Da Redação
Programa apresentado para as eleições de 2026 reúne 13 eixos e propõe combinar crescimento, responsabilidade fiscal, redução das desigualdades, fortalecimento industrial e defesa da soberania. Documento também enfrenta emendas parlamentares, defende o fim da escala 6×1 e aposta na integração sul-americana.
O programa de governo apresentado pela chapa de Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin para as eleições de 2026 coloca uma questão de fundo diante do eleitor brasileiro: qual modelo de desenvolvimento poderá garantir crescimento econômico sem abandonar distribuição de renda, trabalho, indústria e soberania nacional em uma conjuntura internacional marcada por protecionismo, disputas tecnológicas e crescente pressão das grandes potências?
Protocolado na Justiça Eleitoral na sexta-feira (7), o documento tem 84 páginas e reúne 13 eixos. Trata-se ainda de uma primeira versão, que poderá receber adendos durante a campanha. Entre as prioridades declaradas estão defesa da democracia e da soberania, modernização do Estado, redução das desigualdades, segurança pública, proteção das mulheres, desenvolvimento econômico, educação, saúde e infraestrutura.
A espinha dorsal econômica procura combinar elementos muitas vezes apresentados como antagônicos no debate público brasileiro: crescimento e emprego, responsabilidade fiscal, redução das desigualdades, investimento, neoindustrialização e inserção internacional soberana. O editorial do Brasil 247 identifica cinco grandes pilares econômicos no programa: crescimento e emprego, combate às desigualdades, controle inflacionário, neoindustrialização e reinserção internacional.
A discussão é especialmente importante porque o Brasil entra na eleição em um ambiente mundial muito diferente daquele das décadas de predominância da globalização liberal. Estados Unidos, China e União Europeia passaram a utilizar de maneira aberta subsídios, compras governamentais, financiamento público e políticas industriais para disputar inteligência artificial, semicondutores, energia, infraestrutura digital, minerais críticos e tecnologias verdes.
Nesse mundo, indústria voltou a ser sinônimo de poder.
É nesse ponto que a defesa da neoindustrialização ganha dimensão estratégica. O Brasil dispõe de uma combinação rara de vantagens: matriz energética relativamente limpa, enorme capacidade de produção de alimentos, biodiversidade, minerais estratégicos, mercado consumidor de grandes proporções e uma base industrial que, apesar de décadas de perda relativa de participação na economia, continua sendo uma das mais diversificadas do Sul Global.
O desafio proposto pelo programa é transformar essas vantagens naturais em capacidade industrial e tecnológica. A questão fundamental não é apenas quanto o Brasil exportará, mas o que exportará e quanto valor será produzido dentro do país. Permanecer como fornecedor de matérias-primas enquanto importa máquinas, semicondutores, plataformas digitais e tecnologias de alto valor agregado significa preservar uma estrutura de dependência que atravessa a história brasileira.
A responsabilidade fiscal também aparece no programa, mas associada à preservação da capacidade de investimento do Estado. Segundo o editorial do 247, o documento aponta uma trajetória de redução do déficit primário e sustenta que estabilidade macroeconômica deve coexistir com investimentos em infraestrutura, inovação, indústria e serviços públicos.
Essa combinação será um dos testes mais difíceis de um eventual novo governo. O Estado precisa preservar condições de financiamento e estabilidade sem permitir que o equilíbrio fiscal se transforme em mecanismo permanente de compressão dos investimentos necessários ao desenvolvimento.
Outro eixo importante é a justiça tributária. O programa associa mudanças na tributação do consumo a medidas distributivas, incluindo isenção da cesta básica, mecanismos de cashback para famílias de menor renda e maior tributação sobre segmentos situados no topo da distribuição de renda.
A lógica é relevante para a classe trabalhadora porque o sistema tributário brasileiro historicamente concentra grande parcela da arrecadação sobre consumo, atingindo proporcionalmente com maior intensidade aqueles que destinam quase toda a renda às necessidades cotidianas.
O programa também entra diretamente em um dos conflitos institucionais mais importantes do país: o controle parlamentar sobre parcelas crescentes do Orçamento.
Segundo o documento divulgado pela coligação, as emendas parlamentares chegaram a R$ 50 bilhões no Orçamento de 2026. A própria plataforma Lula-Alckmin afirma que a expansão das emendas impositivas e mecanismos associados ao chamado orçamento secreto dispersa recursos, prejudica a capacidade de planejamento e altera profundamente a relação entre Executivo e Legislativo. O programa propõe levar a discussão à sociedade.
