“Quem tem passado tem futuro”, afirma Leunam Gomes ao defender responsabilidade na hora do voto

Professor universitário aposentado, radialista e escritor destaca a importância de conhecer a trajetória dos candidatos, acompanhar seus mandatos e participar das decisões que definem os rumos do país

A responsabilidade do eleitor não termina diante da urna eletrônica. Ela começa antes da escolha, com a busca por informações sobre os candidatos, e continua depois da eleição, por meio do acompanhamento dos mandatos e da cobrança por resultados. Essa foi a ideia central defendida pelo professor universitário aposentado, radialista e escritor Leunam Gomes durante entrevista ao programa Café com Democracia, da Atitude Popular, exibida na terça-feira, 15 de setembro. Em conversa com o âncora Luiz Regadas, mestre em Políticas Públicas, cientista político e radialista, o convidado discutiu os critérios que devem orientar o voto e a necessidade de compreender a política como uma forma de participação na vida coletiva.

Ao tratar da escolha dos candidatos, Leunam Gomes sustentou que o eleitor precisa considerar tanto suas preferências pessoais quanto as consequências políticas de sua decisão. Para ele, votar significa participar dos destinos do país, do estado e do município, e não apenas manifestar simpatia por determinada figura pública. “O meu voto, ele é tão importante quanto o do governador do estado”, afirmou, ressaltando que a autoridade ocupada por um candidato não confere a ele maior peso na urna. A declaração reforça sua compreensão de que a cidadania política pressupõe igualdade no direito de escolher os representantes.

Na avaliação do professor, a abstenção também representa uma forma de afastamento das decisões que afetam a comunidade. Ele reconheceu que estava exagerando ao formular a ideia, mas afirmou que quem não vota entrega aos outros a responsabilidade de decidir sobre questões que impactam diretamente sua vida. Entre os exemplos mencionados, citou a limpeza urbana, os preços das passagens, a educação e a saúde. A reflexão, segundo ele, não se limita ao ato eleitoral, mas envolve a disposição de participar dos assuntos públicos e de acompanhar aquilo que é feito em nome da população.

Trajetória e competência devem orientar a escolha

Ao ser questionado por Luiz Regadas sobre os critérios para identificar um bom candidato, Leunam Gomes recorreu à experiência que acumulou em atividades profissionais e educacionais. Ele afirmou que costuma considerar três características fundamentais para a escolha de qualquer pessoa que vá exercer uma função: competência, responsabilidade e bom relacionamento. Transportados para a política, esses critérios exigem que o eleitor avalie se o candidato possui preparo para desempenhar o cargo, compromisso com suas atribuições e capacidade de lidar com as pessoas.

A competência, explicou, não deve ser confundida com a simples disposição de ocupar uma posição de poder. Um deputado federal, por exemplo, precisa ter condições de defender ideias, compreender as atribuições do mandato e expressar com clareza aquilo que pensa. O mesmo raciocínio se aplica a vereadores, deputados estaduais, senadores, governadores e demais ocupantes de funções públicas. “Então, é necessário que a gente pense, não é só que a gente vote em alguém que nos foi indicado”, afirmou.

O professor também chamou atenção para a necessidade de investigar a história dos candidatos. A pergunta central, segundo ele, deve ser o que a pessoa fez para justificar o desejo de ocupar determinado cargo. A avaliação não pode se limitar à propaganda eleitoral, à indicação de terceiros ou à projeção pública do candidato. É necessário conhecer sua atuação anterior, seus compromissos e os interesses que orientam sua candidatura.

“Quando eu vou votar, eu não posso pensar só em mim, eu tenho que pensar no coletivo”, declarou. A afirmação apareceu associada à crítica que fez a parlamentares que, segundo sua avaliação, atuam em desacordo com os interesses dos trabalhadores. Como exemplo, citou a discussão sobre a escala de trabalho 6 por 1, defendendo que o eleitor observe como os candidatos se posicionam diante de temas que afetam diretamente sua categoria profissional.

Para Leunam, a reeleição não deve funcionar como uma autorização automática para a continuidade de um mandato. O eleitor precisa olhar o passado do parlamentar e verificar se suas decisões correspondem aos interesses que afirma representar. A escolha política, nesse sentido, exige conhecimento e não apenas identificação pessoal.

“Quem tem passado tem futuro”

Durante a entrevista, Leunam Gomes contou uma experiência que teve ao conversar com um taxista que conhecia os resultados de eleições anteriores e afirmava acertar todas as suas escolhas. O diálogo levou o professor a explicar por que continuava acreditando na importância do voto, mesmo diante das críticas frequentes à política e aos políticos.

Segundo o relato, ele afirmou ao motorista que votava porque acreditava nas pessoas em quem escolhia votar e porque considerava o voto sua forma de participar da vida do país. Leunam lembrou ainda que, quando morou durante 20 anos em São Luís do Maranhão, costumava viajar ao Ceará durante os períodos eleitorais para exercer seu direito de voto, arcando com as próprias despesas de transporte.

