Em entrevista ao Café com Democracia, doutora em Direito e Sociologia analisa o impacto das notícias falsas nas eleições, questiona a atuação das plataformas digitais e alerta para os riscos da desinformação à democracia brasileira
A desinformação pode comprometer a capacidade dos eleitores de avaliar candidatos, comparar propostas e tomar decisões políticas com base em informações verificáveis. Com a expansão das redes sociais e o avanço de ferramentas de inteligência artificial capazes de produzir vídeos, áudios e imagens falsos cada vez mais convincentes, o problema ganhou novas dimensões no debate eleitoral brasileiro. Para a doutora em Direito e Sociologia Nadine Borges, o acesso à informação confiável é uma condição fundamental para o exercício da liberdade de expressão.
Em entrevista ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, exibida na quarta-feira, 14 de outubro de 2026, Nadine discutiu a influência da desinformação sobre o voto, a responsabilidade das plataformas digitais e os limites constitucionais da liberdade de expressão. A conversa foi conduzida pelo âncora Luiz Regadas, mestre em Políticas Públicas e cientista político, e também abordou a disputa eleitoral, os direitos dos trabalhadores e os desafios para a preservação das instituições democráticas.
Desinformação e estratégias eleitorais
Um dos primeiros assuntos da entrevista foi a mudança de posicionamento de Flávio Bolsonaro em relação ao fim da escala 6×1. Nadine classificou a alteração como uma manobra eleitoral e argumentou que o histórico parlamentar do senador precisa ser considerado na avaliação de suas declarações.
A jurista afirmou que, ao longo de sua trajetória política, Flávio Bolsonaro se posicionou contra medidas relacionadas à ampliação dos direitos dos trabalhadores. Por isso, questionou a credibilidade de sua recente sinalização favorável à proposta de redução da jornada.
“É de um oportunismo eleitoral sem tamanho”, declarou.
Nadine também manifestou preocupação com a possibilidade de que uma eventual mudança na legislação seja posteriormente esvaziada por negociações individuais entre empregados e empregadores. Para ela, a desigualdade de poder entre as partes precisa ser considerada na formulação de políticas trabalhistas.
“E nós sabemos que se eu sentar com o meu patrão nessa mesa aqui, eu vou sair perdendo”, afirmou.
A declaração foi apresentada no contexto de uma discussão sobre a proteção legal dos trabalhadores e os limites da negociação individual em relações marcadas por diferenças econômicas. Na avaliação da entrevistada, a análise das propostas eleitorais deve levar em conta não apenas o que os candidatos afirmam durante a campanha, mas também sua atuação anterior e os compromissos que assumem publicamente.
Liberdade de expressão depende de acesso à informação
Ao discutir a circulação de notícias falsas, Nadine recorreu à Constituição Federal de 1988 para explicar que a liberdade de expressão não pode ser dissociada do acesso à informação.
A jurista lembrou que a Constituição garante a livre manifestação do pensamento, mas também estabelece limites jurídicos para o exercício desse direito. A liberdade de expressão não autoriza, por exemplo, a prática de racismo, nem elimina a responsabilidade por atos ilícitos.
Para Nadine, existe ainda uma questão fundamental: a possibilidade de expressar opiniões depende da disponibilidade de informações que permitam ao cidadão formar seu próprio entendimento sobre os acontecimentos.
“Se a informação que você tem acesso não é verdadeira, se você é alimentado por fake news, essa liberdade de expressão corrói”, afirmou.
A entrevistada criticou os mecanismos de seleção e enquadramento das informações que chegam ao público, argumentando que a maneira como uma notícia é apresentada pode influenciar a compreensão dos fatos. Segundo ela, o problema se torna mais complexo quando conteúdos manipulados circulam em ambientes digitais e são apresentados como se fossem informações verificadas.
Nadine observou que a inteligência artificial pode ser utilizada para produzir conteúdos falsos e que a existência de ferramentas tecnológicas não garante, por si só, a confiabilidade das informações. Ela defendeu que os cidadãos precisam ter condições de identificar a origem dos conteúdos e verificar sua correspondência com os fatos.
A dificuldade, segundo a jurista, está no volume de informações disponíveis e na falta de tempo de parte da população para investigar a veracidade de tudo o que recebe.
O impacto da desinformação sobre o voto
A entrevista abordou como a disseminação de informações falsas pode interferir na percepção que os eleitores têm dos candidatos e de suas propostas. Ao responder sobre o tema, Nadine chamou a atenção para as condições de vida de quem precisa trabalhar longas jornadas e dispõe de pouco tempo para verificar conteúdos que circulam nas redes sociais.