Esse debate ultrapassa a disputa entre Congresso e Palácio do Planalto. Quando dezenas de bilhões de reais deixam de integrar políticas nacionais coordenadas e passam a ser pulverizados segundo decisões individuais ou de grupos parlamentares, a questão central passa a ser quem define as prioridades do orçamento público, com quais critérios e sob qual grau de transparência.
Para municípios pobres e regiões historicamente marginalizadas, planejamento nacional continua sendo instrumento essencial para reduzir desigualdades territoriais que o mercado sozinho jamais resolveu.
No campo do trabalho, uma das propostas de maior repercussão é o compromisso de atuar pela aprovação, no Senado, do fim da escala 6×1, associado à redução da jornada para 40 horas semanais sem diminuição salarial. O documento também reafirma a implementação da igualdade remuneratória entre mulheres e homens.
A inclusão da jornada de trabalho no programa presidencial coloca no centro da eleição uma discussão que envolve milhões de brasileiros: se os ganhos de produtividade produzidos por tecnologia, automação e digitalização devem permanecer concentrados no capital ou também podem ser convertidos em tempo, renda e qualidade de vida para quem trabalha.
Há ainda um componente decisivo: soberania nacional.
O conceito atravessa o programa e deixa de aparecer apenas como tema diplomático ou militar. Soberania econômica, tecnológica, energética, alimentar, ambiental e política passam a compor uma mesma estratégia.
Na política externa, o documento estabelece a integração sul-americana como primeiro círculo da projeção estratégica brasileira e propõe aprofundar o Mercosul e mecanismos regionais nas áreas de infraestrutura, defesa, segurança pública, energia e saúde. Também rejeita explicitamente alinhamentos automáticos e a subordinação do país a interesses estrangeiros.
Essa posição ganha significado adicional em 2026, diante das tensões comerciais e diplomáticas com o governo Donald Trump e da disputa crescente entre Estados Unidos e China. O Brasil é pressionado por um sistema internacional no qual tarifas, sanções, restrições tecnológicas e controle de cadeias produtivas voltaram a funcionar como instrumentos explícitos de poder.
Para um país continental, a resposta não pode ser trocar uma dependência por outra. A estratégia precisa consistir em multiplicar parceiros, aprofundar a integração regional, fortalecer o BRICS e preservar relações com Estados Unidos, China, Europa, África, Ásia e América Latina segundo os interesses nacionais.
O programa também vincula desenvolvimento à transição ecológica. A proposta reafirma a meta de alcançar desmatamento líquido zero até 2030 e defende acelerar a transição energética mundial para reduzir progressivamente a dependência dos combustíveis fósseis.
Aqui existe uma oportunidade histórica para o Brasil. Se a transição ecológica significar apenas exportar lítio, minerais, soja, energia e outras matérias-primas, o país poderá repetir sob uma nova roupagem a velha divisão internacional do trabalho. Mas, se vier acompanhada de industrialização, ciência e domínio tecnológico, poderá criar cadeias produtivas nacionais em energia renovável, biocombustíveis, equipamentos elétricos, química verde e tecnologias de baixo carbono.
O documento Lula-Alckmin apresenta, portanto, mais do que uma relação de políticas públicas. Ele procura construir uma determinada concepção de Estado e desenvolvimento: crescimento econômico articulado à distribuição de renda, fortalecimento do mercado interno, recuperação da indústria, investimento público, proteção social e autonomia internacional.
Naturalmente, programa eleitoral não é governo realizado. Entre a proposta e sua execução estarão Congresso Nacional, restrições fiscais, interesses econômicos, pressões internacionais, capacidade administrativa e a própria correlação de forças produzida pelas urnas.
Essa talvez seja a questão política decisiva. Um projeto de desenvolvimento não depende apenas de quem ocupa a Presidência da República. Depende também de quem controla o orçamento, de quais forças dominam o Congresso, de como o Estado organiza investimentos e de quais interesses conseguem transformar suas demandas em políticas públicas.
O programa Lula-Alckmin entra na campanha de 2026 propondo que crescimento, soberania e justiça social não sejam tratados como objetivos concorrentes. A aposta é exatamente a inversa: o Brasil somente poderá construir desenvolvimento duradouro se produzir mais riqueza, distribuir melhor essa riqueza e preservar capacidade própria de decidir seu destino.
Em um mundo que voltou a discutir abertamente indústria, proteção econômica, tecnologia e poder nacional, esse debate pode se tornar um dos grandes divisores de águas da eleição presidencial brasileira.

