Da Redação
Documento de inteligência financeira revelado nesta segunda-feira acrescenta uma peça importante à investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Segundo a reportagem, o Coaf identificou R$ 6,5 milhões transferidos por Daniel Vorcaro à Entre Investimentos, empresa apontada como intermediária dos recursos destinados ao projeto. O dado entra em choque com versões apresentadas anteriormente sobre a origem do dinheiro e aumenta a pressão por uma prestação de contas completa do longa. O caso já é investigado pela Polícia Federal com autorização do STF.
O financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, ganhou uma nova camada de documentação financeira. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, aponta que Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, transferiu R$ 6,5 milhões para a Entre Investimentos e Participações, empresa que aparece nas investigações como parte do caminho percorrido pelos recursos associados à produção cinematográfica.
A revelação é particularmente relevante porque a origem e o destino do dinheiro empregado em “Dark Horse” permanecem cercados por versões conflitantes. Flávio Bolsonaro reconheceu anteriormente ter procurado Vorcaro para obter recursos destinados ao filme sobre o pai, mas sustentou que os aportes foram direcionados para uma estrutura privada específica da produção, nos Estados Unidos, sem benefício pessoal ou contrapartida pública. A produtora Go Up Entertainment, por sua vez, chegou a negar que tivesse recebido recursos do ex-banqueiro. Investigações policiais e reportagens publicadas desde então vêm tentando reconstruir exatamente por onde o dinheiro circulou.
O novo documento atribuído ao Coaf é importante justamente porque oferece um registro financeiro objetivo dentro dessa cadeia: segundo a reportagem publicada pelo Brasil 247, com base em informações inicialmente divulgadas pela coluna de Andreza Matais, no Metrópoles, Vorcaro realizou transferências que somaram R$ 6,5 milhões para a Entre Investimentos. A empresa é controlada por Antônio Carlos Freixo Junior e já havia aparecido em apurações anteriores relacionadas ao financiamento do longa.
Não significa que os R$ 6,5 milhões tenham sido depositados diretamente na conta de Flávio Bolsonaro, tampouco que o relatório, isoladamente, demonstre a prática de crime pelo senador. O que o documento acrescenta é evidência sobre a circulação financeira de recursos de Vorcaro por uma empresa que integra a estrutura sob investigação. Essa distinção é fundamental.
A própria Entre Investimentos já havia aparecido em outro episódio investigado pelas autoridades. Conforme relatório policial obtido anteriormente pelo Metrópoles, a empresa transferiu R$ 26,225 milhões, entre fevereiro e abril de 2025, para a ACX ITC Serviços de Tecnologia Ltda., companhia que, segundo investigação da Polícia Civil de São Paulo, teria sido utilizada em esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao PCC. O caso foi encaminhado à Polícia Federal. A existência dessa outra transação não demonstra que os recursos de “Dark Horse” tenham ligação com a facção criminosa, mas amplia o interesse das autoridades sobre as movimentações da empresa que aparece no circuito financeiro do filme.
É exatamente por isso que a reconstrução do caminho do dinheiro se tornou o ponto central do caso.
Das conversas de Flávio com Vorcaro ao dinheiro efetivamente transferido
A controvérsia começou a ganhar dimensão nacional quando vieram a público conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”. O senador reconheceu ter solicitado recursos ao então banqueiro para a produção.
As cifras mencionadas ao longo do caso são diferentes e precisam ser separadas para que não se misturem promessa, solicitação, transferência e orçamento.
Reportagens apontaram que as tratativas chegaram a envolver uma expectativa de financiamento muito superior ao montante efetivamente repassado. Segundo informações posteriormente publicadas pela Folha de S.Paulo, Vorcaro teria transferido, ao final, R$ 61 milhões para o projeto. A defesa apresentada por Flávio foi de que se tratava de financiamento privado destinado ao filme, sem contrapartida pública.
Quando o caso veio à tona, porém, a Go Up Entertainment apresentou uma versão diferente. A empresa responsável pela produção afirmou que o filme possuía investimentos estrangeiros e negou ter recebido dinheiro de Vorcaro. O produtor-executivo Mário Frias também declarou que não havia recursos do ex-banqueiro na obra.
Essa contradição nunca foi completamente esclarecida.
Se Flávio pediu o financiamento, se Vorcaro efetivamente disponibilizou dezenas de milhões de reais e se a produtora afirma não ter recebido dinheiro dele, a pergunta inevitável passa a ser: qual foi exatamente o caminho percorrido pelos recursos?
A Entre Investimentos aparece nesse ponto da história.
Quando o STF autorizou a abertura de investigação federal sobre o episódio, já havia informações de que recursos tinham sido transferidos pela Entre Investimentos, ligada a Vorcaro, para um fundo controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro e sediado no Texas, nos Estados Unidos. Flávio, quando surgiram as primeiras revelações, negou que o dinheiro tivesse sido destinado a Eduardo e afirmou que os aportes haviam sido direcionados a “um fundo específico da produção, com estrutura jurídica própria e fiscalização nos Estados Unidos”.
O relatório do Coaf divulgado agora reforça a necessidade de reconstruir documentalmente essa engenharia.
Há uma diferença importante entre dizer que Vorcaro financiou um fundo relacionado ao projeto e conseguir demonstrar, por extratos, contratos, transferências, notas fiscais e pagamentos, quanto entrou, de onde veio, para onde foi e em que exatamente foi gasto.
É essa prestação de contas integral que continua faltando publicamente.
