Da Redação
Ex-presidente da Câmara se entregou após ter prisão temporária decretada na Operação Vectura Corrupta. Investigadores suspeitam que o PCC tenha alcançado 12 das 22 empresas de ônibus da capital e apuram corrupção, lavagem de dinheiro e financiamento político. A presença de um ex-presidente da SPTrans entre os presos amplia a investigação sobre agentes públicos, mas relações políticas de Leite com Ricardo Nunes e Tarcísio de Freitas não constituem, por si mesmas, prova de participação dos governos no esquema.
A prisão temporária de Milton Leite, ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo e uma das figuras mais influentes da política paulistana nas últimas três décadas, levou a investigação sobre a presença do Primeiro Comando da Capital no transporte coletivo para uma nova fronteira. O problema já não se limita à suspeita de que empresas de ônibus tenham sido utilizadas para lavar dinheiro do crime organizado. Ministério Público e Polícia Civil investigam agora como empresários, intermediários, agentes públicos e atores políticos teriam interagido em torno de um setor sustentado por concessões bilionárias e diretamente dependente de decisões da Prefeitura de São Paulo.
Leite se apresentou nesta sexta-feira, 18 de setembro, à polícia em Mogi das Cruzes, acompanhado de um advogado, depois de não ter sido localizado durante o cumprimento dos mandados da Operação Vectura Corrupta. Contra ele foi expedida prisão temporária por 30 dias. O ex-vereador afirma ser inocente, nega qualquer participação no PCC e rejeita a acusação de que seria proprietário de empresas de ônibus. Após se entregar, voltou a afirmar ter “convicção” de sua inocência.
A cautela é indispensável. Milton Leite não foi condenado pelos fatos investigados na operação, e a prisão temporária não equivale a uma declaração de culpa. Parte importante do material que fundamentou a medida consiste em mensagens e conversas entre terceiros nas quais seu nome aparece, além de depoimentos de policiais militares. Reportagem da Folha que examinou os elementos disponíveis observa que, até agora, não foram apresentados publicamente documentos financeiros que provem diretamente que Leite seja proprietário das empresas investigadas.
Isso não significa, porém, que a operação se sustente apenas em uma associação política genérica. A investigação possui antecedentes que remontam pelo menos a 2024, quando o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público, o Gaeco, já examinava as relações entre Leite e dirigentes da Transwolff. Naquele momento, a Justiça autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do então presidente da Câmara após os promotores afirmarem que ele teria desempenhado “papel juridicamente relevante” nos fatos investigados na Operação Fim da Linha. Leite sempre negou participação criminosa.
A Operação Vectura Corrupta aprofundou essa linha. Segundo a decisão que autorizou as diligências, a investigação do Ministério Público sustenta, ainda como hipótese a ser provada judicialmente, que representantes ou pessoas utilizadas como interpostas pelo PCC teriam alcançado 12 das 22 empresas de ônibus que operam na cidade de São Paulo. A organização teria utilizado companhias do setor para movimentação de recursos, lavagem de dinheiro, negociação de veículos, corrupção de agentes públicos e financiamento irregular de atividades políticas.
Foram expedidos 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão. Entre os alvos estão empresários, advogados, pessoas apontadas pela investigação como integrantes ou operadores da facção, o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira e o político Danilo Marco Morgado Silva. A investigação atribui a alguns desses personagens funções diferentes dentro de uma estrutura que teria articulado empresas privadas, contratos públicos, financiamento eleitoral e agentes com capacidade de interferir em decisões administrativas. As defesas contestam as acusações ou afirmam ainda não ter tido acesso integral aos autos.
