Da Redação
Cúpula de Bishkek reúne Rússia, China, Índia, Irã e outras potências da Eurásia, condena medidas coercitivas unilaterais e ataques contra o Irã e avança em energia, finanças e segurança; encontro mostra que a SCO procura transformar o discurso da multipolaridade em mecanismos concretos de cooperação.
A cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (SCO), realizada em Bishkek, no Quirguistão, terminou com uma mensagem política difícil de ignorar: uma parcela cada vez mais expressiva da Eurásia procura construir mecanismos econômicos, diplomáticos e de segurança capazes de funcionar com maior autonomia em relação às estruturas historicamente dominadas pelos Estados Unidos e seus aliados. Vladimir Putin aproveitou o encontro para defender uma ordem internacional multipolar, ampliar a coordenação da Rússia com China, Índia e Irã e demonstrar que, apesar das sanções e do isolamento promovido pelo Ocidente desde a guerra na Ucrânia, Moscou continua inserida numa extensa rede de relações internacionais.
A reportagem da RT enviada à redação apresenta a participação de Putin a partir de cinco grandes resultados políticos. Essa leitura precisa ser entendida como a interpretação do veículo estatal russo sobre a cúpula, e não simplesmente reproduzida como descrição neutra dos acontecimentos. Documentos oficiais da própria SCO e informações independentes, porém, confirmam alguns dos movimentos estruturais destacados: aprofundamento da cooperação econômica, oposição a sanções unilaterais, fortalecimento das relações entre os grandes países euroasiáticos, defesa de uma arquitetura internacional multipolar e ampliação dos mecanismos institucionais do bloco.
A dimensão do agrupamento ajuda a explicar sua relevância. A SCO reúne atualmente China, Rússia, Índia, Paquistão, Irã, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão. Ao redor desse núcleo existe ainda uma rede de observadores, parceiros de diálogo e organizações internacionais. A reunião “SCO Plus” realizada paralelamente à cúpula de Bishkek incluiu, entre outros, representantes de Mongólia, Azerbaijão, Armênia, Egito, Laos, Turquia, Vietnã e Togo, além de organismos como ONU, União Econômica Eurasiática, Organização do Tratado de Segurança Coletiva e Comunidade dos Estados Independentes.
Isso não transforma a SCO numa “OTAN oriental”. O bloco possui divergências internas importantes e não dispõe de uma estrutura militar integrada equivalente à aliança atlântica. Índia e China mantêm competição estratégica; Índia e Paquistão carregam um conflito histórico; Moscou e Pequim cooperam intensamente, mas também disputam influência na Ásia Central. A relevância da organização está justamente em outro lugar: países com interesses muitas vezes diferentes estão construindo espaços permanentes de coordenação fora da arquitetura política liderada pelo Ocidente.
É esse processo que torna a cúpula de 2026 particularmente importante.
Putin, Xi e Modi: o triângulo que Washington observa
Um dos principais objetivos de Putin em Bishkek foi reforçar simultaneamente os vínculos com Xi Jinping e Narendra Modi.
O presidente russo reuniu-se com Xi à margem da cúpula. Segundo o Kremlin, os dois discutiram relações bilaterais e questões internacionais. A parceria entre Moscou e Pequim tornou-se uma das estruturas fundamentais da política externa russa desde 2022, quando as sanções ocidentais aceleraram o deslocamento de fluxos comerciais, energéticos e financeiros russos em direção à Ásia.
A relação com a Índia é ainda mais reveladora porque Nova Délhi procura preservar autonomia estratégica em relação a todos os grandes polos de poder. Modi reuniu-se com Putin durante a cúpula e Índia e Rússia continuam aprofundando relações comerciais apesar da pressão norte-americana sobre as compras indianas de petróleo russo.
Há um dado econômico especialmente significativo nessa relação. Segundo informações divulgadas nesta quarta-feira pela Reuters, Rússia e Índia desenvolveram uma infraestrutura de pagamentos em moedas nacionais pela qual 96% do comércio bilateral já é liquidado em rublos e rúpias. A rede envolve 22 bancos russos e 17 indianos. O comércio bilateral atingiu aproximadamente US$ 70 bilhões em 2024 e, depois de dificuldades provocadas pelo endurecimento das sanções, voltou a crescer no primeiro semestre de 2026.
Esse dado ajuda a compreender uma transformação que muitas vezes é reduzida equivocadamente à expressão “desdolarização”.
O processo não significa que o dólar esteja prestes a perder sua posição dominante no sistema monetário internacional. A moeda norte-americana continua ocupando posição central nas reservas, no comércio, nos mercados financeiros e no financiamento global. O que está acontecendo é mais específico: países submetidos ou potencialmente vulneráveis às sanções financeiras ocidentais estão desenvolvendo circuitos alternativos de pagamento.