A lembrança foi apresentada como exemplo de compromisso com a participação política. Para ele, votar não significa apenas escolher alguém, mas também adquirir o direito de acompanhar, sugerir e cobrar daqueles que recebem o mandato. A responsabilidade do eleitor, portanto, não se encerra na escolha do candidato.

Em outro momento da conversa, o professor recuperou a história de Zé Maria Melo, político de sua terra natal, Guaraciaba do Norte, que já havia sido prefeito por três vezes quando decidiu disputar uma vaga de deputado estadual. A pedido do candidato, Leunam criou um slogan baseado em sua trajetória: “Quem tem passado tem futuro”.

O professor contou que Zé Maria Melo foi eleito, teve boa votação no Ceará e apresentou um desempenho que considerou positivo. Ressalvou, porém, que o parlamentar morreu dois anos depois de assumir o cargo, sem conseguir cumprir tudo aquilo que havia proposto. A experiência serviu para reforçar a defesa de que o passado de um candidato deve ser considerado na hora da escolha.

A frase, segundo Leunam, pode ser aplicada a qualquer candidatura. O eleitor deve perguntar o que a pessoa realizou antes de pleitear o mandato e se sua atuação revela compromisso com os interesses coletivos ou apenas desejo de projeção pessoal. O histórico, nesse caso, torna-se um elemento de avaliação daquilo que o candidato poderá fazer no futuro.

Promessas eleitorais e a importância da comunicação

A influência das promessas de campanha, dos vídeos nas redes sociais e dos discursos emocionais também foi discutida durante o programa. Luiz Regadas questionou se esses recursos ainda conseguem mobilizar mais eleitores do que a trajetória dos candidatos. Em resposta, Leunam Gomes defendeu que o político precisa se preparar para dizer aquilo que pretende realizar e, sobretudo, comunicar suas ideias de maneira compreensível.

O professor lembrou uma frase que ouviu em um curso de jornalismo realizado no Recife, em 1963. Segundo ele, o docente afirmava que a função do jornalista era dizer coisas cada vez mais complicadas de forma cada vez mais simples, alcançando o maior número possível de pessoas. Leunam adaptou essa compreensão ao trabalho dos comunicadores e dos políticos, sustentando que a linguagem deve servir à compreensão do público.

“Eu não tenho necessidade de me exibir através da forma de escrever. Mas pelo conteúdo, não é?”, afirmou, ao explicar que procura escrever de modo que qualquer pessoa possa entender o que está sendo dito. A clareza, para ele, não diminui a qualidade de uma mensagem. Ao contrário, permite que o conteúdo alcance pessoas que não necessariamente dominam a linguagem técnica.

A mesma exigência, segundo o professor, deve ser feita aos candidatos. O político precisa falar de modo que as pessoas compreendam suas propostas e deve assumir compromisso com aquilo que afirma durante a campanha. O discurso não pode funcionar apenas como instrumento de autopromoção.

Leunam também relatou uma visita que fez à Câmara Federal para assistir a uma sessão. A experiência, segundo ele, foi decepcionante porque muitos parlamentares não prestavam atenção ao que os colegas diziam. O professor descreveu uma situação em que um deputado ocupou a tribuna para criticar duramente um adversário e, ao retornar ao plenário, perguntou a um colega se ele havia gostado do discurso.

A cena foi interpretada por Leunam como sinal de exibicionismo e falta de compromisso com o debate parlamentar. Na sua avaliação, não basta pronunciar discursos inflamados. É preciso haver coerência entre o que o representante diz e aquilo que efetivamente faz.

O professor criticou ainda parlamentares que, em vez de acompanhar as sessões, se dedicam a gravar vídeos para as redes sociais. Para ele, o comportamento contribui para o descrédito da política e reforça a necessidade de discutir a formação dos representantes eleitos.

A responsabilidade continua depois da eleição

Questionado por Luiz Regadas sobre o que acontece depois que o eleitor aperta o botão de confirmação na urna, Leunam Gomes foi direto ao defender que a responsabilidade não termina naquele momento. O mandato, em sua avaliação, deve ser acompanhado pela comunidade, que precisa saber como o representante está utilizando a confiança recebida.

“É importantíssimo a gente estar atento a isso, porque não é votar e deixar para lá, não”, afirmou. O professor sustentou que os candidatos eleitos devem prestar contas à população sobre suas decisões e atividades. A cobrança, segundo ele, faz parte do próprio exercício da cidadania.

Para ilustrar essa relação entre representantes e eleitores, Leunam relembrou a atuação de Eufrasino Neto, deputado estadual de sua cidade durante o período da ditadura militar. Segundo o professor, o parlamentar era de oposição, ligado ao MDB, enquanto a Arena controlava o poder político. Por essa razão, enfrentava dificuldades para conseguir recursos e obras para o município.

Apesar das limitações impostas pelo contexto político, Eufrasino Neto mantinha contato frequente com a população. Leunam relatou que o deputado conhecia seus eleitores pelo nome, visitava estabelecimentos comerciais, sítios e engenhos e conversava diretamente com os moradores. A presença no município fazia com que as pessoas percebessem que suas demandas eram ouvidas.

