Ataques atingem instalações de telecomunicações, centros de dados e estruturas logísticas; ofensiva mostra como servidores, redes e comunicações se tornaram parte do campo de batalha
Da Redação
A guerra na Ucrânia ganhou nas últimas semanas uma dimensão cada vez mais visível: a infraestrutura que mantém um país conectado passou a ocupar o centro dos ataques.
A Rússia realizou neste domingo, 27, uma nova série de bombardeios contra instalações de telecomunicações, data centers e estruturas logísticas ucranianas. Entre os locais atingidos está a sede da Kyivstar, maior operadora de telefonia móvel da Ucrânia.
A empresa confirmou que seu escritório central em Kiev foi atingido. Segundo a operadora, não houve vítimas no local.
O Ministério da Defesa da Rússia afirmou também ter atingido um data center pertencente à Vodafone Ukraine, segunda maior operadora móvel do país.
Moscou apresentou os ataques como operações contra estruturas utilizadas pelas Forças Armadas ucranianas. Algumas dessas alegações não puderam ser verificadas de forma independente.
O que já pode ser confirmado, entretanto, é que a infraestrutura digital ucraniana entrou definitivamente na linha de fogo.
Os ataques deste domingo não são episódios isolados. Desde meados de setembro, forças russas vêm intensificando bombardeios contra centros de processamento de dados, provedores de internet e instalações de telecomunicações.
A ofensiva expõe uma característica cada vez mais importante das guerras contemporâneas.
Destruir infraestrutura digital significa atingir muito mais do que computadores.
Data centers armazenam e processam informações de empresas, bancos, serviços públicos, plataformas digitais e sistemas de comunicação. Redes de telecomunicações conectam instituições públicas, empresas e milhões de cidadãos. Em um país em guerra, essa infraestrutura também sustenta alertas de ataques aéreos, comunicações de emergência e diferentes estruturas utilizadas pelo Estado.
O servidor tornou-se infraestrutura estratégica.
Cem mil residências afetadas
A escalada tornou-se particularmente visível em Kiev.
Ataques russos contra data centers e provedores de internet ocorridos em 23 de setembro provocaram interrupções que afetaram aproximadamente 100 mil residências na capital e na região metropolitana, segundo o Ministério da Transformação Digital da Ucrânia.
Novos ataques ocorreram nos dias seguintes.
Em 26 de setembro, bombardeios contra centros de dados afetaram serviços de provedores de internet e chegaram a interromper temporariamente transmissões de veículos de comunicação ucranianos.
Neste domingo, a ofensiva continuou.
O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que um data center em Kiev foi atingido duas vezes durante a manhã. Segundo autoridades ucranianas, três pessoas ficaram feridas no primeiro ataque, entre elas duas crianças.
Ao mesmo tempo, a Rússia ampliou os alvos.
O Ministério da Defesa russo afirmou ter atacado centros logísticos nas regiões de Kiev e Odessa, depósitos de drones em Mykolaiv, instalações portuárias, centros de comunicação e embarcações que Moscou afirma estarem relacionadas às operações militares ucranianas.
A Reuters não conseguiu verificar independentemente todas essas alegações.
O conjunto dos ataques, porém, revela uma mudança perceptível de escala.
Não se trata apenas de atingir quartéis, depósitos de munição ou instalações industriais. A infraestrutura que mantém circulando dados e comunicações tornou-se parte explícita da disputa militar.
A infraestrutura invisível da guerra
Durante décadas, a imagem tradicional de infraestrutura estratégica esteve associada a pontes, ferrovias, portos, aeroportos, usinas elétricas e refinarias.
Essas estruturas continuam fundamentais.
Mas sociedades profundamente digitalizadas dependem também de uma segunda camada de infraestrutura, menos visível.
Cabos de fibra óptica, antenas, servidores, sistemas de armazenamento, instalações de nuvem e centros de processamento formam uma espécie de sistema nervoso das economias contemporâneas.
Quando um data center deixa de funcionar, os efeitos podem se espalhar por dezenas ou centenas de serviços aparentemente desconectados.
Uma loja pode perder acesso ao sistema de pagamentos. Uma empresa pode deixar de acessar seus bancos de dados. Um veículo de comunicação pode sair do ar. Um serviço público pode perder conectividade.
Em situação de guerra, existe uma consequência adicional.
A população depende das redes digitais para receber informações sobre drones, mísseis e ataques em andamento.
O governo ucraniano acusa a Rússia justamente de tentar degradar essa capacidade.
Moscou apresenta outra justificativa. Autoridades russas afirmam que determinados centros de dados e redes de comunicação também são utilizados para atividades militares ucranianas.
A distinção é decisiva porque grande parte da infraestrutura digital moderna possui caráter de uso duplo.
A mesma rede pode transportar informações civis e militares. O mesmo data center pode hospedar sistemas empresariais, serviços públicos e aplicações utilizadas pelo Estado.
É uma característica que torna a infraestrutura digital particularmente sensível dentro de uma guerra.
Uma nova frente
Os ataques russos acontecem enquanto a Ucrânia também amplia suas operações de longa distância contra território russo.
Kiev vem utilizando drones para atingir refinarias, instalações industriais e outros alvos considerados estratégicos para a economia e para a capacidade militar russa.
Em 20 de setembro, um ataque de drones provocou incêndios na refinaria de Moscou, uma das instalações importantes do sistema de abastecimento russo. Fontes do setor disseram posteriormente que o processamento de petróleo precisou ser interrompido.
A guerra, portanto, avança cada vez mais sobre estruturas que sustentam economicamente os dois países.
Energia, logística, indústria e agora infraestrutura digital passaram a fazer parte de uma disputa destinada não apenas a destruir equipamentos militares, mas também a reduzir a capacidade material do adversário de continuar funcionando.
É nesse contexto que os ataques contra os data centers ucranianos ganham importância.
A internet durante muito tempo foi apresentada como uma rede descentralizada e resistente à destruição de pontos específicos.
Na prática, entretanto, a economia digital depende de uma enorme infraestrutura física.
Os dados precisam estar armazenados em algum lugar. Servidores precisam de energia. Redes precisam de cabos. Sistemas de nuvem precisam de edifícios, equipamentos, refrigeração e conexões permanentes.
Tudo isso possui localização física.
E tudo isso pode ser atacado.
A ofensiva contra a infraestrutura digital da Ucrânia mostra que a guerra contemporânea não acontece apenas onde estão soldados, tanques e sistemas de artilharia.
Ela também acontece dentro dos edifícios sem janelas onde milhares de servidores mantêm uma sociedade conectada.
Quando esses servidores entram na lista de alvos, a fronteira entre guerra física e guerra digital praticamente desaparece.