Para a Rússia, isso é questão de sobrevivência econômica. Para China e Índia, é também uma forma de ampliar autonomia.
Quanto mais comércio puder ser realizado sem atravessar instituições financeiras sob jurisdição norte-americana, menor será a capacidade de Washington de transformar o domínio financeiro internacional em instrumento automático de coerção.
Essa mudança é lenta, desigual e ainda muito distante de substituir o sistema financeiro centrado no dólar. Mas já é material.
SCO condena ataques contra o Irã e sanções unilaterais
A cúpula também produziu uma tomada de posição particularmente dura sobre o Oriente Médio.
A Declaração de Bishkek condenou os ataques militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, classificando-os como violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Os integrantes da organização reafirmaram apoio à soberania e à integridade territorial iranianas e defenderam uma solução política e diplomática para o conflito.
A declaração também sustentou o direito iraniano, como signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, de desenvolver tecnologia nuclear para finalidades pacíficas.
É uma manifestação importante porque o Irã não está simplesmente recebendo solidariedade externa: desde 2023 é membro pleno da SCO.
A organização também voltou a condenar aquilo que denomina “medidas coercitivas unilaterais” incompatíveis com as normas das Nações Unidas e da Organização Mundial do Comércio. A formulação alcança diretamente uma das principais ferramentas do poder internacional dos Estados Unidos e da União Europeia: sanções econômicas aplicadas fora de decisões multilaterais do Conselho de Segurança.
A contradição é evidente.
Durante décadas, o enorme peso econômico e financeiro das potências ocidentais permitiu que sanções nacionais produzissem efeitos praticamente globais. Uma empresa localizada num terceiro país pode evitar negociar com um Estado sancionado pelos Estados Unidos não porque seu próprio governo proíba a operação, mas porque precisa preservar acesso ao dólar, ao sistema financeiro norte-americano, a tecnologias controladas por Washington ou ao mercado dos EUA.
A extraterritorialidade econômica transforma, dessa maneira, poder nacional em capacidade regulatória internacional.
É exatamente contra essa assimetria que Rússia, China e Irã procuram construir alternativas.
Da retórica multipolar à infraestrutura
É nesse ponto que a cúpula de Bishkek merece atenção especial.
Falar em “mundo multipolar” é relativamente fácil. Construí-lo exige bancos, sistemas de pagamentos, corredores logísticos, infraestrutura energética, mercados, tecnologia, moedas conversíveis, instituições diplomáticas e capacidade de garantir segurança.
A SCO começa gradualmente a ocupar parte desse espaço.
A declaração final defendeu o aprofundamento da Estratégia de Desenvolvimento Econômico da organização até 2030, maior cooperação financeira e expansão da integração energética. Os países também reafirmaram apoio a um sistema comercial multilateral que descrevem como aberto, inclusivo e não discriminatório.
O documento oficial da organização confirma que os líderes discutiram política, segurança, comércio, investimento, energia, indústria, ecologia e novas tecnologias. Foram ainda aprovadas estruturas institucionais de segurança, entre elas disposições para um Centro Universal de Combate a Desafios e Ameaças à Segurança e para o Comitê Executivo do Centro Antidrogas da SCO.
A organização também assinou um memorando de entendimento entre seu secretariado e a Comissão da União Africana.
Esse último movimento merece ser observado.
Se a cooperação entre a SCO e instituições africanas avançar, a organização deixará progressivamente de funcionar apenas como estrutura euroasiática e poderá ampliar sua interface com o Sul Global. Ainda seria prematuro interpretar o memorando como uma aliança política consolidada, mas ele mostra a direção pretendida.
A reunião ampliada foi realizada sob um tema revelador: a ONU como elemento central de uma ordem mundial justa e a contribuição dos países da SCO Plus para a formação de um mundo multipolar.
Portanto, não existe grande esforço para esconder a ambição política.
Uma alternativa ao Ocidente — mas não um bloco homogêneo
É necessário, entretanto, evitar uma leitura excessivamente simples.
A SCO não constitui um bloco ideológico comparável ao antigo Pacto de Varsóvia. Tampouco seus integrantes compartilham necessariamente uma estratégia comum contra os Estados Unidos.
A Índia é talvez a melhor demonstração disso.
Nova Délhi coopera simultaneamente com Rússia e China na SCO e participa do Quad com Estados Unidos, Japão e Austrália. Mantém fortes relações econômicas e tecnológicas com o Ocidente, mas recusa-se a abandonar sua histórica política de autonomia estratégica. Compra energia russa quando considera vantajoso, desenvolve relações militares com Washington e, ao mesmo tempo, não aceita automaticamente a política norte-americana de contenção da Rússia.
A Turquia oferece outro exemplo. Recep Tayyip Erdogan participou da cúpula e reiterou o interesse turco em tornar-se membro pleno da SCO. Ao mesmo tempo, fez questão de declarar que aprofundar relações com Rússia e China não significa abandonar o Ocidente. A Turquia permanece integrante da OTAN.
