Levantamento mostra que a percepção de melhora nas finanças pessoais supera a de piora em 11 pontos percentuais; diferença entre a experiência das famílias e a avaliação da economia nacional ganha importância na disputa presidencial
Da Redação
Chamada: Pesquisa divulgada nesta terça-feira (13) aponta que 43% dos brasileiros consideram sua situação financeira melhor do que durante o governo Jair Bolsonaro, enquanto 32% relatam piora. Os resultados também revelam uma diferença expressiva entre a avaliação do orçamento doméstico e a percepção sobre a economia brasileira, com reflexos nas preferências eleitorais.
A situação financeira pessoal melhorou durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para 43% dos brasileiros, segundo pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta terça-feira, 13 de outubro. O percentual supera em 11 pontos o grupo de 32% que afirma estar em condições piores do que durante a administração de Jair Bolsonaro, encerrada em dezembro de 2022. Outros 21% consideram que sua condição permanece igual, enquanto 4% não souberam ou preferiram não responder. O resultado, obtido às vésperas do segundo turno presidencial, revela que a percepção sobre o próprio orçamento é mais favorável ao atual governo do que a avaliação dos entrevistados sobre o desempenho da economia nacional.
A diferença aparece quando os participantes são convidados a avaliar a situação econômica do Brasil, e não apenas as próprias finanças. Nesse caso, 38% consideram que o país está melhor do que no governo Bolsonaro, enquanto 44% enxergam uma piora. Outros 13% identificam estabilidade e 5% não responderam. A mudança entre as duas perguntas é um dos aspectos mais relevantes do levantamento: embora o grupo que relata melhora pessoal seja maior do que o que aponta deterioração, a percepção sobre a economia brasileira apresenta resultado inverso, com predomínio das avaliações negativas.
Os números indicam que a experiência financeira individual e a avaliação do cenário econômico geral não caminham necessariamente na mesma direção. Uma família pode reconhecer avanços em sua renda, no emprego ou na capacidade de consumo e, simultaneamente, considerar que o país enfrenta dificuldades relacionadas aos preços, ao crédito e ao custo de vida. A pesquisa não identifica isoladamente as causas dessas respostas, mas demonstra que a avaliação econômica reúne dimensões distintas, que não podem ser reduzidas a uma única medida de satisfação ou insatisfação com o governo.
Essa diferença fica ainda mais evidente nas respostas sobre a situação atual. Quando avaliam suas próprias finanças, 34% dos entrevistados classificam a condição como ótima ou boa, 45% como regular e 20% como ruim ou péssima. Em relação à economia brasileira, apenas 17% fazem uma avaliação positiva, enquanto 31% a consideram regular e 51% a classificam como ruim ou péssima. Assim, a proporção de avaliações positivas praticamente dobra quando o entrevistado deixa de analisar o país e passa a considerar sua própria realidade financeira.
Emprego e renda avançam, mas preços e endividamento pressionam as famílias
Os resultados da pesquisa aparecem em um cenário econômico marcado por indicadores favoráveis no mercado de trabalho e por dificuldades persistentes no orçamento das famílias. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a taxa de desocupação chegou a 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026, enquanto o rendimento médio real habitual do trabalho alcançou R$ 3.777. O salário mínimo também passou a R$ 1.621 neste ano, seguindo a política de reajustes que considera a inflação e o crescimento econômico, dentro dos limites previstos na legislação.
A melhora de indicadores de emprego e renda, entretanto, convive com pressões sobre o consumo. Em setembro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,82%, acumulando 4,58% em 12 meses, acima do teto de 4,5% da meta de inflação. A elevação foi influenciada principalmente pelo encarecimento da energia elétrica, mas também houve aumentos nos grupos de alimentação e transportes. Esses movimentos afetam diretamente o orçamento doméstico, sobretudo quando despesas essenciais ocupam parcela elevada da renda disponível.
O endividamento também ajuda a compreender as limitações da recuperação percebida por parte da população. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio, 81,7% das famílias brasileiras possuíam dívidas em setembro. Embora esse indicador inclua compromissos financeiros ainda dentro do prazo de pagamento, a proporção evidencia a importância do crédito no financiamento do consumo. No mesmo levantamento, 29,6% das famílias declararam contas em atraso. A combinação de rendimentos mais elevados para parte dos trabalhadores, juros altos e despesas recorrentes ajuda a explicar por que a melhora de alguns indicadores não se traduz automaticamente em uma avaliação positiva da economia.
