Projeto da UnionPay permitirá que turistas chineses paguem por QR code em estabelecimentos brasileiros; avanço ocorre enquanto Estados Unidos questionam sistema criado pelo Banco Central
Da Redação
O Pix deve ganhar uma conexão direta com aplicativos de pagamento utilizados na China. A UnionPay International prepara um projeto-piloto que permitirá a turistas chineses fazer compras em estabelecimentos brasileiros por meio de QR codes, utilizando aplicativos e contas mantidas em seu país. A iniciativa amplia a internacionalização do sistema brasileiro justamente quando o governo Donald Trump o colocou entre os alvos de uma investigação comercial dos Estados Unidos.
Na primeira etapa, usuários do aplicativo da UnionPay e de bancos chineses integrados à plataforma poderão escanear o QR code de um estabelecimento habilitado no Pix e concluir o pagamento com recursos disponíveis em suas contas na China. A expectativa é que outras carteiras digitais vinculadas à rede da companhia possam ser incorporadas posteriormente.
Para o consumidor chinês, a operação significa poder utilizar no Brasil um ambiente de pagamento com o qual já está familiarizado. Para o comerciante brasileiro, a compra poderá chegar pela infraestrutura do Pix, simplificando transações que hoje dependem de cartões internacionais e outros intermediários.
A novidade ocorre em um momento particularmente sensível. Enquanto Washington questiona políticas brasileiras relacionadas ao Pix sob a alegação de prejuízo competitivo a empresas norte-americanas, companhias chinesas procuram ampliar sua integração com o sistema.
Do pagamento doméstico à conexão internacional
Criado pelo Banco Central e lançado em 2020, o Pix nasceu voltado principalmente às transferências e pagamentos dentro do Brasil. A adesão acelerada transformou o sistema em uma infraestrutura central da economia brasileira.
Segundo as informações divulgadas sobre o projeto, aproximadamente 15 milhões de estabelecimentos já recebem pagamentos pelo Pix. A conexão com aplicativos chineses abre uma nova possibilidade: utilizar essa infraestrutura também como ponto de chegada de pagamentos iniciados fora do país.
A iniciativa não significa que o Pix brasileiro será simplesmente implantado na China. O projeto busca interoperabilidade entre plataformas. O usuário chinês continuará utilizando um aplicativo conectado à UnionPay, enquanto o estabelecimento brasileiro poderá receber pela infraestrutura local.
A diferença é importante porque permite ampliar o alcance internacional do sistema sem exigir que consumidores estrangeiros tenham necessariamente uma conta bancária brasileira.
Aproximação começou antes do tarifaço
Embora o contexto atual dê à iniciativa uma dimensão geopolítica evidente, a aproximação financeira entre Brasil e China começou antes da recente crise comercial com os Estados Unidos.
Em maio de 2025, os bancos centrais dos dois países assinaram um memorando de cooperação envolvendo infraestrutura financeira, moedas locais e sistemas de pagamento. Em junho deste ano, autoridades brasileiras e chinesas voltaram a discutir formas de conectar diretamente seus sistemas. A própria UnionPay já havia firmado acordos com participantes da rede Pix para estudar a interconectividade.
O aumento do turismo chinês também oferece uma justificativa comercial concreta. Mais de 100 mil visitantes chineses estiveram no Brasil em 2025, crescimento de 35% sobre o ano anterior. No primeiro trimestre de 2026, as chegadas avançaram outros 30%. As transações feitas em terminais brasileiros com cartões UnionPay emitidos na China cresceram mais de 30% no primeiro semestre deste ano.
EUA pressionam, China busca integração
O momento escolhido para avançar com o projeto chama atenção porque o Pix entrou diretamente na disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos.
Washington incluiu políticas brasileiras relacionadas ao sistema entre os temas de sua investigação comercial. O argumento norte-americano é que determinadas regras favorecem a infraestrutura administrada pelo Banco Central e prejudicam empresas privadas dos Estados Unidos que atuam no mercado de cartões e pagamentos.
O governo brasileiro rejeita essa interpretação e trata o Pix como infraestrutura pública destinada a aumentar a eficiência, reduzir custos e ampliar o acesso aos pagamentos digitais.
Nesse cenário, surge uma situação pouco favorável ao argumento de isolamento apresentado pelos críticos do sistema: enquanto os Estados Unidos questionam as condições de funcionamento do Pix, empresas de outro grande mercado internacional procuram maneiras de utilizá-lo.
Pix entra na disputa pela soberania financeira
A internacionalização do Pix também acrescenta uma dimensão estratégica à relação entre Brasil e China. Sistemas de pagamento determinam por onde circulam recursos, quais empresas intermedeiam operações e quanto consumidores e comerciantes pagam para movimentar dinheiro.
Por isso, o conflito envolvendo o Pix ultrapassa a discussão sobre uma ferramenta para transferências instantâneas. A capacidade brasileira de administrar uma infraestrutura própria de pagamentos passou a integrar as disputas comerciais com Washington e, simultaneamente, abriu possibilidades de cooperação com outros países.
A eventual conexão com a UnionPay não substitui cartões internacionais nem elimina outras plataformas. Ela acrescenta uma alternativa e demonstra que uma tecnologia criada e regulada no Brasil pode participar de sistemas internacionais sem que o país abra mão do controle sobre sua infraestrutura doméstica.
É nesse ponto que o tema se relaciona diretamente com a Campanha Brasil Soberano, que defende maior autonomia brasileira diante de pressões estrangeiras e propõe a construção de um Congresso Amigo do Povo. Um manifesto está sendo elaborado por intelectuais, sindicalistas e lideranças populares e pode ser conhecido e assinado em:





