Atitude Popular

Professora aproveita seminário com lideranças sionistas para denunciar brutalidade e colonialismo de Israel

Fala da historiadora Arlene Clamesha expõe contradições do evento organizado pelo governo Lula e acirra debate sobre memória do Holocausto e genocídio palestino


O seminário com lideranças sionistas organizado pelo governo do Lula gerou controvérsia antes mesmo de começar. Divulgado inicialmente pelo Opera Mundi, o evento foi criticado por setores da sociedade civil e da comunidade acadêmica que apontam a tentativa de enquadrar o debate sobre o conflito no Oriente Médio sob uma ótica alinhada ao sionismo, em meio às denúncias internacionais contra Israel.

Foi nesse contexto tenso que a historiadora Arlene Clemesha tomou a palavra no Dia Nacional de Lembrança do Holocausto e fez uma das intervenções mais duras do encontro, rompendo com a expectativa protocolar e transformando o espaço em um palco de denúncia.

Logo na abertura, Clemesha reconheceu o peso da data, mas indicou que não faria uma abordagem convencional. “Como fazer jus ao sofrimento de todos os 6 milhões de judeus, ciganos, militantes comunistas e opositores do nazismo que pereceram?”, questionou.

Em seguida, ela afirmou que o Holocausto não pode ser tratado como uma exceção histórica isolada. “O Holocausto foi, sem sombra de dúvida, um dos capítulos mais violentos da história da humanidade. Mas ele não constituiu uma anomalia. Ele ocorreu na história, através da história”, declarou.

A historiadora aprofundou a crítica ao afirmar que os métodos do nazismo não surgiram do nada. “Os métodos que Hitler empregou, a ideia de superioridade racial, a segregação, os campos de concentração, foram forjados anteriormente nas colônias europeias”, disse, ecoando análises de pensadores como Hannah Arendt.

Segundo Clemesha, transformar o Holocausto em uma exceção serve a um propósito político. “Quando o Holocausto é excepcionalizado, não é a sua singularidade que é honrada. Ele é isolado para preservar a autoimagem do Ocidente como portador do progresso”, afirmou.

A fala ganhou ainda mais força quando a historiadora trouxe o debate para o presente e denunciou o uso político dessa memória. “É alarmante que a excepcionalização do Holocausto tenha dado lugar à sua instrumentalização pelo Estado de Israel para se blindar das críticas”, disse.

Ela foi além e estabeleceu uma relação direta entre o passado e o presente. “Não deveria causar surpresa que aquilo que vimos na Alemanha nazista ressoe no que ouvimos hoje de lideranças israelenses”, afirmou, citando declarações públicas que desumanizam palestinos. “Eles são chamados de animais humanos, sub-humanos, alvos legítimos de fome. Isso está na imprensa, não é invenção.”

Clemesha também denunciou o papel da propaganda na construção dessas narrativas. “A propaganda nazista desumanizou os judeus com estereótipos, apelidos e teorias conspiratórias. Vejam como isso se repete hoje”, afirmou, estabelecendo um paralelo direto com discursos contemporâneos.

Ao abordar o cenário internacional, a historiadora lembrou que há investigações em curso em instâncias como o Tribunal Penal Internacional e a Corte Internacional de Justiça, que já apontaram a possibilidade de genocídio contra o povo palestino. “Há relatórios e mais relatórios, centenas de milhares de páginas sobre o que está acontecendo hoje”, disse.

Outro ponto central da fala foi o alerta para os efeitos dessa disputa no Brasil. Clemesha criticou a tentativa de dissociar o combate ao antissemitismo de outras formas de racismo. “Não é produtivo reconhecer a dor de um sem reconhecer a dor do outro”, afirmou.

Ela defendeu que o combate ao antissemitismo precisa caminhar junto com o enfrentamento ao racismo antiárabe e à islamofobia. “Se o Brasil aprovar políticas isoladas neste momento, corre o risco de acirrar ressentimentos e importar o conflito para dentro da sociedade brasileira”, alertou.

A historiadora também apontou o que considera uma estratégia deliberada do Estado de Israel. “Cria-se uma confusão proposital entre identidade judaica e Estado de Israel, como se este falasse em nome de todos os judeus”, disse, destacando os riscos dessa associação para a convivência entre comunidades.

Em um dos trechos mais fortes, Clemesha sintetizou sua posição sobre o sentido da memória histórica. “Honrar o sofrimento dos antepassados significa não permitir que nenhum genocídio seja cometido, muito menos em seu nome.”

Ao final, ela apontou um caminho possível. “Quanto mais as vítimas do genocídio judeu e as vítimas do genocídio palestino reconhecerem mutuamente a dor que carregam, maiores as chances de que o legado do Holocausto seja a prevenção universal contra novos genocídios.”

A fala de Arlene Clemesha não apenas tensionou o ambiente do seminário como expôs, de forma direta, a disputa política em torno da memória do Holocausto. Em um evento já marcado pela polêmica, sua intervenção deslocou o debate e evidenciou o incômodo de uma narrativa que se recusou a ser domesticada.

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