Da Redação
Série de pesquisas estaduais mostra Lula à frente com vantagem estatística em nove estados, Flávio Bolsonaro em sete e empate técnico em outros nove, incluindo os três maiores colégios eleitorais do país. Mais do que uma fotografia apertada da campanha, os números revelam a persistência da geografia política de 2022: o presidente conserva seu cinturão de força no Nordeste, o bolsonarismo domina boa parte do Sul e a eleição volta a depender da capacidade de cada campo de romper o equilíbrio no Sudeste.
A eleição presidencial de 2026 começa a adquirir uma forma territorial muito mais nítida, e ela é extraordinariamente parecida com o mapa político que dividiu o Brasil quatro anos atrás. Uma série de pesquisas estaduais da Quaest, divulgadas entre 24 de agosto e 4 de setembro e abrangendo 25 estados e o Distrito Federal, mostra Luiz Inácio Lula da Silva numericamente à frente no primeiro turno em nove unidades da Federação, enquanto Flávio Bolsonaro lidera em sete. Em outras nove há empate técnico entre os dois, dentro ou no limite das respectivas margens de erro. Goiás forma a grande exceção: Ronaldo Caiado aparece numericamente em primeiro, com 32%, seguido por Flávio, com 27%, situação que também configura empate técnico, enquanto Lula registra 20%. O Piauí ficou fora da série de levantamentos.
A distribuição desses resultados é mais importante do que a simples contagem de estados. Lula lidera fora da margem de erro em Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe. Flávio aparece em vantagem estatisticamente definida no Acre, Espírito Santo, Mato Grosso, Paraná, Rondônia, Roraima e Santa Catarina. Já Amapá, Amazonas, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Tocantins estão tecnicamente empatados. Isso significa que os três maiores colégios eleitorais brasileiros — São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — começam a reta decisiva da campanha sem um vencedor claramente estabelecido.
Nos três gigantes do Sudeste, as diferenças são mínimas. Em São Paulo, Flávio Bolsonaro aparece com 30% e Lula com 29%; em Minas Gerais, Lula registra 31% contra 30% de Flávio; no Rio de Janeiro, estado de origem política da família Bolsonaro, o senador marca 31% e o presidente 29%. Todos esses resultados configuram empate técnico. Somados, os três estados concentram uma parcela gigantesca do eleitorado nacional, de modo que deslocamentos aparentemente pequenos podem produzir milhões de votos. A Quaest chama atenção, contudo, para uma cautela metodológica indispensável: esses números são de primeiro turno e não podem ser simplesmente transportados para uma eventual disputa de segundo turno, cuja configuração dependerá da transferência dos votos dos demais candidatos, das abstenções e da própria dinâmica final da campanha.
O que emerge dessa fotografia é um país menos realinhado do que poderia parecer depois de quatro anos de governo Lula, da condenação e inelegibilidade de Jair Bolsonaro e da substituição do ex-presidente pelo filho como principal representante eleitoral desse campo. Em análise própria dos levantamentos, a Quaest utiliza uma expressão particularmente reveladora: a eleição está “calcificada”. Não significa ausência de movimento, mas a permanência de uma estrutura política muito resistente. Comparando os números atuais com o desempenho de 2022 sobre a mesma base — o total de eleitores aptos, e não apenas os votos válidos —, Lula permanece dentro da margem de erro de seu resultado anterior em 16 das 25 unidades utilizadas pela Quaest nessa consolidação. Melhora significativamente em cinco e piora em quatro. Não aparece, portanto, uma onda nacional capaz de redesenhar o mapa. O que existe são deslocamentos regionais dentro de uma estrutura de polarização que continua extraordinariamente estável.
O Nordeste permanece sendo a grande muralha eleitoral de Lula. No Maranhão, o presidente chega a 58%, diante de 20% de Flávio Bolsonaro. No Rio Grande do Norte, são 56% contra 19%. Em Pernambuco, a Quaest registra 54% para Lula, enquanto na Bahia o presidente alcança 53% no cenário consolidado analisado pelo instituto. Em Alagoas, são 44% contra 29%. A força nordestina não é apenas simbólica ou histórica: ela continua funcionando como o principal mecanismo de compensação das derrotas sofridas pelo campo lulista em partes do Sul, do Centro-Oeste e do Sudeste. Sem preservar uma diferença muito ampla nessa região, Lula teria enorme dificuldade para construir maioria nacional.
