Atitude Popular

Gaza e Cisjordânia: o “cessar-fogo” que não cessa e a continuidade do genocidio

Da Redação

Mesmo após um acordo de cessar-fogo, ataques continuam, a ajuda segue estrangulada por restrições e vetos, e a violência se intensifica também na Cisjordânia. O resultado prático é um “cessar-fogo” que funciona mais como narrativa diplomática do que como proteção real à vida palestina.

Chamar de cessar-fogo o que ocorre hoje em Gaza exige uma honestidade incômoda. Se “cessar” significa parar, então não há cessar-fogo. O que existe é uma encenação política que administra a barbárie em doses calculadas, permitindo que a violência continue enquanto se preserva um verniz diplomático destinado ao consumo internacional.

Mesmo sob a retórica da trégua, a Faixa de Gaza segue sendo alvo de ataques pontuais, operações militares e ações de intimidação. Moradores continuam relatando disparos, bombardeios localizados e incursões, enquanto a população civil permanece deslocada, vivendo entre ruínas, abrigos improvisados e estruturas destruídas. A insegurança não cessou. Apenas mudou de ritmo.

O que se apresenta ao mundo como “trégua” opera, na prática, como uma redução intermitente da intensidade militar em alguns momentos, combinada com a manutenção integral dos mecanismos estruturais de punição coletiva. Controle territorial, bloqueio de insumos, restrições a combustível, medicamentos, equipamentos e materiais básicos permanecem ativos. A sobrevivência de mais de dois milhões de pessoas segue condicionada a permissões, autorizações e decisões unilaterais da potência ocupante.

A ajuda humanitária continua sendo tratada como exceção, não como direito. Missões de socorro são frequentemente atrasadas, canceladas ou impedidas. Comboios precisam de autorizações complexas, muitas vezes negadas ou revogadas sem explicação. Organizações humanitárias operam sob pressão permanente, sem previsibilidade, o que inviabiliza qualquer resposta eficaz a uma crise dessa magnitude.

A situação alimentar segue crítica. Mesmo quando há entradas pontuais de alimentos, elas não são suficientes para garantir segurança alimentar contínua. A fome permanece como ameaça estrutural, especialmente entre crianças, idosos e mulheres. A desnutrição não desapareceu com o anúncio do cessar-fogo; apenas deixou de ser manchete diária.

A infraestrutura urbana de Gaza permanece devastada. Sistemas de água, esgoto, eletricidade e coleta de resíduos funcionam de forma precária ou simplesmente não funcionam. O inverno agrava ainda mais a situação, com famílias inteiras expostas ao frio, à umidade e a doenças, vivendo em prédios parcialmente destruídos ou em tendas improvisadas.

Paralelamente, avança uma ofensiva política e administrativa contra o próprio sistema humanitário. Medidas para restringir, expulsar ou inviabilizar a atuação de organizações internacionais reduzem ainda mais a capacidade de resposta. A criminalização indireta da ajuda humanitária transforma o socorro em alvo, aprofundando o colapso.

O ataque às estruturas que sustentam a assistência aos refugiados palestinos tem impacto direto na sobrevivência cotidiana. A restrição de serviços básicos, como água e energia, agrava um quadro já catastrófico e empurra a população para um estado permanente de emergência.

Esse conjunto de fatores — violência contínua, bloqueio, restrições logísticas, sabotagem da ajuda e destruição material — é o que torna o cessar-fogo falso. Ele existe como palavra, não como realidade. Serve para aliviar pressões diplomáticas, não para proteger vidas.

Enquanto Gaza vive sob essa “trégua performática”, a Cisjordânia ocupada segue em ebulição. Operações militares, violência de colonos, demolições, despejos forçados e assassinatos continuam a ocorrer com frequência crescente. Comunidades inteiras são deslocadas sob pressão constante, e crianças seguem figurando entre as vítimas fatais.

A violência de colonos não é episódica nem acidental. Ela se insere em um ambiente permissivo, sustentado por impunidade e respaldo político, funcionando como ferramenta de intimidação e expulsão. Casas são destruídas, terras são tomadas, famílias são forçadas a abandonar seus lares, tudo sob o olhar complacente das forças de ocupação.

O quadro geral revela um projeto coerente: administrar a catástrofe sem resolvê-la, normalizar o intolerável e transformar a sobrevivência palestina em um exercício diário de resistência. O “cessar-fogo” cumpre papel central nesse projeto ao permitir que a violência continue em níveis considerados politicamente administráveis.

Do ponto de vista do Sul Global, trata-se da repetição de um padrão histórico: vidas periféricas tratadas como variáveis descartáveis da geopolítica internacional. A legalidade é flexibilizada, o sofrimento é relativizado e o discurso humanitário é instrumentalizado para encobrir a continuidade da opressão.

Quando se observa Gaza e Cisjordânia em conjunto, o quadro se torna inescapável. Não há ruptura com a lógica da destruição, apenas sua reorganização. A promessa de cessar-fogo não desmonta a estrutura que produz a violência. Apenas a administra.

Se o mundo insiste em chamar isso de cessar-fogo, então é preciso dizer com clareza: trata-se de um cessar-fogo que não cessa. Uma trégua falsa, seletiva e frágil, que preserva os mecanismos de punição coletiva e permite a continuidade do genocídio em câmera lenta, enquanto a diplomacia finge normalidade e a população palestina continua pagando com a própria vida.