e os desafios da esquerda diante das transformações do capitalismo contemporâneo

A crise da democracia liberal, o avanço global da extrema direita e os caminhos possíveis para a construção de uma democracia popular foram os temas centrais da entrevista concedida pelo advogado e escritor Ricardo Souza ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas. Ao longo da conversa, o intelectual pernambucano desenvolveu uma análise histórica das democracias ocidentais, avaliou os impactos do neoliberalismo e apontou os principais desafios enfrentados pelas forças progressistas no Brasil e no mundo.

Segundo Ricardo Souza, compreender a crise atual exige abandonar a ideia de que a democracia é um conceito neutro ou universal. Para ele, toda democracia possui uma base social, econômica e política específica.

“Eu costumo dizer que toda democracia precisa de um sobrenome. Essa ideia de uma democracia pura, acima de tudo e de todos, é uma construção histórica que atende a interesses determinados”, afirmou.

O advogado argumentou que a democracia liberal consolidada no século XX foi resultado de uma conjuntura histórica particular. O crescimento econômico do pós-guerra, a força dos sindicatos, a expansão da classe operária industrial e a necessidade de conter o avanço das experiências socialistas criaram condições para a ampliação de direitos sociais e para a estabilidade institucional em diversos países.

Na avaliação de Ricardo, esse equilíbrio começou a ruir a partir das transformações produtivas ocorridas nas últimas décadas.

“A terceirização, a informalidade, a pejotização, a automação e a inteligência artificial fragmentaram a classe trabalhadora e reduziram sua capacidade de organização política”, explicou.

O entrevistado destacou que a substituição do modelo fordista de produção por formas mais flexíveis e precarizadas de trabalho modificou profundamente a relação entre economia e política. Com sindicatos mais frágeis e trabalhadores dispersos em diferentes formas de contratação, os mecanismos tradicionais de representação perderam força.

Para Ricardo Souza, a crise da democracia liberal é inseparável da crise do próprio capitalismo contemporâneo.

“Tudo aquilo que sustentava a democracia liberal começou a desmoronar. O crescimento econômico desacelerou, o Estado de bem-estar social entrou em declínio e os partidos tradicionais passaram a perder capacidade de responder aos problemas da sociedade”, afirmou.

Ao analisar o crescimento da extrema direita, o escritor rejeitou a ideia de que se trata de um fenômeno exclusivamente nacional. Segundo ele, o processo ocorre em escala global e está relacionado ao esgotamento das soluções oferecidas pelo neoliberalismo.

“A extrema direita se apresenta como uma alternativa política à crise do capitalismo. Ela promete administrar a barbárie por meio da repressão, do autoritarismo e da redução de direitos”, afirmou.

Ricardo argumentou que, no caso brasileiro, o fenômeno encontra terreno fértil em uma sociedade marcada por heranças históricas profundas.

“O Brasil é uma sociedade pós-escravista que preservou estruturas autoritárias, racistas e excludentes. Muitos desses elementos permaneceram latentes e foram reorganizados politicamente pela extrema direita”, observou.

Durante a entrevista, o advogado também abordou os limites da estratégia adotada por setores da esquerda ao longo das últimas décadas. Embora tenha reconhecido a importância histórica dos governos liderados pelo presidente Lula, Ricardo avaliou que houve uma confiança excessiva na capacidade das instituições liberais de promover transformações estruturais.

“A crença de que seria possível alcançar mudanças profundas apenas por meio das instituições existentes revelou limites importantes”, afirmou.

Na sua avaliação, a elite econômica brasileira nunca abandonou a disposição de reagir quando percebe ameaças aos seus interesses.

“A elite burguesa não quer concessões permanentes. Ela aceita determinados acordos enquanto eles servem aos seus objetivos. Quando deixa de servir, ela busca outros caminhos para preservar privilégios”, declarou.

Outro eixo importante da entrevista foi a crítica ao neoliberalismo. Ricardo afirmou que, apesar de décadas de predominância desse modelo, os resultados concretos mostram crescimento da desigualdade, fragilização dos serviços públicos e redução da capacidade de investimento dos Estados nacionais.

“O neoliberalismo fracassou, mas continua sendo tratado como se fosse uma verdade incontestável”, afirmou.

O entrevistado citou experiências internacionais para sustentar sua argumentação. Segundo ele, países que alcançaram elevados níveis de desenvolvimento econômico o fizeram por meio de forte participação estatal e planejamento estratégico.

“Os exemplos de crescimento mais bem-sucedidos das últimas décadas não vieram do Estado mínimo. Vieram de países que utilizaram o Estado como instrumento de desenvolvimento”, destacou.

Ao discutir os desafios da esquerda rumo a uma democracia popular, Ricardo identificou três grandes campos de disputa. O primeiro envolve a distribuição dos ganhos de produtividade gerados pelos avanços tecnológicos. O segundo diz respeito ao controle e à destinação do orçamento público. O terceiro refere-se à ampliação da representatividade das instituições políticas.

Para ele, a atual composição do Congresso Nacional está muito distante da realidade social brasileira.

“Metade da população é formada por mulheres e a maioria é negra e trabalhadora. Quando observamos a representação política, percebemos uma enorme distância entre quem governa e quem vive os problemas concretos do país”, afirmou.

Ricardo também relacionou essa discussão ao debate sobre a redução da jornada de trabalho e ao movimento pelo fim da escala 6×1.

“Os ganhos de produtividade devem servir ao povo, não às big techs”, declarou. Segundo ele, a tecnologia precisa ser utilizada para melhorar as condições de vida da população e ampliar o acesso ao lazer, à cultura e ao tempo livre.

Ao final da entrevista, o escritor defendeu o fortalecimento da comunicação popular, da organização social e da participação cidadã como elementos centrais para a construção de alternativas democráticas.

“A militância também acontece quando apoiamos projetos de comunicação popular, compartilhamos ideias e ajudamos a disputar corações e mentes”, concluiu.

Referências citadas

Socialismo ou barbárie
Autora: Rosa Luxemburgo

Tempos Modernos
Direção: Charlie Chaplin
Ano: 1936

Obras sobre democracia e representação política
Autor citado: André Singer


📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
📲✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O