Putin afirma que Ucrânia perderá mais territórios após ofensiva em Kursk

Da Redação

Presidente russo diz que incursão ucraniana em território russo terá consequências militares e políticas, enquanto guerra entra em nova fase de desgaste

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que a Ucrânia poderá perder ainda mais territórios como consequência da ofensiva realizada contra a região russa de Kursk. A declaração, repercutida pelo Brasil 247, ocorre em meio a uma nova etapa da guerra, marcada por ataques de drones de longo alcance, pressões sobre a infraestrutura energética russa, avanço gradual das tropas de Moscou no front e crescente desgaste militar, econômico e político dos dois lados.

Segundo Putin, a operação ucraniana em Kursk não teria produzido o resultado estratégico esperado por Kiev e acabou criando condições para que a Rússia ampliasse suas ações militares em outras áreas. A fala reforça a narrativa do Kremlin de que a incursão ucraniana em território russo foi um erro de cálculo, responsável por dispersar tropas, consumir recursos e fragilizar a defesa ucraniana em regiões consideradas prioritárias.

A ofensiva de Kursk, iniciada em 2024, foi uma das ações mais ousadas de Kiev desde o começo da guerra. Ao levar o conflito para dentro do território russo, a Ucrânia buscava produzir impacto psicológico, demonstrar capacidade operacional, pressionar Moscou e forçar o deslocamento de tropas russas. A operação também tinha peso simbólico: mostrava à população russa que a guerra, até então apresentada pelo Kremlin como distante e controlada, poderia atingir diretamente regiões fronteiriças.

O problema, segundo analistas militares, é que a operação também cobrou alto custo da Ucrânia. Ao abrir uma frente dentro da Rússia, Kiev precisou deslocar tropas experientes, equipamentos e recursos logísticos em um momento em que suas linhas defensivas no leste já estavam sob forte pressão. Relatórios de acompanhamento da guerra indicaram que, enquanto a Ucrânia tentava manter posições em Kursk, as forças russas continuavam pressionando áreas estratégicas no Donbass e em outros setores do front.

Guerra de desgaste favorece quem tem mais profundidade estratégica

A declaração de Putin deve ser lida dentro da lógica de uma guerra de desgaste. A Rússia aposta na superioridade demográfica, industrial e territorial para prolongar o conflito, pressionar a capacidade militar ucraniana e explorar a fadiga política dos aliados ocidentais de Kiev. A Ucrânia, por sua vez, tenta compensar a diferença de escala com tecnologia, drones, ataques de precisão, mobilização internacional e ações capazes de atingir pontos sensíveis da infraestrutura russa.

Nos últimos meses, Kiev intensificou ataques contra refinarias, depósitos de combustível, sistemas de defesa aérea e alvos logísticos em território russo. O objetivo é elevar o custo da guerra para Moscou, afetar abastecimento militar e demonstrar que a Rússia também é vulnerável. Essa estratégia, no entanto, não elimina o problema central enfrentado pela Ucrânia: a dificuldade de recompor tropas, manter linhas defensivas extensas e sustentar operações simultâneas em diferentes frentes.

Kursk virou símbolo de risco e ousadia

A ofensiva em Kursk teve efeito político imediato. Ela quebrou a imagem de invulnerabilidade territorial russa e obrigou Moscou a lidar com evacuações, danos em áreas fronteiriças e pressão interna. Mas também abriu debate sobre o custo estratégico da operação. Para críticos, a incursão consumiu recursos que poderiam ter sido usados na defesa de áreas ucranianas sob ameaça direta. Para defensores, foi uma forma de mostrar iniciativa, elevar o moral interno e criar pressão psicológica sobre a Rússia.

Putin tenta explorar exatamente essa ambiguidade. Ao afirmar que a Ucrânia perderá mais territórios, busca transformar a operação de Kursk em exemplo de erro estratégico ucraniano. O recado é duplo: para Kiev, sugere que ataques em território russo serão respondidos com avanço sobre áreas ucranianas; para o público interno russo, reforça a ideia de que Moscou mantém controle da escalada e capacidade de punição.

Impasse militar e pressão diplomática

Apesar do tom duro, a guerra permanece sem solução militar clara. A Rússia avança lentamente em alguns setores, mas enfrenta custos humanos e econômicos elevados. A Ucrânia demonstra capacidade crescente de atingir alvos dentro da Rússia, mas depende de apoio ocidental, enfrenta escassez de efetivos e precisa administrar o desgaste de uma guerra prolongada.

O cenário aumenta a pressão por negociações, mas também dificulta qualquer acordo. Moscou exige reconhecimento de ganhos territoriais e garantias de segurança. Kiev rejeita concessões que consolidem ocupações russas e busca apoio para manter sua integridade territorial. Entre esses dois pontos, a guerra segue produzindo destruição, deslocamento populacional e instabilidade internacional.

Efeitos globais da guerra

O conflito deixou de ser apenas uma disputa entre Rússia e Ucrânia. Ele reorganizou alianças, acelerou a corrida armamentista na Europa, fortaleceu a cooperação entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte e ampliou a dependência ucraniana dos Estados Unidos e da União Europeia. Também impactou mercados de energia, alimentos, fertilizantes e orçamento militar de diversos países.

Para o Sul Global, a guerra expõe os limites de uma ordem internacional marcada por sanções, disputas geopolíticas e seletividade diplomática. Enquanto potências ocidentais tratam a soberania ucraniana como princípio central, muitos países observam a diferença de tratamento em relação a conflitos no Oriente Médio, na África e em outras regiões. Essa percepção alimenta a defesa de uma ordem multipolar e de soluções negociadas que não sejam determinadas exclusivamente pelos interesses das grandes potências.

A fala de Putin sobre novas perdas territoriais ucranianas, portanto, não deve ser vista apenas como ameaça militar. Ela faz parte de uma disputa maior sobre narrativa, desgaste e correlação de forças. A Rússia tenta demonstrar que ainda dita o ritmo da guerra. A Ucrânia tenta provar que pode levar o conflito para dentro da Rússia e alterar o cálculo estratégico de Moscou. Entre uma e outra posição, a guerra entra em mais uma fase de incerteza, com risco de escalada e poucas perspectivas imediatas de paz.