PF diz que governo Cláudio Castro virou “puxadinho” da Refit

Da Redação

Investigação da Polícia Federal afirma que gestão Cláudio Castro criou estrutura política e administrativa favorável aos interesses da Refit e aprofundou a promiscuidade histórica entre poder econômico e governo no Rio de Janeiro.

Existe algo quase impressionante na capacidade da política fluminense de transformar qualquer promessa de “nova gestão” num remake permanente de escândalo institucional.

A Polícia Federal agora afirma oficialmente que o governo Cláudio Castro teria criado um “ambiente favorável” para os interesses da Refit, conglomerado ligado ao empresário Ricardo Magro, apontado como um dos maiores devedores de impostos do país.

Traduzindo do juridiquês:
segundo a investigação, o Estado do Rio teria começado a funcionar quase como extensão operacional de um grupo privado do setor de combustíveis.

E honestamente?
Poucas frases resumem tão bem a tragédia política do Rio de Janeiro contemporâneo.

De acordo com as investigações divulgadas pelo G1 e repercutidas pelo Brasil 247, a PF aponta que decisões tomadas durante a gestão de Cláudio Castro beneficiaram diretamente a Refit, especialmente através da Lei Complementar nº 225/2025, que criou um regime especial de parcelamento de débitos tributários considerado extremamente vantajoso para empresas altamente endividadas.

O detalhe curioso é que justamente uma das empresas mais favorecidas seria exatamente a Refit.

Que coincidência extraordinária.

A investigação também aponta algo ainda mais grave:
servidores considerados técnicos e rigorosos dentro da Secretaria de Fazenda teriam sido substituídos por nomes alinhados aos interesses do grupo empresarial.

Ou seja, segundo a PF, não se tratava apenas de benefício fiscal isolado.
O problema seria estrutural.

A suspeita é de que partes do governo estadual passaram a operar politicamente para proteger interesses privados enquanto o Rio afundava em crise fiscal, colapso de serviços públicos e explosão da violência urbana.

É quase um resumo do modelo político fluminense das últimas décadas:
o estado quebra,
o povo paga a conta,
e grupos empresariais continuam orbitando incentivos, favores e relações privilegiadas com o poder.

A Operação Sem Refino, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, já bloqueou aproximadamente R$ 52 bilhões em ativos financeiros ligados ao caso.

Cinquenta e dois bilhões.

O número é tão absurdo que parece orçamento de filme distópico sobre corrupção tropical.

A PF também realizou buscas na residência de Cláudio Castro, em condomínio de luxo na Barra da Tijuca, cenário que já virou praticamente patrimônio cultural das operações policiais envolvendo a elite política carioca.

No Rio, condomínio de luxo e busca da PF já funcionam quase como combo institucional.

O mais impressionante é observar como o discurso moralista do bolsonarismo envelheceu mal.

Cláudio Castro fazia parte exatamente daquele campo político que chegou ao poder prometendo:
combater corrupção,
destruir privilégios,
acabar com “velhas práticas”
e moralizar o Estado.

O resultado?
Mais uma operação federal gigantesca.
Mais empresários investigados.
Mais suspeitas de captura institucional.
Mais relações perigosas entre governo e grupos econômicos.

Parece que o “combate ao sistema” virou apenas mudança de administração do próprio sistema.

E tudo isso acontece enquanto o Rio continua atravessando:
crise fiscal permanente,
serviços públicos deteriorados,
milícias fortalecidas,
desigualdade brutal
e colapso administrativo crônico.

O ex-ministro Carlos Minc resumiu bem o clima político ao afirmar que Cláudio Castro “deu bilhões a caloteiros”. Segundo ele, empresas inadimplentes continuaram recebendo benefícios fiscais mesmo acumulando dívidas gigantescas com o estado.

A ironia é quase cruel.

Enquanto professores, servidores e hospitais sofrem com falta de recursos, o Estado teria operado para aliviar justamente grupos econômicos envolvidos em suspeitas bilionárias.

E talvez seja exatamente isso que torna o caso tão explosivo politicamente.

Porque ele ajuda a desmontar uma narrativa central do bolsonarismo:
a ideia de que representava ruptura moral com a velha política.

Na prática, o que aparece é algo muito mais parecido com continuidade histórica das relações promíscuas entre poder econômico, interesses privados e estruturas estatais capturadas.

O nome da operação, “Sem Refino”, talvez tenha sido involuntariamente perfeito.

Porque o caso inteiro parece um retrato bruto, sem maquiagem, da decomposição política do Rio de Janeiro contemporâneo.

E a cada nova fase da investigação, a sensação aumenta:
o problema já não parece ser apenas corrupção episódica.

Parece modelo de funcionamento.

compartilhe: