Primeiro-ministro britânico Andy Burnham manifesta “total solidariedade” ao governo ucraniano, promete ampliar sanções contra a Rússia e se distancia da pressão de Donald Trump sobre Kiev. Crise entre Washington e Zelensky se agrava após acordo dos EUA para compra de diesel russo e exigência para que Ucrânia suspenda ataques a refinarias
Da Redação
A relação entre Estados Unidos e Ucrânia atravessa uma de suas crises políticas mais abertas desde o início da guerra, enquanto aliados europeus começam a se posicionar publicamente diante da ofensiva do presidente norte-americano Donald Trump contra Volodymyr Zelensky. Neste domingo (11), o primeiro-ministro britânico Andy Burnham reafirmou o apoio de Londres ao governo ucraniano, depois de Trump defender publicamente que a Ucrânia escolha um novo presidente e aumentar a pressão para que Kiev interrompa ataques contra refinarias e outras instalações energéticas russas. A divergência expõe uma divisão crescente dentro do bloco ocidental sobre como conduzir as negociações com Moscou e até onde os aliados devem pressionar a Ucrânia em busca de um acordo. Reuters
Burnham conversou diretamente com Zelensky e afirmou reconhecer que as últimas horas haviam sido particularmente difíceis para a Ucrânia. O primeiro-ministro britânico prometeu manter e ampliar as sanções contra a Rússia, além de buscar novas medidas para restringir a capacidade econômica e militar de Moscou. Londres deixou claro que considera a pressão sobre o governo de Vladimir Putin — e não uma mudança forçada na liderança ucraniana — o principal instrumento para tentar avançar em direção a uma negociação.
A manifestação britânica ocorreu depois de Trump afirmar que estaria “na hora” de a Ucrânia ter um novo presidente. A declaração provocou forte reação em Kiev porque as eleições presidenciais ucranianas estão suspensas desde o início da invasão russa em grande escala, em fevereiro de 2022, devido à vigência da lei marcial. Zelensky respondeu que cabe exclusivamente aos ucranianos decidir quem governa o país e ofereceu uma saída: disse estar disposto a organizar eleições se Putin aceitar um cessar-fogo total de 60 dias, período que permitiria organizar uma votação em condições mínimas de segurança. Reuters
A crise não começou pela discussão eleitoral. O ponto de ruptura imediato foi a decisão de Trump de aliviar temporariamente restrições sobre combustível russo e anunciar um acordo pelo qual Moscou fornecerá centenas de milhares de toneladas de diesel ao mercado norte-americano e internacional. A Casa Branca sustenta que a medida ajudará a reduzir os preços dos combustíveis num momento de forte pressão econômica nos Estados Unidos. Para Kiev, porém, qualquer flexibilização capaz de ampliar as receitas energéticas russas significa colocar mais recursos nas mãos de um governo que continua financiando a guerra.
Zelensky classificou o entendimento como uma decisão prejudicial à Ucrânia e argumentou que receitas adicionais obtidas pela Rússia podem financiar novos ataques. A crítica irritou Trump, que passou a responsabilizar Kiev pelos ataques a refinarias russas e pelas consequências dessas operações sobre os mercados de energia. O presidente norte-americano também voltou a afirmar que Zelensky teria perdido oportunidades de fechar um acordo com Moscou, algo rejeitado pelo governo ucraniano.
O confronto chegou a um nível ainda mais delicado quando surgiram informações de que Washington estaria ameaçando reduzir ou interromper mecanismos de fornecimento de armas e compartilhamento de inteligência caso a Ucrânia continuasse atacando instalações energéticas russas. Autoridades europeias relataram contatos de representantes norte-americanos pressionando tanto Kiev quanto governos da Europa para interromper essas operações. Entre os instrumentos mencionados está o sistema utilizado pelos aliados para comprar equipamentos militares norte-americanos destinados à Ucrânia. Reuters
Londres tenta preservar apoio a Kiev sem romper com Washington
A posição britânica revela uma tentativa de caminhar sobre uma linha cada vez mais estreita. Burnham defendeu Zelensky contra a pressão por mudança de governo e reafirmou que o Reino Unido continuará aumentando sanções sobre Moscou. Ao mesmo tempo, apoiou a ideia de um cessar-fogo específico para o setor energético, apresentada neste domingo por Trump, desde que seja realmente recíproco e impeça também os ataques russos contra a infraestrutura ucraniana.