É a prisão de Levi dos Santos Oliveira que torna especialmente delicada a dimensão institucional da operação. A SPTrans é a empresa municipal encarregada de gerenciar e fiscalizar o sistema de ônibus da capital. Oliveira ocupou sua presidência em dois períodos, inicialmente na gestão Bruno Covas e novamente a partir de 2022, permanecendo no cargo até fevereiro de 2025. Segundo o Ministério Público, ele teria mantido encontros com José Daniel Satilite, apontado pelos investigadores como um operador ou “laranja” ligado ao PCC, para tratar de interesses relacionados a empresas de transporte. A defesa do ex-presidente da SPTrans disse ter sido surpreendida pela operação e afirmou que ele não possui antecedentes criminais.
Aqui está uma diferença fundamental para compreender o alcance do caso. Uma coisa é investigar criminosos que investem dinheiro em empresas contratadas pelo Estado. Outra, muito mais grave institucionalmente, é apurar se essas redes conseguiram influenciar decisões tomadas dentro dos organismos encarregados de contratar, remunerar, fiscalizar ou substituir as próprias empresas.
É essa segunda hipótese que começa a aparecer com maior clareza na Operação Vectura Corrupta.
A rede construída em torno da Transwolff
A Transwolff ocupa posição central nessa história porque as relações entre a empresa e Milton Leite vinham sendo documentadas muito antes de sua prisão.
Em 2024, documentos obtidos pelo UOL revelaram um contrato envolvendo a Neumax, construtora da família de Leite, e a Transwolff. O acordo previa aluguel mensal de R$ 812 mil por um conjunto industrial e terreno na zona sul de São Paulo. O contrato era assinado por Milton Leite e Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, proprietário da Transwolff e acusado pelo Ministério Público de integrar o PCC. Segundo a reportagem, os pagamentos previstos chegariam a aproximadamente R$ 20 milhões até agosto daquele ano.
Leite contestou a interpretação desses documentos. Disse que o contrato de R$ 812 mil não chegou a ter validade nos termos apresentados, porque trataria da ampliação de uma área que não ocorreu, e afirmou que os valores efetivamente recebidos pela empresa de sua família eram inferiores. A Transwolff também nega que Milton Leite tenha sido seu sócio ou participado de sua administração.
A investigação encontrou, contudo, outras conexões. Documentos do Gaeco analisados em 2024 apontavam o que os promotores classificaram como “estreito relacionamento” entre Leite e a cúpula da empresa. Entre os elementos citados estavam mensagens, contatos entre assessores, apoio político e movimentações financeiras mencionadas em relatórios do Coaf. Um advogado e um contador ligados profissionalmente ao ex-vereador também haviam trabalhado para preparar a Transwolff para a licitação do transporte paulistano. Nenhum desses elementos, isoladamente, prova participação de Leite em crimes, mas sua reunião explica por que a relação deixou de ser tratada pelos investigadores apenas como contato institucional entre um vereador e uma concessionária.
Em março de 2025, outra documentação mostrou que a Neumax havia negociado, anos antes, autorização para receber recursos que a SPTrans destinaria à Cooperpam, cooperativa que posteriormente deu origem à estrutura empresarial da Transwolff. O documento permitia à empresa de Leite negociar junto à SPTrans recebíveis pertencentes à cooperativa. A defesa do ex-vereador contestou a interpretação dada à operação e afirmou que os valores e áreas envolvidas vinham sendo apresentados de forma equivocada.
A dimensão econômica desses negócios ajuda a compreender por que o sistema de ônibus interessa a investigações de crime organizado. A própria Prefeitura registra dois contratos de concessão assinados em 2019 com a Transwolff. Um deles tinha valor de aproximadamente R$ 2,63 bilhões e outro de R$ 2,28 bilhões, ambos com vigência originalmente prevista por 15 anos. Trata-se de recursos associados à prestação de um serviço público essencial e a contratos de longa duração, sujeitos a decisões regulatórias, fiscalização, remuneração e sucessivos aditamentos.
O problema, portanto, não pode ser reduzido à existência eventual de “empresas do PCC”. O que está sob investigação é a possibilidade de uma organização criminosa ter penetrado uma cadeia econômica dependente do Estado: empresas precisam vencer licitações, assinar contratos, receber autorização para operar, ter suas frotas e serviços fiscalizados, receber remuneração e negociar continuamente com estruturas administrativas municipais.
