Planilhas e mensagens indicam que presidente do PL teria definido destino de recursos atribuídos formalmente a deputados
Da Redação
Sem exercer mandato parlamentar, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, é suspeito de ter comandado a indicação e o remanejamento de pelo menos 21 emendas parlamentares que somam R$ 119,2 milhões. A investigação da Polícia Federal levou o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, a determinar o bloqueio de bens do dirigente partidário até esse valor e suspender a execução das emendas investigadas.
Segundo a PF, a análise de mensagens, planilhas e documentos revelou a existência de um centro paralelo de decisões sobre o destino de recursos públicos. As emendas apareciam formalmente associadas a deputados federais, mas os investigadores sustentam que o verdadeiro responsável pelas indicações seria Valdemar.
A maior parte dos recursos identificados pela investigação foi destinada a municípios paulistas, principalmente para ações nas áreas de saúde e turismo, com empenhos ou pagamentos realizados entre 2024 e 2025.
Para os investigadores, documentos teriam sido produzidos para esconder quem realmente solicitava os recursos. A PF afirma que deputados eram registrados como autores das indicações para dar aparência de regularidade a decisões tomadas por uma pessoa sem mandato eletivo.
“Pode colocar o máximo que der”
As mensagens encontradas pela PF mostram interlocutores tratando Valdemar como autoridade capaz de definir valores e destinos das emendas. Em um dos diálogos usados pela investigação, aparece a orientação: “Fechou o valor do pres. Valdemar? Pode colocar o máximo que der”.
As conversas são tratadas pela PF como evidência de que o presidente do PL possuía influência direta sobre a destinação do dinheiro público. A investigação tenta identificar como funcionava o fluxo entre as decisões atribuídas a Valdemar, a formalização das emendas em nome de parlamentares e a liberação dos recursos.
No centro dessa operação aparece Mariângela Fialek, conhecida como Tuca. Servidora da Câmara dos Deputados e ex-assessora de Arthur Lira, ela é apontada pela Polícia Federal como operadora do esquema investigado.
Tuca já havia ganhado relevância nas apurações sobre a execução das emendas durante o período em que Lira presidiu a Câmara. A análise de seu celular, apreendido pela PF, revelou diálogos e registros que levaram os investigadores a identificar a influência atribuída a Valdemar.
Planilhas registravam pedidos
De acordo com a investigação, planilhas encontradas pela PF continham referências às emendas solicitadas pelo presidente do PL. O material permitiu aos investigadores comparar as indicações com os registros oficiais disponíveis no Portal da Transparência.
A suspeita é de que existia uma diferença deliberada entre quem decidia o destino dos recursos e quem aparecia oficialmente como responsável pela indicação.
O mecanismo investigado toca em um dos principais problemas das emendas parlamentares nos últimos anos: a dificuldade de identificar com clareza quem pediu determinada verba, quais critérios foram usados para escolher o município beneficiado e quem exerceu influência sobre a liberação do dinheiro.
Flávio Dino também determinou que o presidente da Câmara, Hugo Motta, entregue, no prazo de dez dias, os documentos relacionados às emendas identificadas pela PF.
A investigação agora busca esclarecer a extensão da influência de Valdemar, a participação dos parlamentares que aparecem formalmente como solicitantes e o papel dos servidores envolvidos na tramitação dos recursos.
O caso coloca o presidente do maior partido da Câmara no centro de mais uma investigação. Valdemar, que já foi condenado no processo do mensalão e permanece como um dos principais articuladores do bolsonarismo, agora é investigado sob a suspeita de exercer poder sobre a destinação de recursos públicos sem possuir mandato parlamentar.