Essa diferença é essencial. Kiev afirma estar disposta a interromper os ataques contra refinarias russas caso Moscou pare simultaneamente de bombardear usinas, sistemas elétricos, instalações de aquecimento e outras estruturas energéticas da Ucrânia. Zelensky rejeita uma suspensão unilateral que preserve a capacidade russa de atingir cidades ucranianas enquanto Kiev fica impedida de atacar uma das principais fontes econômicas da guerra.
Burnham adotou posição semelhante. Para Londres, um cessar-fogo energético pode ajudar a reduzir o sofrimento da população civil e estabilizar mercados de combustível e alimentos, mas precisa ser aplicado aos dois lados. O governo britânico destacou especialmente os recentes ataques russos contra a rede energética ucraniana e contra instalações relacionadas à navegação no Mar Negro.
A questão ganhou ainda mais complexidade neste domingo quando Trump anunciou pelas redes sociais que Rússia e Ucrânia teriam concordado com um “cessar-fogo energético” de aplicação imediata. A declaração surpreendeu Zelensky, que afirmou apoiar a ideia, mas disse estar aguardando detalhes concretos do entendimento. Moscou inicialmente não confirmou publicamente um acordo nos termos apresentados pelo presidente norte-americano. Reuters
Horas depois do anúncio de Trump, autoridades ucranianas continuavam relatando ataques russos. Um bombardeio contra Kharkiv atingiu instalações de infraestrutura e outros ataques deixaram mortos e feridos em diferentes regiões do país. Ao menos seis pessoas morreram neste domingo em ofensivas russas contra duas cidades ucranianas, segundo autoridades locais. A continuidade dos ataques reforçou a cautela de Kiev diante da declaração da Casa Branca. Reuters
Para o Reino Unido e outros países europeus, o problema é transformar uma declaração política em um mecanismo que possa ser verificado no terreno. Um cessar-fogo precisa definir quais instalações não podem ser atacadas, quando a suspensão começa, quem fiscalizará violações e quais consequências existirão caso uma das partes retome as operações.
Sem essas regras, a experiência recente mostra que anúncios de trégua podem ter pouco impacto sobre a guerra.
Europa reage à mudança de tom de Washington
A posição de Burnham não está isolada. A Alemanha também reagiu às declarações de Trump e reafirmou seu apoio ao governo ucraniano. Berlim defendeu aumento da pressão sobre Putin e manutenção das sanções europeias, enquanto outros governos do continente demonstram preocupação com o estreitamento do diálogo entre Washington e Moscou.
A mudança norte-americana é relevante porque os Estados Unidos continuam sendo o parceiro militar externo mais importante da Ucrânia. Sistemas de defesa aérea, munições, inteligência de satélite, equipamentos de precisão e várias outras capacidades utilizadas pelas forças ucranianas dependem direta ou indiretamente da cooperação com Washington.
Isso oferece à administração Trump um instrumento de pressão incomparavelmente maior do que aquele disponível para qualquer governo europeu isoladamente.
Ao mesmo tempo, a Europa aumentou significativamente sua participação no financiamento da defesa ucraniana e tenta construir mecanismos que diminuam a dependência absoluta dos Estados Unidos. Reino Unido, Alemanha, França, países nórdicos e Estados do leste europeu mantêm programas de treinamento, fornecimento de armamentos, financiamento e produção conjunta.
A divergência atual coloca esse arranjo diante de um teste difícil. Caso Washington utilize armas e inteligência como instrumento para forçar Kiev a aceitar condições que os europeus considerem desequilibradas, os governos do continente precisarão decidir se possuem capacidade e disposição política para compensar parte dessa eventual redução de apoio norte-americano.
Burnham deu neste fim de semana uma primeira resposta política: Londres pretende continuar ao lado da Ucrânia e aumentar a pressão econômica contra a Rússia.
Isso, contudo, não significa rejeitar qualquer iniciativa de Trump. O Reino Unido apoiou publicamente a proposta de suspender ataques contra infraestrutura energética, desde que Moscou também cumpra a trégua. O governo britânico tenta, portanto, separar duas questões: considera legítimo buscar mecanismos de desescalada, mas rejeita transformar essa busca numa imposição unilateral sobre Kiev ou numa discussão conduzida à margem dos próprios ucranianos.
Eleições viram novo foco da pressão norte-americana
A exigência de eleições acrescentou uma dimensão interna ao conflito diplomático.
A Ucrânia não realiza eleição presidencial desde o início da lei marcial, situação prevista pelo ordenamento jurídico do país durante uma guerra de grandes proporções. A questão tem sido utilizada há anos por Moscou para questionar a legitimidade de Zelensky. O governo ucraniano responde que organizar eleições enquanto milhões de cidadãos estão deslocados, territórios estão ocupados e soldados permanecem nas linhas de frente produziria enormes problemas jurídicos, logísticos e de segurança.
