Da Redação
Uma nova linha de tensão está se formando no extremo norte do planeta. À medida que o Ártico ganha importância militar, energética, tecnológica e logística, países europeus da OTAN ampliam sua coordenação regional e Moscou reage acusando o bloco de tentar reduzir o espaço russo nos mecanismos de cooperação. A avaliação foi apresentada pela pesquisadora Irina Strelnikova, diretora do Centro de Estudos Interdisciplinares do Ártico da Escola Superior de Economia de Moscou, em entrevista à RT neste domingo (13), durante a realização de uma cúpula europeia na Finlândia. A interpretação representa a visão da especialista russa, mas ocorre sobre uma transformação concreta: o Ártico está deixando de ser tratado predominantemente como território de cooperação científica e ambiental para ocupar posição cada vez mais importante no planejamento de segurança da Rússia, da OTAN, dos Estados Unidos e da União Europeia.
A reunião realizada na Finlândia ajuda a compreender essa mudança. Participam dirigentes de Alemanha, Dinamarca, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia e França, além de representantes da União Europeia, entre eles a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas. Todos os países participantes citados pela RT pertencem à OTAN. A agenda inclui a estratégia europeia para o Ártico, segurança e uma visita a uma base aérea finlandesa. O encontro, porém, não pertence ao Conselho do Ártico, principal fórum multilateral da região, que reúne Rússia, Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia. Essa diferença institucional está no centro da crítica russa: Moscou interpreta a multiplicação de fóruns ocidentais sem sua participação como parte de um processo de reorganização da governança do extremo norte.
Segundo Strelnikova, a composição da cúpula revela algo ainda maior. Os países presentes formariam, do ponto de vista estratégico, uma espécie de arco que começa no Ártico e atravessa o Báltico em direção ao Mar Negro. Para a pesquisadora, isso significa que teatros anteriormente analisados de maneira relativamente independente começam a ser integrados numa mesma arquitetura de segurança europeia. Sua preocupação é que o Ártico deixe definitivamente de funcionar como espaço parcialmente protegido das grandes rivalidades militares e seja incorporado à confrontação entre Rússia e OTAN. Ela descreve esse movimento como uma tentativa sistemática de afastar Moscou de futuros formatos de cooperação, embora essa seja uma interpretação russa sobre as intenções ocidentais, e não um objetivo oficialmente declarado pela Aliança.
O contexto dá substância à preocupação, ainda que não confirme automaticamente a conclusão de Strelnikova. Em fevereiro, a OTAN lançou a missão Arctic Sentry, destinada a ampliar sua presença, vigilância e capacidade de dissuasão no extremo norte. A Rússia considera a iniciativa uma ameaça direta à sua segurança. No fim de agosto, Sergey Lavrov afirmou que exercícios e deslocamentos militares da Aliança aumentam a possibilidade de incidentes capazes de produzir uma confrontação armada. Ao mesmo tempo, Moscou mantém a maior infraestrutura militar existente no Ártico, incluindo instalações associadas à Frota do Norte e a submarinos nucleares, enquanto países da OTAN vêm reforçando suas próprias capacidades na região. A Noruega, por exemplo, ampliou recentemente sua estrutura militar no norte. Portanto, o processo não pode ser descrito simplesmente como expansão unilateral de um lado sobre um espaço desmilitarizado: trata-se de uma dinâmica de segurança na qual Rússia e OTAN possuem capacidades militares substanciais e interpretam os movimentos da outra parte como potencialmente ameaçadores.
O que torna essa disputa especialmente importante é a geografia. A Rússia possui aproximadamente metade da costa ártica e considera o extremo norte parte essencial de sua segurança estratégica. A Península de Kola abriga a Frota do Norte, componente central da capacidade de dissuasão nuclear russa. O oceano também oferece a Moscou acesso marítimo entre Europa e Ásia por meio da Rota Marítima do Norte, cuja importância tende a crescer à medida que alterações climáticas modificam as condições de navegação. Retirar a Rússia fisicamente do Ártico é, evidentemente, impossível; o que está em disputa é sua participação na construção das regras, instituições, corredores logísticos e sistemas de segurança que organizarão a região nas próximas décadas.