A Folha revelou há poucos dias que, três meses depois de o financiamento vir a público, não haviam sido apresentados nem uma prestação de contas detalhada nem o contrato firmado com Vorcaro. A produtora havia anunciado uma auditoria internacional, mas ela não foi apresentada. Um laudo pericial encomendado pela empresária Karina Ferreira da Gama apontou gastos de US$ 13,39 milhões — aproximadamente R$ 75 milhões — financiados por recursos privados do Havengate Development Fund LP. O documento, entretanto, não identifica individualmente todos os fornecedores nem comprova cada pagamento por meio das respectivas notas fiscais.
É uma lacuna especialmente relevante porque os números que surgiram ao longo do episódio são elevados.
Não se está discutindo um patrocínio de algumas centenas de milhares de reais. As cifras relacionadas às tratativas e ao financiamento do filme chegam a dezenas de milhões.
E existe ainda outro elemento: “Dark Horse” sequer possuía, quando a Ancine foi consultada em maio, pedido de registro para lançamento comercial no Brasil. A agência informou naquele momento que não constava em sua base solicitação de registro da obra para exibição comercial no país.
Caso já chegou ao STF e à Polícia Federal
A controvérsia deixou há meses de ser apenas jornalística.
Em julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a Polícia Federal a abrir inquérito para investigar os repasses relacionados a “Dark Horse”. A medida ocorreu após manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República, que considerou existirem elementos suficientes para justificar a investigação.
Isso também exige precisão: abertura de inquérito significa que fatos serão investigados. Não representa conclusão de que Flávio Bolsonaro, Vorcaro, produtores ou outras pessoas mencionadas tenham cometido os crimes sob apuração.
Existem, além disso, diferentes frentes investigativas que se cruzam em torno da produtora e não devem ser confundidas.
Uma delas examina especificamente os recursos de Vorcaro e as tratativas envolvendo o filme. Outra investiga possíveis irregularidades relacionadas à Go Up Entertainment e ao Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira da Gama. Nesse segundo eixo, autoridades paulistas apuram suspeitas relacionadas a um contrato de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo, destinado originalmente ao fornecimento de internet gratuita para comunidades. A investigação busca esclarecer se houve desvios e se algum recurso terminou relacionado à equipe do longa-metragem.
Na semana passada, o ministro Flávio Dino autorizou a Polícia Federal a acessar provas produzidas pela Polícia Civil paulista nessa investigação. A medida permite que informações encontradas numa frente sejam analisadas em outra apuração federal relacionada à destinação de emendas parlamentares.
Nesta segunda-feira surgiu ainda outra movimentação: a Justiça de São Paulo devolveu à Polícia Civil um pedido de acesso a dados financeiros relacionados à dona da Go Up e determinou que os investigadores apresentassem fundamentação e elementos adicionais para justificar a medida. Ao mesmo tempo, foi autorizada a prorrogação do inquérito por mais 90 dias. A decisão demonstra justamente que algumas das suspeitas continuam dependendo de comprovação documental e não podem ser tratadas como fatos consumados.
Flávio Bolsonaro tem negado irregularidades e procurado encerrar politicamente o assunto. Na semana passada, afirmou que “Dark Horse” era uma “página virada” de sua campanha e, questionado sobre as contas do filme, sustentou que estava “tudo certinho”.
O problema é que, do ponto de vista documental, a história ainda está longe de encerrada.
O contrato completo com Vorcaro continua sendo uma peça essencial para esclarecer as condições do financiamento. A prestação de contas detalhada permitiria verificar os destinatários finais dos recursos. Os documentos bancários podem reconstruir o caminho entre Vorcaro, Entre Investimentos, fundos estrangeiros e demais participantes da operação. E as investigações da PF deverão estabelecer se essa arquitetura financeira teve exclusivamente a finalidade privada declarada pelos envolvidos ou se existem outras irregularidades.
O relatório do Coaf ganha importância exatamente nesse contexto.
Ele não encerra o caso, nem autoriza afirmar sozinho que houve crime. Mas transforma parte da discussão sobre a origem dos recursos em algo menos dependente das versões apresentadas publicamente pelos envolvidos: há agora movimentações financeiras concretas que podem ser confrontadas com contratos, declarações, datas e destinatários.
Para Flávio Bolsonaro, que disputa a Presidência da República, o problema político também é evidente. O senador confirmou que buscou recursos junto a Daniel Vorcaro para viabilizar o filme sobre Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, diferentes personagens ligados à produção apresentaram explicações que nem sempre coincidem sobre a origem, a estrutura e o destino do dinheiro. Agora, informações provenientes de inteligência financeira acrescentam novos elementos ao percurso desses recursos.
É justamente essa incompatibilidade entre versões que torna indispensável uma resposta documental.
Quem colocou o dinheiro? Quanto efetivamente foi transferido? Por quais empresas e fundos passou? Quem recebeu? Quanto foi utilizado na produção? Quais fornecedores foram pagos? E onde estão os contratos, notas fiscais e comprovantes capazes de reconstruir integralmente a operação?
Enquanto essas perguntas permanecerem sem respostas públicas completas, “Dark Horse” dificilmente poderá ser tratado como uma página virada. O filme sobre Jair Bolsonaro tornou-se também objeto de uma investigação financeira que passa pela Polícia Federal, pelo Coaf e pelo Supremo Tribunal Federal — e cujo ponto mais importante agora é seguir o dinheiro até seu destino final.