Ao adotar publicamente um argumento semelhante e dizer que a Ucrânia deveria procurar um novo presidente, Trump provocou forte reação política em Kiev.
Zelensky respondeu propondo uma condição objetiva: 60 dias de cessar-fogo total. Segundo ele, se Putin interromper completamente as operações militares por dois meses, o governo poderá iniciar os procedimentos necessários para realizar eleições. “Cabe aos ucranianos” definir sua liderança, afirmou o presidente.
A proposta transfere parte da pressão para Moscou. Se a Rússia aceitar a trégua, abre-se espaço para discutir a eleição. Se rejeitar, Kiev poderá argumentar que são as condições da guerra — e não uma recusa política em consultar a população — que impedem a votação.
A realização de eleições durante um conflito dessa escala seria, de qualquer maneira, extremamente complexa. Milhões de ucranianos vivem fora do país, soldados estão mobilizados, parcelas significativas do território permanecem ocupadas e diferentes cidades enfrentam ataques regulares.
Qualquer votação exigiria um sistema especial para militares, refugiados e deslocados internos, além de garantias de segurança inexistentes enquanto bombardeios continuam ocorrendo.
Uma aliança ocidental cada vez menos uniforme
O episódio mostra que a guerra da Ucrânia entrou numa fase politicamente diferente daquela observada nos primeiros anos após a invasão russa.
Em 2022, Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia apresentavam uma posição muito mais coordenada sobre sanções, fornecimento de armas e objetivos gerais. Ao longo dos anos seguintes, divergências sobre custos, duração do conflito, territórios ocupados e condições para uma negociação ficaram progressivamente mais evidentes.
A volta de Trump à Casa Branca acelerou esse processo.
O presidente norte-americano procura apresentar-se como capaz de encerrar conflitos por meio de negociações diretas e acordos econômicos, inclusive com governos adversários. A reaproximação com Putin e o recente acordo envolvendo diesel russo fazem parte dessa lógica. Para os críticos, porém, a estratégia corre o risco de oferecer incentivos econômicos a Moscou sem obter concessões equivalentes.
A conversa entre Trump e Putin na sexta-feira foi descrita pelo Kremlin como extremamente cordial e durou cerca de uma hora e meia. Segundo um assessor presidencial russo, nenhum dos dois queria ser o primeiro a encerrar a ligação. O diálogo tratou principalmente da guerra e do acordo de fornecimento de diesel que provocou a reação ucraniana. Reuters
É nesse contexto que o telefonema entre Burnham e Zelensky ganha peso político.
O primeiro-ministro britânico procurou mostrar que a Ucrânia ainda possui aliados importantes na Europa e que Londres não seguirá automaticamente todas as mudanças de rumo determinadas por Washington. Zelensky, por sua vez, agradeceu o apoio britânico, destacou a necessidade de reforçar a defesa aérea e afirmou que os dois governos preparam novos passos conjuntos e uma reunião presencial.
A Europa entra, assim, numa fase em que talvez precise assumir responsabilidade maior pela estratégia de apoio a Kiev ao mesmo tempo em que tenta impedir uma ruptura aberta com os Estados Unidos.
A contradição é evidente. Trump continua sendo indispensável para qualquer negociação de grande escala, mas algumas das medidas tomadas por seu governo são vistas por Kiev e por capitais europeias como concessões excessivas a Moscou. Os europeus desejam manter Washington dentro do esforço diplomático, mas não querem que um acordo seja construído simplesmente transferindo para a Ucrânia o custo político e territorial da paz.
O cessar-fogo energético anunciado neste domingo poderá mostrar qual dessas tendências prevalecerá.
Se Rússia e Ucrânia efetivamente interromperem ataques contra instalações energéticas, a medida poderá ser um primeiro passo para uma negociação mais ampla. Se Moscou continuar bombardeando a infraestrutura ucraniana enquanto Washington pressiona principalmente Kiev, a crise entre Zelensky e Trump provavelmente crescerá.
Nesse cenário, a manifestação de Burnham funciona como mais do que um gesto diplomático.
Ao prometer “total solidariedade” à Ucrânia enquanto Trump questiona a permanência de Zelensky no poder, o Reino Unido colocou-se no centro de uma divergência que já não ocorre apenas entre Rússia e Ocidente.
Ela começa a atravessar o próprio Ocidente.