Se a hipótese dos investigadores for confirmada, a questão decisiva será descobrir quais barreiras institucionais falharam — e se algumas delas foram deliberadamente neutralizadas.
A investigação também relaciona o crescimento dessas empresas à transformação das antigas cooperativas e operadores de transporte alternativo. Algumas das organizações hoje examinadas nasceram ou se consolidaram durante o processo de formalização dos antigos sistemas de vans e peruas das periferias paulistanas. Ao longo dos anos, essas estruturas se converteram em empresas de transporte com contratos de grande valor econômico. Segundo a investigação atual, integrantes ou representantes do PCC teriam conseguido ocupar posições dentro de parte desse universo empresarial.
Esse processo revela uma dimensão estrutural particularmente importante. O transporte coletivo não é uma atividade marginal da economia urbana. Ele combina fluxo constante de recursos públicos, estruturas empresariais privadas, grandes frotas, garagens, imóveis, contratos duradouros, intenso relacionamento regulatório e presença cotidiana em áreas periféricas onde organizações criminosas também disputam controle territorial e econômico.
É justamente a combinação entre território, dinheiro e Estado que torna o setor vulnerável a formas sofisticadas de infiltração.
O que a investigação permite dizer — e o que ainda não permite
A prisão de Milton Leite produz impacto político porque sua influência ultrapassou durante muitos anos o mandato formal de vereador. Ele permaneceu 27 anos na Câmara Municipal, foi presidente da Casa em seis oportunidades e tornou-se um dos principais articuladores das maiorias legislativas da capital. Reportagens sobre sua atuação descrevem influência sobre diferentes áreas da administração municipal, especialmente transporte, trânsito e urbanismo.
Mesmo depois de deixar a Câmara, em 2024, Leite continuou participando das articulações políticas de São Paulo. A Folha informou nesta sexta-feira que pessoas próximas a ele ocupam posições relevantes na estrutura municipal. A secretária de Urbanismo e Licenciamento, Elisabete França, é amiga antiga do ex-vereador, embora negue ter sido indicada por ele. O presidente da CET, Milton Persoli, também é apontado pela reportagem como uma indicação política relacionada a Leite; a Prefeitura afirma que ambos permanecem em seus cargos porque possuem a confiança do prefeito Ricardo Nunes. Nenhuma dessas autoridades é acusada, nas informações públicas examinadas, de participação no esquema investigado pela Vectura Corrupta.
A administração Ricardo Nunes, por sua vez, afirma colaborar com as investigações. A Prefeitura ingressou no processo como assistente de acusação e criou um grupo composto pela Procuradoria-Geral do Município, Controladoria, Secretaria de Mobilidade e SPTrans para analisar os novos elementos. Também avalia uma possível intervenção na A2 Transportes, outra empresa mencionada nas apurações. A gestão municipal lembra que já havia intervindo na Transwolff e na UPBus em 2024 e posteriormente encerrado os contratos.
Nunes afirmou ter “muito respeito pela história” de Milton Leite, mas disse que caberá ao ex-vereador responder às acusações e que a Prefeitura dará apoio às investigações.
A dimensão estadual exige ainda mais cuidado.
Milton Leite mantém relação política com o governador Tarcísio de Freitas. Em 30 de agosto, menos de três semanas antes da operação, Tarcísio participou do lançamento das candidaturas dos filhos do ex-vereador, Alexandre Leite e Milton Leite Filho. Depois da operação, o governador afirmou que sua relação com Milton Leite sempre foi “institucional” e “propositiva”, mencionando conversas sobre saneamento e projetos de transporte. Também declarou que as investigações devem seguir os fatos independentemente de partidos ou posicionamentos políticos.
