Investigadores querem reconstruir caminho do dinheiro destinado ao filme sobre Jair Bolsonaro; fundo no Texas recebeu recursos ligados a Daniel Vorcaro e PF apura destino final dos valores e eventual uso para despesas de Eduardo Bolsonaro
Da Redação
A Polícia Federal pediu formalmente a cooperação das autoridades dos Estados Unidos para descobrir o destino de milhões de dólares enviados ao exterior no esquema de financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro. A medida internacional amplia uma investigação que já alcança o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, seu irmão Eduardo Bolsonaro, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e pessoas responsáveis pela administração dos recursos nos Estados Unidos.
O pedido foi encaminhado nesta sexta-feira (9) ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, estrutura do Ministério da Justiça responsável pela comunicação com autoridades estrangeiras. A solicitação utiliza o tratado de assistência jurídica existente entre Brasil e Estados Unidos e permitirá à PF buscar documentos bancários, registros empresariais e informações sobre movimentações que não podem ser obtidas diretamente pelas autoridades brasileiras.
No centro da apuração está o fundo Havengate, registrado no Texas. Segundo os investigadores, aproximadamente US$ 10,6 milhões vinculados ao financiamento de Dark Horse chegaram à estrutura financeira por meio de empresas relacionadas a Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master.
Em valores da época das transferências, o montante corresponde a aproximadamente R$ 60 milhões. A investigação quer saber não apenas de onde o dinheiro saiu, mas principalmente para onde foi depois de ingressar no sistema financeiro norte-americano, quem recebeu os pagamentos e quais foram os beneficiários finais.
É justamente essa última etapa que a cooperação internacional deverá permitir reconstruir.
PF quer saber quem recebeu o dinheiro nos Estados Unidos
O Havengate é administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. Documentos já incorporados à investigação indicam que o fundo participou da estrutura criada para receber e administrar recursos destinados à produção cinematográfica.
A PF encontrou também mensagens nas quais Eduardo apareceria dando orientações sobre a maneira como os valores poderiam ser administrados nos Estados Unidos. Os investigadores passaram então a examinar a hipótese de que parte do dinheiro enviado para a produção tenha sido utilizada para custear despesas do ex-deputado durante sua permanência no exterior.
Essa hipótese ainda está sob investigação e não representa conclusão de que os recursos tenham sido desviados.
A partir da cooperação norte-americana, a PF poderá solicitar extratos, identificação de contas, transferências posteriores, contratos e documentação relacionada às pessoas ou empresas que receberam recursos do Havengate.
O empresário Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, apresentou em seu acordo de colaboração informações sobre as remessas realizadas para os Estados Unidos. Esses dados ajudaram a orientar a investigação sobre o caminho internacional do dinheiro.
A partir daí, tornou-se necessário recorrer às autoridades norte-americanas. Embora a PF tenha obtido informações sobre a saída dos recursos do Brasil, os detalhes posteriores das operações estão submetidos ao sistema bancário e jurídico dos Estados Unidos.
A investigação passa, portanto, de uma etapa baseada principalmente em mensagens, documentos brasileiros e informações de inteligência financeira para outra que poderá permitir a reconstrução financeira completa das operações.
Flávio negociou financiamento com Vorcaro
A participação de Flávio Bolsonaro na negociação do financiamento já havia aparecido em mensagens obtidas pela Polícia Federal.
Segundo relatórios policiais, o senador manteve contato direto com Daniel Vorcaro para tratar dos recursos destinados a Dark Horse. Os investigadores identificaram encontros, cobranças pelo pagamento e acompanhamento da liberação das parcelas.
A negociação discutida inicialmente envolvia aproximadamente US$ 24 milhões, equivalentes a cerca de R$ 134 milhões naquele momento.
O total efetivamente transferido foi menor. Flávio afirmou publicamente ter recebido aproximadamente R$ 60 milhões para financiar a produção e reconheceu que negociou os recursos com Vorcaro.
O candidato, entretanto, rejeita qualquer interpretação de que tenha oferecido alguma vantagem ao banqueiro em troca do investimento.
Flávio sustenta que o dinheiro foi destinado a uma produção cinematográfica privada, que a operação foi legal e que nenhum recurso público foi utilizado no filme. Também defende que todo o material da investigação seja tornado público.