O professor destacou que o parlamentar também levava à Assembleia Legislativa as preocupações e necessidades da comunidade. A relação entre o deputado e seus eleitores, segundo o relato, foi marcante justamente porque não dependia apenas da entrega de obras ou recursos. O contato e a disposição de ouvir também eram considerados parte do mandato.

A lembrança reforçou a ideia de que o eleitor deve cobrar presença, prestação de contas e compromisso dos representantes. Para Leunam, a política não pode se resumir ao período de campanha.

Investigação, histórico político e critérios para votar

A entrevista também abordou a necessidade de avaliar informações sobre candidatos que estejam envolvidos em investigações. Luiz Regadas apresentou uma situação relacionada a suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro e questionou se o eleitor deveria considerar esse tipo de informação na escolha ou separar a investigação da decisão política.

Leunam Gomes respondeu que o histórico do candidato é fundamental para a avaliação. Segundo ele, quando existem suspeitas e elementos que precisam ser investigados, o eleitor deve conhecer os fatos antes de decidir. O professor ressaltou, contudo, que a investigação não deve ser confundida automaticamente com condenação e que é necessário respeitar o direito de defesa.

A discussão foi conduzida a partir de uma comparação entre trajetórias políticas. Leunam mencionou o Presidente Lula e afirmou que os eleitores precisam conhecer a história dos candidatos e os resultados de suas atuações. Ao falar sobre o atual governo, destacou programas de inclusão social e a possibilidade de pessoas pobres chegarem à universidade, terem acesso à alimentação e encontrarem oportunidades de trabalho.

O professor relacionou essa discussão à sua própria experiência na Universidade Estadual Vale do Acaraú, a UVA, onde atuou como pró-reitor durante 15 anos. Ele contou que a instituição teve a iniciativa de levar cursos de graduação a 142 municípios do Ceará, ampliando o acesso ao ensino superior para professores que já trabalhavam na educação básica.

Segundo o relato, a iniciativa foi especialmente importante porque muitos docentes não tinham formação universitária. Leunam lembrou que, quando foi secretário municipal de Educação em Croatá, encontrou uma situação em que 99% dos professores possuíam apenas a quarta série. Ainda assim, afirmou que o trabalho de acompanhamento e capacitação desenvolvido no município permitiu avanços na alfabetização das crianças.

Ao assumir a função na universidade, o professor passou a se dedicar à expansão dos cursos de graduação para os municípios do interior. Ele destacou a importância do financiamento pelo Fundef e atribuiu aos professores Teodoro e Evaristo Linhares a concepção de uma proposta que contribuiu para a formação dos docentes.

A experiência também foi marcada por preconceitos sobre a validade dos cursos oferecidos fora dos grandes centros. Leunam contou que algumas pessoas não acreditavam que uma graduação realizada em uma cidade pequena pudesse ter a mesma validade de um curso ministrado em Sobral. Ele respondeu a essas críticas lembrando que os mesmos professores responsáveis pelas aulas em Sobral também lecionavam nos demais municípios.

Em sua avaliação, a expansão da UVA contribuiu para transformar a realidade educacional das cidades onde esteve presente. A lembrança foi utilizada para reforçar que a trajetória de um governo ou de uma instituição deve ser examinada a partir das ações realizadas e de seus efeitos sobre a população.

Formação dos eleitos e participação da imprensa

No trecho final da entrevista, Leunam Gomes retomou a crítica ao comportamento de parlamentares e sugeriu que os representantes eleitos deveriam receber orientação sobre suas atribuições e sobre a maneira de se comportar nas casas legislativas.

Para ele, há candidatos que chegam aos cargos sem saber exatamente o que deverão fazer ou como exercer suas funções. A preparação, nesse caso, poderia contribuir para melhorar a qualidade do trabalho parlamentar e a relação entre representantes e eleitores.

O professor também defendeu que os meios de comunicação desempenhem um papel relevante na preparação dos cidadãos para as eleições. Em vez de apenas divulgar nomes e propostas, os programas jornalísticos podem promover reflexões sobre os critérios que devem orientar o voto e sobre a importância do acompanhamento dos mandatos.

“Eu acho que a grande contribuição que o meio de comunicação pode dar nesse momento para o país, para o estado, para o município, é levar as pessoas a essa reflexão”, declarou. Leunam sugeriu que debates sobre o tema sejam realizados sob diferentes perspectivas, incluindo os aspectos legais e políticos do processo eleitoral.

A mensagem final do convidado foi um apelo à participação. Ele criticou a ideia de que todos os políticos são iguais e afirmou que existem diferenças entre as pessoas que ocupam cargos públicos. Para o professor, o eleitor não deve abandonar o voto por descrença generalizada, mas procurar conhecer os candidatos e suas trajetórias.

“Não, não são. Nem todos os padres são iguais, nem todas as freiras são iguais, nem todos os militares são iguais. Todos são diferentes, até porque são pessoas diferentes”, afirmou.

Leunam concluiu defendendo que o eleitor não deixe de votar e reflita sobre os candidatos antes de escolher. A responsabilidade, segundo ele, exige conhecimento, participação e disposição para acompanhar o que é feito depois da eleição.

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