No extremo oposto está o Sul, onde Flávio Bolsonaro demonstra uma capacidade de herdar parcela considerável da base eleitoral construída pelo pai. Santa Catarina continua sendo um dos territórios mais hostis ao lulismo: Flávio chega a 45%, contra apenas 20% do presidente. No Paraná, a diferença também é expressiva, 41% a 23%. O Rio Grande do Sul apresenta quadro mais equilibrado, com 34% para Flávio e 28% para Lula, dentro da margem de erro do levantamento. O desempenho gaúcho merece atenção especial porque a própria Quaest identifica uma deterioração de Lula em relação à base comparável de 2022, assim como ocorre no Paraná e em Santa Catarina. Se o presidente conserva praticamente intacta sua fortaleza nordestina, encontra no Sul uma dificuldade estrutural que quatro anos de governo não conseguiram desfazer.
Talvez o fenômeno politicamente mais importante da pesquisa, entretanto, seja a transferência da identidade bolsonarista de Jair para Flávio. O senador não possui a trajetória presidencial do pai, nunca governou um estado ou o país e entrou na disputa carregando um capital político nacional muito menor. Ainda assim, consegue ocupar rapidamente grande parte do território eleitoral construído pelo ex-presidente. A interpretação da Quaest é precisa: o sobrenome funciona como um atalho político, oferecendo identidade aos eleitores, organizando adversários e reduzindo o custo de coordenação da direita. Isso sugere que o bolsonarismo ultrapassou a dependência absoluta da presença eleitoral de Jair Bolsonaro. Existe agora uma identidade política suficientemente consolidada para ser transferida, ainda que de maneira imperfeita, a outro integrante da família.
Esse dado ajuda também a compreender a enorme dificuldade enfrentada pelas chamadas candidaturas alternativas. A eleição não está simplesmente dividida entre dois indivíduos; está organizada por duas grandes identidades políticas. Lula e Flávio concentram juntos aproximadamente 60% das intenções de voto em São Paulo e Minas Gerais e superam essa marca no Rio de Janeiro. Nos estados onde um dos campos é dominante, a concentração pode ser ainda maior. Isso reduz dramaticamente o território disponível para Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury, Renan Santos e outros candidatos que tentam construir uma terceira alternativa. A candidatura pode até crescer, mas precisa romper identidades políticas que se sedimentaram durante praticamente uma década de confrontação entre lulismo e bolsonarismo.
Goiás mostra simultaneamente a possibilidade e o limite dessa ruptura. Caiado consegue converter sua força local em liderança presidencial dentro do próprio estado, alcançando 32%, contra 27% de Flávio e 20% de Lula. É um resultado relevante porque Goiás é a única unidade pesquisada em que um candidato fora dos dois grandes polos aparece numericamente na primeira posição. Mas o desempenho também evidencia o problema estratégico das alternativas: possuir enorme capital político em seu estado não significa automaticamente possuir uma coalizão nacional. Para realmente reorganizar a eleição, Caiado precisaria reproduzir fora de Goiás uma parcela da competitividade que possui dentro dele. Até agora, os levantamentos estaduais não mostram esse processo em escala suficiente.
Para Lula, a matemática política é igualmente clara. Preservar o Nordeste é condição necessária, mas pode não ser suficiente. A vulnerabilidade está justamente nos estados capazes de alterar o equilíbrio nacional, sobretudo Minas Gerais. A Quaest identifica Minas como o território mais próximo do comportamento médio do eleitorado brasileiro, mas registra ali uma deterioração do presidente em relação ao desempenho comparável de 2022. Num estado que historicamente acompanha com frequência o vencedor nacional e que reúne o segundo maior eleitorado do país, uma diferença de poucos pontos pode se transformar em uma das variáveis decisivas da eleição. São Paulo oferece problema semelhante em escala ainda maior: Lula não precisa necessariamente vencer no estado, mas precisa impedir que a direita construa uma vantagem suficientemente grande para neutralizar o saldo que o presidente obtém no Nordeste.
