Da Redação
O ex-presidente do Equador Rafael Correa afirma que a reação internacional ao ataque dos Estados Unidos à Venezuela expõe um duplo padrão no direito internacional e critica a falta de resposta firme, usando o exemplo de Putin e Zelensky para ilustrar a hipocrisia global.
O ex-presidente do Equador Rafael Correa fez duras críticas à reação da comunidade internacional diante do ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela e do sequestro do presidente Nicolás Maduro, classificando o episódio como uma demonstração explícita de hipocrisia global e de aplicação seletiva do direito internacional. Para Correa, o silêncio relativo de parte do Ocidente diante de uma agressão desse porte revela que as regras internacionais não são universais, mas moldadas conforme os interesses das potências hegemônicas.
Correa afirmou que o ataque à Venezuela representa uma violação flagrante da soberania de um Estado e um precedente extremamente perigoso para a ordem internacional. Segundo ele, permitir que uma potência capture o chefe de Estado de outro país sem consequências efetivas equivale a normalizar a barbárie nas relações internacionais e a substituir o direito pela força como princípio regulador da política global.
Em uma comparação que repercutiu amplamente, Correa questionou como seria a reação mundial caso a situação fosse invertida. Ele propôs um exercício simples: imaginar se o presidente da Rússia tivesse capturado o presidente da Ucrânia. Para o ex-mandatário equatoriano, não haveria hesitação. A resposta seria imediata, dura e unânime, com sanções, condenações e mobilização diplomática em escala global. O contraste com a reação ao ataque norte-americano à Venezuela, segundo ele, escancara o duplo critério que rege a política internacional.
Para Correa, esse padrão seletivo corrói profundamente a credibilidade das instituições multilaterais e transforma o direito internacional em uma ferramenta instrumental, aplicada apenas contra países considerados inimigos geopolíticos do Ocidente. Ele sustenta que a soberania de nações do Sul Global segue sendo tratada como relativa, negociável ou descartável quando confronta interesses estratégicos das grandes potências.
O ex-presidente também alertou para o risco de que esse tipo de ação se transforme em doutrina. Ao permitir que um país poderoso ataque outro e capture seu líder sem consequências, a mensagem enviada ao mundo é clara: a força volta a ser um instrumento legítimo de imposição política. Segundo Correa, isso cria um ambiente internacional instável, no qual nenhum país está realmente protegido contra agressões externas, especialmente aqueles que não se alinham automaticamente aos centros de poder global.
Correa destacou que a ofensiva contra a Venezuela não pode ser tratada como um caso isolado ou excepcional. Ela se insere em uma longa história de intervenções, golpes patrocinados, bloqueios econômicos e tentativas de submissão política na América Latina. Para ele, o que muda agora é o grau de descaramento e a naturalização da violência como ferramenta legítima de política externa.
A crítica de Correa também se estende à postura de governos e meios de comunicação que, segundo ele, relativizam ou justificam a agressão quando ela parte de aliados estratégicos. Esse comportamento, afirma, não apenas reforça a hipocrisia do sistema internacional, mas também contribui para a erosão de qualquer noção real de legalidade global.
Na avaliação do ex-presidente equatoriano, a passividade diante do ataque à Venezuela enfraquece todos os países, inclusive aqueles que hoje se sentem protegidos por alianças militares ou econômicas. Se o direito internacional deixa de valer para todos, ele deixa de valer para qualquer um. O mundo, alerta Correa, caminha para uma lógica de lei do mais forte, na qual tratados, convenções e organismos multilaterais tornam-se meros adornos retóricos.
As declarações de Correa ecoam amplamente no Sul Global, onde cresce a percepção de que a ordem internacional vigente opera com hierarquias implícitas e padrões assimétricos de julgamento. Para muitos governos, intelectuais e movimentos sociais, o caso venezuelano simboliza o esgotamento de um sistema que promete igualdade soberana, mas pratica dominação seletiva.
Ao concluir suas críticas, Correa enfatizou que a defesa do direito internacional não pode ser condicional. Ou ele vale para todos, ou não vale para ninguém. Ignorar essa realidade, afirmou, significa aceitar um mundo mais violento, mais instável e mais injusto, no qual a soberania dos povos será sempre refém dos interesses de quem detém maior poder militar e econômico.