Esses vínculos políticos são relevantes para reconstruir a dimensão de poder de Milton Leite, mas não constituem evidência de que Tarcísio, integrantes de seu governo ou a administração estadual participem do esquema criminoso investigado. Até o momento, as informações públicas sobre a Operação Vectura Corrupta oferecem elementos concretos sobre empresas de transporte, agentes ligados à SPTrans, financiamento político e relações municipais. Não há base documental pública suficiente para afirmar que o PCC tenha infiltrado o governo estadual por intermédio de Leite.
Essa distinção é particularmente importante porque o título da reportagem que deu origem a esta pauta sugere que a prisão poderia “expor” infiltração tanto na Prefeitura quanto no governo paulista. No caso da Prefeitura, a investigação já alcançou diretamente um ex-presidente da empresa municipal responsável por administrar o transporte e apura corrupção de funcionários públicos. Em relação ao governo estadual, o que está publicamente demonstrado até agora são relações e alianças políticas de Leite, não participação criminal de autoridades estaduais.
Outro elemento encontrado durante a operação também exige precisão. Em um imóvel de Sorocaba relacionado a um ex-assessor de Milton Leite, policiais apreenderam aproximadamente R$ 280 mil e US$ 89 mil em espécie, montante convertido pela imprensa para cerca de R$ 738 mil. O dinheiro não foi encontrado com Milton Leite, e sua existência, por si só, não demonstra que tenha origem criminosa ou pertença ao ex-vereador. A procedência dos recursos deverá ser esclarecida pela investigação.
O mesmo rigor deve ser aplicado à afirmação de que Milton Leite seria o “dono de fato” da Transwolff. A expressão aparece na interpretação apresentada pelos investigadores e reproduzida na decisão judicial que autorizou sua prisão. Leite nega a acusação, e a própria cobertura dos autos registra que os elementos conhecidos incluem falas de terceiros, mensagens e depoimentos, enquanto a investigação ainda busca estabelecer documentalmente a estrutura de controle econômico da companhia.
O avanço das perícias sobre celulares e equipamentos apreendidos poderá ser decisivo. A Justiça autorizou acesso aos dispositivos recolhidos durante a operação, e investigações anteriores cresceram justamente a partir de dados extraídos de aparelhos de suspeitos. É possível que esse material revele novas relações, mas também é possível que algumas das hipóteses formuladas pelos investigadores não sejam confirmadas. A apuração está aberta.
O que já está colocado, independentemente do desfecho individual de Milton Leite, é um problema institucional de proporções incomuns. A suspeita formal de que uma organização criminosa possa ter exercido influência direta ou indireta sobre 12 das 22 empresas de transporte coletivo da maior cidade brasileira significa investigar um setor inteiro, não apenas um empresário ou um político.
Se confirmada, a infiltração teria exigido mais que dinheiro do tráfico. Exigiria empresas, sócios formais, contratos, contadores, advogados, relações políticas, interlocução administrativa, financiamento eleitoral e acesso a decisões de Estado.
É por isso que Milton Leite pode representar uma peça importante na investigação, mas não necessariamente seu ponto final.
Os próximos passos terão de responder a perguntas que vão além da responsabilidade criminal do ex-presidente da Câmara: quem controlava efetivamente cada empresa investigada; de onde vinha o capital; como as concessionárias atravessaram licitações e controles; que funcionários públicos eventualmente colaboraram com o esquema; quais campanhas receberam recursos; e se decisões administrativas foram tomadas para favorecer interesses ligados ao grupo criminoso.
Somente quando essas conexões estiverem documentadas será possível estabelecer até onde a rede alcançou a Prefeitura de São Paulo e se ultrapassou os limites do governo municipal.
Até lá, proximidade política não pode ser convertida em participação criminosa.
Mas a escala já revelada pela investigação mostra que o caso deixou de ser apenas uma apuração sobre uma empresa de ônibus. Ele se tornou uma investigação sobre a capacidade de uma organização criminosa penetrar estruturas econômicas que dependem diretamente do Estado — e sobre os mecanismos políticos e administrativos que deveriam impedir que isso acontecesse.


