VIII Encontro Tensões Mundiais celebra 20 anos da revista, debate guerras, migrações, clima e gênero, e reforça o protagonismo acadêmico do Ceará nas relações internacionais
O VIII Encontro Tensões Mundiais – Estudos das Nações e suas Relações Internacionais acontece de 5 a 7 de novembro, em formato híbrido, com sede na Universidade Estadual do Ceará (UECE). Em entrevista ao Programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas em 28 de outubro de 2025, o pesquisador Gustavo Guerreiro — doutor em Políticas Públicas pela UECE, integrante do Observatório das Nacionalidades (ON) e editor da revista Tensões Mundiais — detalhou a programação, a história do periódico e as linhas de força que guiam os debates deste ano. A matéria a seguir foi elaborada a partir da entrevista concedida ao Café com Democracia (TV Atitude Popular).
Segundo Guerreiro, o encontro marca 20 anos da revista Tensões Mundiais, periódico Qualis A2 na última avaliação da Capes, reconhecido no Brasil e no exterior por reunir contribuições de pesquisadores de América Latina, África, Europa e Estados Unidos. “É um patrimônio do povo cearense”, resumiu. Ao longo de suas duas décadas, a revista publicou 47 números, com dossiês sobre marxismo e relações internacionais, África Austral, BRICS e genocídio na Palestina, entre outros temas — sempre com acesso aberto aos artigos.
Uma conferência de abertura e quatro trilhas de debate
A programação começa com conferência de abertura — citada por Guerreiro como dedicada à reflexão sobre militares e nação — e se organiza em quatro Grupos Temáticos (GTs):
GT 1 — Guerras e colapso civilizacional (coordenação de Gustavo Guerreiro e Manuel Domingos): discute o papel constitutivo da guerra na formação dos Estados-nação, de fronteiras e do avanço tecnológico, articulando poder militar e dominância geopolítica. “Não é um assunto só de quartéis; defesa e conflito precisam ser pauta da sociedade civil e da academia”, pontuou.
GT 2 — Migrações e refugiados (coordenação de pesquisadoras da UECE e instituições parceiras): examina como guerras, crises e assimetrias do sistema neoliberal produzem deslocamentos forçados. Aqui emergiu a fala mais contundente do entrevistado: “Quem migra não o faz por vontade, mas por sobrevivência”. Ao comentar o fluxo em direção à Europa, Guerreiro lembrou as heranças coloniais e intervenções que desestruturaram Estados no Norte da África e no Oriente Médio: “Muitas vezes, a Europa colhe os frutos amargos do que ajudou a semear”.
GT 3 — Crises socioambientais e povos originários (coordenação de Mônica Martins e Juciene Tarairu, da UFCG): debate a ligação direta entre mudança do clima e espoliação histórica de territórios indígenas e quilombolas, ressaltando soluções e resistências construídas por esses povos. Para Guerreiro, indigenista e servidor da área, a visão de mundo originária contrasta com a lógica de acumulação e escassez: “A relação não é de exploração da natureza, mas de convivência”.
GT 4 — Perspectivas de gênero e políticas públicas (coordenação de Helena Frota e Fernanda Fertina Alcântara): discute gênero como ferramenta analítica do poder, desigualdades e instrumentos de política pública para enfrentamento do machismo e da violência.
“O agro não é pop”: conflitos, território e clima
Provocado sobre o impacto do agronegócio na crise climática e nos conflitos no campo, Guerreiro foi taxativo: “O agro não é pop”. Citou grilagem, uso de agrotóxicos (muitos proibidos em outros países), destruição de ecossistemas e violências contra comunidades tradicionais como elementos que inviabilizam a narrativa publicitária do setor. A agenda do GT 3 pretende, segundo ele, visibilizar conhecimentos tradicionais — na Amazônia e no semiárido — como parte da resposta à emergência climática.
Por que guerras importam (e como atravessam a modernidade)
Ao justificar o foco do GT 1, Guerreiro ressaltou que a guerra é fenômeno constitutivo da modernidade, eixo na conformação do Estado e na distribuição do poder global. A análise não busca “romantizar” conflitos, mas inseri-los no campo de estudo da política e da defesa com rigor: “A ciência política não está definindo bondade ou maldade; está procurando entender estruturas e efeitos”, explicou.
Internacionalização e vozes críticas
O encontro mantém as mesas-redondas da manhã e lançamentos editoriais, com participação de pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Entre os nomes citados por Guerreiro estão Reginaldo Nasser (USP) — que reverteu recente tentativa de censura graças à mobilização acadêmica — e Martín Martinelli (Universidad Nacional de Lanús, Argentina), com o livro A geopolítica do genocídio em Gaza. A presença de convidados presenciais e on-line reforça o caráter híbrido do evento, necessário para contornar custos de deslocamento sem abrir mão do debate público.
A revista que não terceiriza posição
Ao comentar a trajetória editorial, Guerreiro destacou que a Tensões Mundiais é uma revista “rebelde”, que não tolhe posicionamentos e prioriza temas do Sul Global, mesmo quando isso confronta “exigências regulatórias” de indexação e periodicidade. O reconhecimento Qualis A2 e o diálogo internacional atestam a relevância conquistada por uma equipe voluntária de professores, pesquisadores e estudantes.
“Valorizem a produção acadêmica do nosso estado. Participem do encontro, leiam a revista, aproximem-se dos debates. É um patrimônio nosso”, convidou Guerreiro.
🔗 https://www.youtube.com/watch?v=J8SF9JuI2Vs
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