É exatamente por isso que a expressão “empurrar a Rússia para fora do Ártico”, utilizada na reportagem da RT, precisa ser entendida politicamente, e não literalmente. Não há evidência de um plano da OTAN para expulsar territorialmente a Rússia de sua costa ártica. A acusação refere-se sobretudo à possibilidade de reduzir a participação de Moscou em estruturas de cooperação e construir mecanismos políticos e militares entre países ocidentais capazes de funcionar independentemente dela. Essa tendência ganhou força depois da invasão russa da Ucrânia em 2022, quando grande parte da cooperação política do Conselho do Ártico com Moscou foi interrompida.
A transformação estratégica é ainda maior porque a entrada da Finlândia e da Suécia na OTAN modificou profundamente o mapa do norte europeu. Com as duas adesões, todos os países do Conselho do Ártico, exceto a Rússia, passaram a integrar a Aliança Atlântica. A fronteira terrestre entre Rússia e OTAN também cresceu significativamente com a entrada finlandesa. Uma região que durante décadas possuía uma combinação particular de Estados alinhados, não alinhados e Rússia passou a apresentar uma configuração muito mais polarizada.
A própria OTAN já trata publicamente o Ártico em conexão com seu flanco oriental. Um evento oficial marcado para esta semana em Helsinque reúne explicitamente os conceitos de “Digital Arctic” e “Eastern Flank Deterrence Line”, dentro de atividades relacionadas ao exercício multinacional Arctic Endeavor. A terminologia é reveladora: infraestrutura digital, capacidade de teste tecnológico e dissuasão no flanco oriental começam a aparecer dentro de um mesmo planejamento.
Isso ajuda a entender a observação de Strelnikova sobre a conexão Ártico–Báltico–Mar Negro. A Europa oriental vem construindo uma rede crescente de vigilância aérea, defesa contra drones, infraestrutura militar e proteção de fronteiras. Países bálticos estão particularmente preocupados com incursões aéreas e operações híbridas. Neste domingo, por exemplo, a Lituânia chegou a fechar temporariamente o aeroporto de Vilnius e acionou um caça da OTAN diante da suspeita de drones; posteriormente, verificou-se que os sinais correspondiam a um bando de pássaros. O episódio foi um falso alarme, mas demonstra o grau de alerta existente na região.
Ao mesmo tempo, a guerra da Ucrânia continua aproximando fisicamente operações militares das fronteiras da Aliança. Também neste domingo, um ataque russo atingiu um caminhão próximo à passagem de Dorohusk-Yahodyn, na fronteira ucraniana com a Polônia, a cerca de 800 metros do território polonês. Moscou afirmou ter atacado infraestrutura utilizada para transportar cargas militares europeias à Ucrânia. A passagem chegou a interromper temporariamente as operações. A Rússia vem aumentando ataques contra pontos logísticos próximos às fronteiras ocidentais ucranianas, enquanto Kiev também intensifica ataques de longa distância contra infraestrutura russa.
O Ártico entra nessa equação porque oferece profundidade estratégica, acesso ao Atlântico Norte e uma das áreas mais importantes para a dissuasão nuclear russa. Mas a disputa não é exclusivamente militar. Sob o gelo encontram-se reservas relevantes de petróleo, gás e minerais, enquanto o degelo progressivo pode tornar rotas marítimas mais acessíveis durante períodos maiores do ano. A região passa, portanto, a concentrar três dimensões de poder ao mesmo tempo: segurança militar, recursos naturais e conectividade entre Europa e Ásia.
Existe ainda um quarto elemento: a China. Pequim não é um Estado ártico, mas ampliou sua presença econômica e científica na região e desenvolveu cooperação crescente com Moscou. A aproximação sino-russa acrescenta ao extremo norte uma dimensão da competição global entre Estados Unidos e China. Fontes independentes registram que a China vem aumentando suas atividades no Ártico, sobretudo em associação com a Rússia.
Para Moscou, portanto, a tentativa europeia de formular uma estratégia ártica sem participação russa não é vista apenas como consequência diplomática da guerra da Ucrânia. É interpretada como parte de uma transformação estrutural na arquitetura de segurança europeia. Lavrov já havia apresentado essa leitura no fim de agosto, quando acusou a OTAN de converter o Ártico numa nova frente de contenção. Segundo ele, o aumento da atividade militar poderia elevar o risco de incidentes com consequências potencialmente catastróficas.
