PF afirma que sanção dos EUA prejudicou operação contra suspeitos de lavar dinheiro do crime organizado

Da Redação

A Polícia Federal afirmou que a divulgação antecipada de sanções dos Estados Unidos contra brasileiros suspeitos de lavar dinheiro para o crime organizado prejudicou a Operação Exchange, deflagrada nesta sexta-feira (3) contra uma rede investigada por movimentar recursos ilícitos ligados ao tráfico internacional de drogas. Segundo o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, a decisão do governo norte-americano de tornar públicos os nomes dos sancionados antes da ação brasileira interferiu no andamento da investigação e dificultou a localização de um dos principais alvos.

Embora não tenha citado nominalmente o investigado, a declaração faz referência a Victor de Oliveira Shimada, alvo de mandado de prisão temporária que não foi encontrado pela PF. Shimada havia sido incluído nesta semana em uma lista de sanções do governo dos Estados Unidos por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital, o PCC. Sua secretária, Stella Nunes Henrique de Oliveira, também sancionada por Washington, foi presa durante a operação.

Segundo Andrei Rodrigues, caso a designação americana não tivesse sido divulgada antes da ação no Brasil, o desfecho da operação poderia ter sido diferente. “Se não houvesse essa designação, talvez o desfecho fosse outro e a gente teria localizado essa pessoa”, afirmou o diretor-geral da PF, ao comentar o impacto da medida norte-americana.

Divulgação antecipada criou ruído operacional

A Operação Exchange foi autorizada pela Justiça Federal antes da divulgação pública das sanções dos Estados Unidos. De acordo com o diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção da PF, Dennis Cali, a publicação dos nomes pelo governo americano obrigou a corporação brasileira a antecipar a deflagração da operação, mesmo com algumas confirmações operacionais ainda em andamento.

Fontes ligadas à investigação afirmaram que o governo norte-americano sabia da existência da apuração brasileira e da preparação de uma operação contra os mesmos alvos. A divulgação prévia das sanções, portanto, teria funcionado como alerta indireto para investigados, reduzindo o fator surpresa considerado essencial em ações de busca, prisão e bloqueio de bens.

O episódio expõe uma contradição sensível. Embora os Estados Unidos afirmem atuar contra redes financeiras associadas ao crime organizado, a falta de coordenação com a Polícia Federal brasileira pode ter prejudicado uma operação concreta em território nacional.

PF cobra cooperação mais efetiva

Andrei Rodrigues defendeu que a cooperação entre Brasil e Estados Unidos avance para além de sanções unilaterais e classificações políticas sobre facções criminosas. Para o diretor-geral da PF, o combate ao crime organizado exige colaboração operacional em lavagem de dinheiro, bloqueio de bens, compartilhamento de informações e repatriação de foragidos.

A fala aponta para uma diferença estratégica importante. A PF não rejeita a cooperação internacional. Ao contrário, cobra mais coordenação. O problema, segundo a leitura apresentada pelos dirigentes da corporação, é quando medidas tomadas de forma unilateral por outro país produzem impacto negativo sobre investigações brasileiras em curso.

Movimentações bilionárias

A Operação Exchange investiga um sistema estruturado de movimentação de recursos ilícitos, com uso de criptoativos, transporte de dinheiro em espécie, operações bancárias de alto valor e repasses entre pessoas físicas e jurídicas. A análise preliminar da PF identificou movimentações superiores a R$ 10 bilhões. A Justiça determinou o sequestro de bens, valores e criptoativos dos investigados até o limite de R$ 10,4 bilhões.

Ao todo, mais de 50 policiais federais cumpriram 11 mandados de prisão temporária e 13 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Santos, Praia Grande e Santana de Parnaíba. A operação amplia o cerco contra estruturas financeiras suspeitas de movimentar recursos do crime organizado e mostra a complexidade das redes que utilizam empresas, contas bancárias e criptomoedas para circular dinheiro ilegal.

Sanções, crime organizado e soberania

O caso reacende o debate sobre os limites das sanções internacionais aplicadas pelos Estados Unidos contra brasileiros e empresas brasileiras. Quando medidas desse tipo são tomadas sem coordenação plena com as autoridades nacionais, podem gerar efeitos colaterais sobre investigações conduzidas pelo próprio Estado brasileiro.

A classificação de facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras e a ampliação de sanções financeiras por Washington deslocam parte do enfrentamento ao crime organizado para o campo da política externa dos Estados Unidos. Para o Brasil, o desafio é combater redes criminosas transnacionais sem permitir que esse combate se transforme em instrumento de interferência externa sobre operações policiais, decisões judiciais ou estratégias de segurança pública.

O episódio reforça uma posição defendida por setores da Polícia Federal: cooperação internacional é necessária, mas precisa respeitar a soberania operacional do país onde a investigação ocorre. No caso da Operação Exchange, segundo a própria PF, a sanção norte-americana não acelerou a ação brasileira. Ao contrário, atrapalhou sua execução.

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