A eleição começa, assim, a revelar uma espécie de equação territorial. Lula precisa produzir grandes saldos no Nordeste, manter competitividade no Norte e impedir derrotas devastadoras no Sudeste. Flávio precisa preservar a predominância bolsonarista no Sul e em áreas do Centro-Oeste, ampliar sua vantagem em territórios conservadores e transformar os empates de São Paulo, Minas e Rio em vitórias. Nenhum desses movimentos exige necessariamente uma mudança ideológica massiva do eleitorado brasileiro. Em uma eleição tão equilibrada, mobilização, comparecimento e pequenas transferências entre candidatos podem ser suficientes. A própria Quaest observa que, numa disputa calcificada, diferenças relativamente pequenas na disposição de comparecer às urnas podem definir o resultado.
É por isso que interpretar os levantamentos apenas como uma contagem de “estados de Lula” e “estados de Flávio” seria enganoso. Os estados possuem pesos eleitorais radicalmente diferentes, e pesquisas estaduais não podem ser agregadas mecanicamente para produzir uma pesquisa nacional. A vantagem de um candidato em Roraima e uma vantagem equivalente em São Paulo têm impactos absolutos incomparáveis sobre o total de votos. Da mesma maneira, estar numericamente à frente dentro da margem de erro não significa possuir uma liderança estatisticamente demonstrada. O dado realmente poderoso dessa série é geográfico: ela permite enxergar onde cada coalizão eleitoral está sólida, onde está vulnerável e onde se encontram os territórios que podem decidir a Presidência.
Há ainda um elemento que torna essa estabilidade surpreendente. O Brasil atravessou desde 2022 mudanças econômicas, conflitos institucionais, condenação de Jair Bolsonaro, crises internacionais, tensões com os Estados Unidos e uma nova configuração partidária. Mesmo assim, quando o eleitor é colocado diante dos dois grandes campos que organizam a política brasileira, o mapa volta a assumir contornos muito próximos dos anteriores. Segundo a Quaest, Lula preserva aproximadamente seu desempenho de 2022 em quase dois terços dos estados considerados na comparação. Flávio, embora seja outro candidato, recompõe parte substancial da geografia eleitoral do pai.
Isso significa que a campanha de 2026 não começa diante de um eleitorado nacional inteiramente disponível, mas sobre um território político profundamente demarcado. A disputa real será travada nas bordas dessas identidades: nos indecisos, nos eleitores menos mobilizados, naqueles que podem optar pela abstenção e nos votos atualmente destinados às candidaturas alternativas. É ali que uma eleição aparentemente estável pode mudar rapidamente. O retrato nacional mais recente da Quaest ainda coloca Lula à frente nas simulações de segundo turno, mas a distância para Flávio Bolsonaro é a menor entre os confrontos testados, reforçando que a vantagem presidencial não equivale a uma eleição resolvida.
A grande mensagem do mapa estadual, portanto, não é que Lula esteja vencendo porque lidera em nove estados nem que Flávio esteja avançando porque domina sete. É que nove unidades estão tecnicamente empatadas e, entre elas, encontram-se São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O Brasil chega à reta decisiva com suas duas grandes forças políticas novamente entrincheiradas em territórios conhecidos, enquanto os maiores colégios eleitorais permanecem abertos. Quatro anos depois da eleição mais polarizada da história recente, a Quaest encontra um país que mudou em muitos aspectos, mas cuja geografia eleitoral continua profundamente resistente à mudança. E é justamente nessa aparente imobilidade que está o perigo para qualquer campanha que se considere favorita: quando os blocos estão cristalizados e o centro do mapa permanece equilibrado, poucos milhões — ou mesmo algumas centenas de milhares — de votos nos lugares certos podem decidir quem governará o Brasil a partir de 2027.