Do ponto de vista dos integrantes da OTAN, entretanto, a causalidade é apresentada de maneira inversa. O reforço militar no norte é justificado pela invasão russa da Ucrânia, pela modernização das capacidades militares de Moscou no Ártico e pela necessidade de proteger territórios, infraestrutura crítica, cabos submarinos e rotas marítimas. A Rússia, por sua vez, argumenta que sua presença militar é em grande medida consequência natural de possuir a maior costa ártica do mundo e de precisar proteger instalações estratégicas e sua rota marítima. Surge assim o conhecido dilema de segurança: cada lado apresenta seus próprios movimentos como defensivos e interpreta o reforço do adversário como ofensivo, produzindo sucessivas rodadas de militarização.
É nesse ponto que a matéria da RT ganha significado para além da disputa retórica entre Moscou e Bruxelas. O que está acontecendo no Ártico é parte de uma transformação geopolítica maior. A fronteira estratégica da Europa está se deslocando para o norte, enquanto regiões que durante décadas permaneceram relativamente protegidas da competição militar começam a ser incorporadas a uma única arquitetura que conecta o Atlântico Norte, o Ártico, o Báltico, a Europa Oriental e o Mar Negro.
A consequência pode ser profunda. Durante boa parte do período posterior à Guerra Fria, existia uma tentativa de preservar o Ártico como espaço no qual adversários geopolíticos ainda conseguiam cooperar em ciência, meio ambiente, navegação, busca e salvamento e questões indígenas. Essa arquitetura nunca eliminou a competição militar, mas criou mecanismos capazes de separar parcialmente a rivalidade estratégica de interesses comuns. A guerra da Ucrânia rompeu grande parte dessa lógica.
Agora surge um modelo diferente: a geografia contínua da dissuasão. O Ártico deixa de ser percebido isoladamente e passa a integrar a mesma cadeia estratégica que percorre o Báltico e o flanco oriental da OTAN. Para Moscou, isso significa que uma pressão exercida no norte precisa ser analisada em conjunto com movimentos militares na Polônia, nos países bálticos, no Mar Negro e na Ucrânia. Para os europeus, significa que a defesa do continente não termina nas fronteiras tradicionais da Europa Central.
É justamente essa mudança que Strelnikova procura destacar. Sua afirmação de que a OTAN pretende “empurrar” a Rússia para fora dos mecanismos árticos deve ser tratada como uma interpretação — não como fato demonstrado —, mas o fenômeno estrutural que sustenta sua preocupação é visível: fóruns europeus estão discutindo o futuro do Ártico sem Moscou, a OTAN ampliou sua presença militar no extremo norte, a Rússia reforça suas próprias posições e as duas partes passaram a conectar a região à confrontação estratégica mais ampla.
O risco não é necessariamente uma guerra deliberadamente iniciada no Ártico. Talvez o perigo maior esteja justamente na possibilidade de que quanto mais espaços geográficos forem incorporados à mesma lógica de confrontação, menor seja a quantidade de áreas disponíveis para cooperação e amortecimento das crises. Um incidente naval, uma operação envolvendo infraestrutura submarina, uma aeronave mal identificada ou uma movimentação militar interpretada de maneira equivocada pode adquirir significado muito maior quando ocorre num ambiente dominado pela desconfiança.
O Ártico está deixando de ser periferia.
Está se tornando uma das fronteiras nas quais será decidido o equilíbrio estratégico das próximas décadas — entre Rússia e Europa, entre OTAN e Moscou e, progressivamente, dentro da competição mais ampla que envolve Estados Unidos e China. É uma disputa por segurança, mas também por energia, minerais, rotas marítimas, infraestrutura digital e capacidade de definir as regras de uma região que as mudanças climáticas estão tornando cada vez mais acessível.
Nesse sentido, a notícia deste domingo é maior do que uma declaração de uma pesquisadora russa. O que está em construção é uma nova geografia do poder no extremo norte do planeta. E, se a atual dinâmica continuar, a expressão “Guerra Fria” poderá adquirir no Ártico um significado cada vez menos metafórico.


