Em entrevista ao programa Café com Democracia, a historiadora Marcília Gama detalha arquivos do Dops e do Arquivo Público de Pernambuco que mostram acordos estratégicos, bases militares e operações norte-americanas em solo brasileiro
Da Redação
A influência dos Estados Unidos sobre o Brasil não é um fenômeno recente — e tampouco se limita a pressões econômicas e diplomáticas contemporâneas. A professora e doutora em História Marcília Gama, especialista em Arquivologia, revelou no programa *Café com Democracia*, da TV e Rádio Atitude Popular, documentos que mostram como a presença norte-americana no país se intensificou a partir da Segunda Guerra Mundial e atravessou décadas, influenciando política, economia e segurança nacional.
Marcília foi responsável, durante 20 anos, pelos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e pelo acervo permanente do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, no Recife. Ao coordenar o projeto Desimagens Censuradas, localizou registros que mapeiam temas monitorados pela polícia política, como comunismo, nazismo e integralismo, e encontrou evidências da atuação direta dos EUA em território brasileiro.
“Esses arquivos mostram que, desde o final da Segunda Guerra, com o acordo entre Roosevelt e Getúlio Vargas, o Brasil passou a ser protegido militarmente pelos Estados Unidos — proteção que também significava vigilância e controle”, explicou a historiadora. O pacto garantia segurança marítima, terrestre e aérea aos norte-americanos até mil milhas da costa brasileira e deu origem a estruturas estratégicas como a Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte, e bases militares em Recife, Natal, Fernando de Noronha e Fortaleza.
A pesquisadora detalhou que, durante a Guerra Fria, especialmente no início dos anos 1960, os EUA monitoravam o Nordeste com atenção especial às Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião, em Pernambuco. “O receio era de que movimentos sociais se inclinassem ao comunismo, como ocorreu em Cuba. A Aliança para o Progresso, lançada por John Kennedy, investiu recursos para tentar neutralizar essas forças e pavimentar o caminho para o golpe de 1964, apoiado logisticamente pela frota americana na costa brasileira”, afirmou.
Os documentos incluem prontuários da Comissão Mista Militar Brasil-Estados Unidos e registros da embaixada norte-americana que confirmam operações e acordos de cooperação militar. Marcília destacou que a influência não se restringiu ao passado: “Ainda hoje temos áreas estratégicas, como a Base de Alcântara, no Maranhão, onde nem as Forças Armadas brasileiras têm acesso irrestrito. É como se fossem territórios sob tutela estrangeira, dentro do nosso próprio país.”
A historiadora alertou para as implicações contemporâneas dessa relação, citando a recente tarifa imposta por Washington ao Brasil. Para ela, a medida é parte de um histórico padrão de intervenção, agora voltado a enfraquecer alianças estratégicas do governo Lula, como o Brics. “O que está em jogo não é apenas comércio: são as riquezas minerais, como o nióbio, e a posição geopolítica do Brasil. Nossa soberania está ameaçada por interesses externos e pela cumplicidade de atores internos que apoiam essa tutela”, denunciou.
Encerrando a entrevista, Marcília reforçou que compreender esses arquivos e a história das relações Brasil-EUA é fundamental para a defesa da democracia: “Não é apenas um debate acadêmico. É sobre proteger o emprego, a renda, a saúde e a paz da população brasileira. Sem soberania, não há futuro seguro para o país.”
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