É justamente essa flexibilidade que diferencia a ordem emergente daquela produzida pela Guerra Fria.
Não estamos necessariamente assistindo à formação de dois blocos rígidos.
O que aparece é uma disputa por margens de autonomia.
Estados médios e grandes potências procuram manter relações simultâneas com diferentes polos, utilizando competição geopolítica para ampliar espaço de negociação.
Nesse sentido, a multipolaridade não é apenas uma doutrina russa ou chinesa. Para parte significativa do Sul Global, ela funciona como instrumento de barganha.
O significado para o Sul Global
Esse processo possui consequências diretas para países como o Brasil.
Uma ordem internacional mais distribuída pode aumentar a capacidade de Estados periféricos e semiperiféricos negociarem financiamento, infraestrutura, tecnologia, energia e comércio entre diferentes centros de poder. BRICS, SCO, iniciativas chinesas de infraestrutura, mecanismos financeiros regionais e sistemas de pagamentos em moedas nacionais fazem parte — com características muito distintas — desse movimento.
Mas multipolaridade não significa automaticamente emancipação.
Substituir dependência em relação aos Estados Unidos por dependência em relação à China, por exemplo, não produz soberania. O problema fundamental para países como o Brasil continua sendo a capacidade de controlar infraestrutura estratégica, dominar tecnologia, financiar o próprio desenvolvimento e negociar com diferentes potências sem subordinação automática a nenhuma delas.
É justamente aí que a transformação atual da Eurásia interessa ao Sul Global.
Não porque Rússia ou China estejam construindo uma ordem altruísta. Grandes potências possuem interesses nacionais, procuram mercados, influência, recursos e vantagens estratégicas. Moscou, Pequim, Washington e qualquer outro centro de poder devem ser analisados a partir dessa realidade material.
O que muda é a estrutura dentro da qual esses interesses competem.
Quanto maior o número de centros econômicos, financeiros e tecnológicos capazes de oferecer alternativas, maior tende a ser a margem de negociação dos países que souberem preservar sua autonomia.
Putin consegue o que mais precisava demonstrar
Para Vladimir Putin, a cúpula produziu um resultado político particularmente importante: a imagem de uma Rússia que continua participando do núcleo das grandes articulações euroasiáticas.
Putin reuniu-se com Xi Jinping, Narendra Modi, Masoud Pezeshkian, Alexander Lukashenko e diferentes dirigentes da Ásia Central.
Isso não significa que as sanções ocidentais tenham fracassado integralmente ou que a Rússia não enfrente custos econômicos e militares relevantes. Significa algo diferente: a estratégia de isolamento internacional de Moscou encontrou limites claros fora do espaço político ocidental.
A própria composição da SCO demonstra esses limites.
China e Índia juntas representam uma parcela gigantesca da população e da economia mundiais. Irã ocupa posição estratégica no Oriente Médio e no sistema energético. Rússia continua sendo uma potência nuclear, energética e militar. Ásia Central possui recursos naturais e posição geográfica fundamental entre Europa e Ásia.
Nenhum desses países precisa concordar com todas as políticas de Putin para continuar negociando com Moscou.
Essa talvez seja uma das principais transformações geopolíticas evidenciadas em Bishkek.
O sistema internacional que emerge não exige necessariamente alinhamento completo. Ele permite combinações.
A Índia pode cooperar com os Estados Unidos e comprar petróleo russo. A Turquia pode permanecer na OTAN e buscar ingresso na SCO. China e Índia podem disputar influência e simultaneamente sentar-se na mesma organização. Rússia e China podem construir uma parceria estratégica sem transformar suas relações numa aliança militar formal.
É um mundo mais fragmentado, mais competitivo e potencialmente mais instável — mas também um mundo em que o monopólio ocidental sobre determinados instrumentos econômicos e institucionais encontra resistência crescente.
A SCO não substituiu as instituições comandadas pelo Ocidente. O dólar continua dominante. Os Estados Unidos continuam sendo uma potência militar, tecnológica e financeira incomparável em diversas dimensões. E as profundas contradições internas da própria organização podem limitar suas ambições.
Mas Bishkek demonstrou que alguma coisa estrutural já mudou.
A questão deixou de ser simplesmente se haverá uma ordem multipolar.
A disputa agora é quem construirá suas instituições, quem controlará suas infraestruturas, quais moedas circularão dentro dela e quais Estados conseguirão transformar essa fragmentação do poder mundial em soberania real.
É nesse tabuleiro que Putin, Xi, Modi e os demais dirigentes reunidos no Quirguistão estão se movimentando.
E é nesse mesmo tabuleiro que o Brasil e o restante do Sul Global terão de aprender a jogar.