O contraste também exige cuidado na interpretação política dos resultados. A pesquisa BTG/Nexus registra percepções declaradas pelos entrevistados, não uma medição direta de quanto cada família ganhou ou perdeu entre os dois governos. Da mesma forma, a avaliação retrospectiva pode incorporar experiências pessoais, acontecimentos recentes e diferentes expectativas em relação à economia. Os dados permitem identificar como os brasileiros enxergam sua situação financeira, mas não estabelecem, por si só, uma relação causal entre cada mudança relatada e uma política específica.
Percepção econômica está fortemente associada ao voto no segundo turno
O cruzamento entre as respostas econômicas e as intenções de voto revela uma associação expressiva entre a avaliação financeira e a escolha presidencial. Entre os entrevistados que consideram sua situação pessoal melhor durante o governo Lula, 77% declaram intenção de votar no presidente, enquanto 19% preferem Flávio Bolsonaro, candidato do PL. A relação se inverte entre aqueles que dizem estar financeiramente piores: 86% manifestam preferência por Flávio Bolsonaro e 9% por Lula.
O grupo que não percebe mudanças em sua condição financeira apresenta comportamento mais dividido. Entre esses entrevistados, 48% declaram voto em Flávio Bolsonaro, enquanto 39% escolhem Lula. A diferença indica que a manutenção do padrão de vida não resulta necessariamente em continuidade do apoio ao governante. Outros elementos, como identificação partidária, avaliação geral da administração, posicionamentos sobre políticas públicas e expectativas futuras, também podem participar da formação das preferências eleitorais, embora o levantamento não permita determinar o peso individual de cada fator.
Quando a pergunta trata da economia nacional, a associação com a escolha eleitoral é igualmente acentuada. Entre os que consideram que o Brasil está economicamente melhor, 84% manifestam intenção de votar em Lula e 14% em Flávio Bolsonaro. No grupo que avalia que a economia piorou, 85% preferem o candidato do PL e apenas 9% optam pelo presidente. Já entre os entrevistados que identificam estabilidade na economia, Lula aparece com 53% das intenções de voto, contra 28% de Flávio Bolsonaro.
Esses cruzamentos mostram a importância da avaliação econômica para compreender a composição dos grupos de eleitores, mas não demonstram que a percepção financeira seja a causa exclusiva da preferência por um candidato. A pesquisa foi realizada em um único período e não permite estabelecer se determinada avaliação levou à escolha eleitoral ou se as preferências políticas anteriores influenciaram a maneira como os participantes interpretam a situação econômica.
Na mesma rodada do BTG/Nexus, Flávio Bolsonaro registra 48% das intenções de voto totais para o segundo turno, contra 45% de Lula, resultado considerado de empate técnico diante da margem de erro de dois pontos percentuais. A coexistência desse cenário eleitoral com uma percepção relativamente mais favorável das finanças pessoais mostra que reconhecer melhora econômica durante uma administração não significa necessariamente apoiar sua continuidade.
Outro dado relevante aparece nas expectativas para os próximos seis meses. Apesar das avaliações críticas sobre a situação presente, 51% dos entrevistados acreditam que suas finanças pessoais vão melhorar, enquanto 29% esperam estabilidade e apenas 7% projetam piora. O otimismo também aparece na avaliação da economia nacional: 54% esperam melhora, 17% acreditam que o cenário permanecerá igual e 12% preveem deterioração. A perspectiva positiva sobre o futuro, entretanto, não deve ser confundida com apoio a um projeto político específico, uma vez que o levantamento não atribui essas expectativas à vitória de qualquer candidato.
Realizada pela Nexus entre os dias 10 e 12 de outubro de 2026, a pesquisa ouviu 2.002 eleitores de 16 anos ou mais, por entrevistas telefônicas, nas 27 unidades da Federação. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi contratado pelo BTG Pactual e registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-07997/2026.
O conjunto dos resultados apresenta um eleitorado que distingue a situação financeira da própria família das condições econômicas do país. Essa separação ajuda a compreender por que indicadores de emprego e rendimento, avaliações negativas sobre preços e endividamento e diferentes preferências eleitorais podem coexistir. Na reta final da eleição presidencial, a pesquisa evidencia que a percepção sobre a economia envolve tanto os resultados concretos experimentados pelas famílias quanto a maneira como cada entrevistado interpreta o presente e suas possibilidades de mudança.