A Polícia Federal analisa justamente se a relação terminou no financiamento privado da obra ou se existiram outras contrapartidas ou destinos para os recursos.
Não há, até agora, decisão judicial afirmando que Flávio tenha cometido crime nessa operação.
Fundo ficou praticamente parado antes de receber recursos
O histórico do Havengate também chamou atenção dos investigadores.
A estrutura havia sido criada anos antes, mas permaneceu praticamente sem movimentação relevante até passar a receber valores ligados ao financiamento de Dark Horse. Segundo documentos analisados pela PF, uma das primeiras grandes transferências identificadas ocorreu em 2025.
A investigação considera relevante a proximidade temporal entre a ativação financeira do fundo, as negociações conduzidas por pessoas ligadas ao projeto e as transferências atribuídas a empresas relacionadas a Vorcaro.
Isso não significa que a existência ou utilização de um fundo norte-americano seja, por si só, irregular. Estruturas desse tipo podem ser utilizadas legalmente para investimentos internacionais.
A questão para a PF está na combinação dos elementos: o volume elevado de recursos, a participação de personagens politicamente expostos, a origem dos pagamentos e a necessidade de identificar os beneficiários finais.
Os investigadores também apontaram anteriormente uma diferença expressiva entre o orçamento discutido para o filme e o custo normalmente observado em produções brasileiras de porte semelhante.
A defesa dos envolvidos poderá apresentar contratos, despesas, serviços prestados e outras informações para demonstrar a destinação legal dos valores.
Investigação alcançou Flávio e Eduardo
A apuração sobre Dark Horse ganhou uma dimensão diferente quando deixou de examinar apenas produtores e intermediários financeiros e passou a incluir formalmente integrantes da família Bolsonaro.
Relatórios da PF apontam Flávio como interlocutor direto de Vorcaro nas negociações. Eduardo aparece nas mensagens relacionadas à administração dos valores nos Estados Unidos.
A investigação busca esclarecer possíveis crimes financeiros e de corrupção, mas a abertura de um inquérito não significa reconhecimento de culpa. Cabe à polícia reunir as provas, à Procuradoria avaliar posteriormente se existem elementos para denúncia e ao Judiciário decidir eventual processo criminal.
O pedido aos Estados Unidos pode se tornar uma das etapas mais importantes dessa investigação porque poderá fornecer documentos independentes das versões apresentadas pelos envolvidos.
Se os registros norte-americanos mostrarem que os recursos foram utilizados integralmente na produção cinematográfica, isso poderá favorecer a versão apresentada pelos responsáveis pelo projeto.
Se revelarem pagamentos para finalidades diferentes das declaradas, a PF terá de estabelecer quem autorizou as operações, quem recebeu o dinheiro e por qual razão.
Caso ganha peso durante o segundo turno
A nova medida ocorre enquanto Flávio disputa a Presidência da República com Lula no segundo turno.
A proximidade eleitoral dá repercussão política imediata à investigação, mas não altera a obrigação das autoridades de separar suspeitas de fatos comprovados.
Flávio vem afirmando que investigações divulgadas durante a campanha são utilizadas politicamente contra sua candidatura. A Polícia Federal sustenta que suas apurações seguem procedimentos legais e decisões judiciais, independentemente do calendário eleitoral.
O caso Dark Horse começou antes do segundo turno e envolve documentos e movimentações financeiras acumulados ao longo de vários meses.
A cooperação internacional também não costuma produzir respostas instantâneas. Autoridades norte-americanas precisarão receber formalmente o pedido brasileiro, localizar as instituições responsáveis pelos registros e decidir quais informações poderão ser compartilhadas de acordo com o tratado existente entre os dois países.
Por isso, é possível que parte relevante das respostas chegue apenas depois da eleição.
O ponto central da investigação, porém, está agora claramente definido.
A Polícia Federal já sabe que milhões de dólares saíram de estruturas ligadas a Daniel Vorcaro e chegaram ao fundo Havengate nos Estados Unidos. Também possui mensagens mostrando Flávio Bolsonaro negociando o financiamento e registros que relacionam Eduardo à administração dos recursos.
O que os investigadores ainda precisam estabelecer é o destino final do dinheiro.
Com o pedido de cooperação enviado nesta sexta-feira, essa pergunta atravessa agora a fronteira brasileira e chega oficialmente às autoridades dos Estados Unidos.


