Da Redação
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, recorreu a uma generalização sexista para explicar por que o partido decidiu não nomear outra dirigente para o lugar de Michelle Bolsonaro no comando nacional do PL Mulher. Ao falar sobre a possibilidade de escolher uma substituta, Valdemar afirmou que a decisão poderia provocar conflitos entre as integrantes da legenda: “Sabe como é mulher”.
A declaração foi dada nesta quarta-feira (8), em entrevista ao Metrópoles, e se soma a uma sequência de manifestações públicas nas quais o presidente do PL termina revelando aspectos incômodos do próprio grupo político. A Atitude Popular já reuniu alguns desses episódios na matéria Os sincericídios de Valdemar Costa Neto. Desta vez, a sinceridade do dirigente atingiu as próprias mulheres do partido, justamente quando ele explicava o futuro da estrutura partidária destinada à participação feminina.
A fala ocorre ainda em meio aos esforços do comando do PL para administrar a crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. A relação entre os dois se deteriorou publicamente nos últimos meses e acrescentou dificuldades à candidatura presidencial de Flávio, principalmente diante da projeção política que a ex-primeira-dama conquistou entre mulheres conservadoras e eleitoras evangélicas.
“Arruma enguiço com 20”
Depois da saída de Michelle da presidência nacional do PL Mulher, Valdemar decidiu extinguir o cargo. A estrutura continuará funcionando por meio das direções estaduais, sem uma nova presidente nacional.
Ao explicar a decisão, o dirigente começou elogiando as parlamentares do partido e afirmou que Michelle possui uma capacidade de comunicação difícil de substituir.
“Sem querer desmerecer as mulheres do nosso partido, são 17 mulheres de primeira, excelentes deputadas, aliás, são muito melhores do que os homens, mas nós não temos ninguém à altura da Michelle. A Michelle tem um poder muito grande de comunicação, fala bem, tem imagem boa. E é dedicada”, declarou.
Na sequência, porém, Valdemar apresentou sua justificativa para não escolher uma das mulheres do partido para a função anteriormente ocupada por Michelle:
“Já imaginou? Se a gente coloca uma, você sabe, mulher, como que é. Arruma enguiço com 20.”
A declaração transforma uma decisão partidária concreta em uma generalização sobre o comportamento feminino. O presidente de uma das maiores legendas do país atribuiu às mulheres uma suposta dificuldade de convivência justamente ao explicar por que nenhuma das dirigentes partidárias receberá a presidência nacional da estrutura feminina.
Cargo desaparece depois da saída de Michelle
A solução encontrada pela direção do PL foi extinguir o posto em vez de escolher uma sucessora. Com isso, as presidentes estaduais permanecem na estrutura, mas sem uma dirigente nacional ocupando a posição que deu projeção política a Michelle Bolsonaro.
Valdemar afirmou que nenhuma integrante do partido possui atualmente a mesma projeção da ex-primeira-dama. Segundo ele, Michelle poderá voltar a ocupar espaço na direção partidária caso decida retornar.
A saída dela ocorreu durante um período de forte tensão dentro da família Bolsonaro. A crise ganhou exposição pública depois que Michelle relatou ter sido maltratada e humilhada por Flávio durante uma conversa telefônica.
O conflito passou a preocupar a direção partidária porque Michelle construiu uma presença política própria. Sua capacidade de mobilização interessa diretamente à campanha presidencial de Flávio, que precisa ampliar sua votação entre as mulheres.
Valdemar passou, então, a atuar para reduzir o conflito. O dirigente manteve conversas com os dois lados e defendeu publicamente a recomposição entre Michelle e Flávio.
Michelle continua nos planos eleitorais do PL
Mesmo fora do comando do PL Mulher, Michelle ainda é considerada uma personagem eleitoral importante pela direção do partido. Valdemar voltou a mencionar a possibilidade de uma candidatura dela ao Senado pelo Distrito Federal.
A declaração representa uma mudança em relação às informações apresentadas anteriormente pelo próprio dirigente. Valdemar havia afirmado que Michelle estava cansada da atividade política e pretendia dedicar mais tempo aos cuidados com Jair Bolsonaro.
A possibilidade de candidatura, entretanto, continua sendo tratada pelo partido. O interesse eleitoral é compreensível: Michelle possui projeção própria e capacidade de mobilização em segmentos nos quais Flávio encontra dificuldades.
O PL enfrenta, assim, uma situação delicada. Precisa da presença de Michelle na campanha, mas ainda tenta administrar as consequências de seu conflito com o candidato presidencial do partido. Ao mesmo tempo, a estrutura nacional destinada às mulheres ficou sem comando após a saída da ex-primeira-dama.
A explicação oferecida por Valdemar para não nomear uma substituta adicionou um novo constrangimento. Enquanto o partido procura melhorar a relação de Flávio com o eleitorado feminino, seu presidente nacional justificou uma decisão sobre a direção das mulheres recorrendo a um comentário sexista sobre as próprias integrantes da legenda.
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