A jurista relacionou essa dificuldade à realidade dos trabalhadores submetidos à escala 6×1, que trabalham seis dias por semana e têm apenas um dia de descanso. Ela mencionou o desgaste físico e mental provocado por essa rotina e as consequências para a convivência familiar.
Como exemplo, citou mães que não conseguem acompanhar apresentações escolares dos filhos porque precisam trabalhar aos sábados.
Na avaliação de Nadine, a sobrecarga de trabalho reduz o tempo disponível para buscar fontes alternativas e investigar informações recebidas pelo celular. Quando uma notícia falsa chega apresentada como verdadeira, o cidadão pode ter dificuldade para reconhecer a manipulação.
A entrevistada ressaltou que a responsabilidade por esse cenário não deve ser atribuída exclusivamente aos indivíduos que recebem e compartilham conteúdos enganosos. Ela apontou a necessidade de examinar as condições sociais em que a informação circula e os mecanismos utilizados para ampliar sua distribuição.
“É muito difícil, Luiz, para quem recebe conseguir saber se aquilo é verdade ou não, porque aquilo tá manipulado, então aquilo é vendido como verdade”, afirmou.
O argumento reforça a importância de políticas públicas voltadas à educação e à formação crítica, capazes de ampliar as condições para que a população compreenda informações e avalie conteúdos políticos.
Educação pública como resposta estrutural
Nadine defendeu a educação como uma das principais ferramentas para enfrentar a desinformação. Durante a conversa, mencionou a proposta de ampliar o acesso à escola em tempo integral, com atividades educativas, esportivas e culturais.
Para a jurista, uma formação escolar mais abrangente pode contribuir para que crianças e jovens desenvolvam maior capacidade de análise e se tornem menos vulneráveis à circulação de notícias falsas.
A entrevistada relacionou a educação à possibilidade de ampliar o tempo disponível para a formação dos estudantes e melhorar as condições de participação das famílias na vida escolar. Em sua avaliação, a população precisa de oportunidades concretas para desenvolver habilidades de leitura crítica e verificação de informações.
Nadine também destacou que a rotina de trabalho influencia diretamente o acesso ao conhecimento. Muitas pessoas utilizam o celular durante deslocamentos entre a residência e o emprego, em intervalos curtos nos quais é difícil investigar a origem de uma notícia ou confrontar diferentes versões de um acontecimento.
Nesse cenário, a educação aparece na entrevista como uma política de longo prazo para fortalecer a autonomia dos cidadãos. O enfrentamento da desinformação, segundo a lógica apresentada pela jurista, depende tanto da responsabilização por práticas ilícitas quanto da ampliação das condições sociais para o exercício consciente da liberdade de expressão.
Inteligência artificial e responsabilidade das plataformas
A conversa também abordou a responsabilidade jurídica das empresas que controlam redes sociais e sistemas de distribuição de conteúdo. Luiz Regadas questionou como as plataformas devem responder quando seus algoritmos ampliam publicações que estimulam medo, indignação e polarização política.
A discussão incluiu a produção de vídeos e imagens manipulados por inteligência artificial, além das denúncias sobre mudanças na distribuição de conteúdos nas redes sociais. O programa também mencionou questionamentos relacionados à atuação de autoridades eleitorais e às decisões envolvendo canais de mobilização política.
Nadine defendeu a necessidade de preservar os princípios constitucionais e de avaliar as acusações com base em evidências. Para ela, a gravidade de uma denúncia não elimina a obrigação de investigar os fatos antes de atribuir responsabilidade criminal a qualquer pessoa.
A jurista destacou que a existência de acusações contra um agente público não significa, por si só, que ele seja culpado. Ao mesmo tempo, sustentou que decisões judiciais podem ser questionadas quando houver indícios de tratamento desigual ou de desrespeito à legislação.
Essa distinção foi central em sua resposta sobre a atuação de ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. Nadine afirmou que eventuais irregularidades devem ser apuradas, mas ponderou que a responsabilização precisa seguir os procedimentos legais.
Ao tratar do tema, a entrevistada também criticou a percepção generalizada de que todas as autoridades judiciais seriam corruptas. Segundo ela, a desconfiança nas instituições vem sendo alimentada há anos por discursos que defendem o fechamento ou a deslegitimação de tribunais.
Na avaliação de Nadine, a crítica a decisões judiciais é legítima, mas deve ser acompanhada de evidências e não pode servir como justificativa automática para desqualificar todo o sistema de Justiça.
A disputa pela credibilidade das instituições
A atuação do ministro Kassio Nunes Marques na Justiça Eleitoral foi outro ponto da entrevista. Luiz Regadas mencionou controvérsias envolvendo decisões sobre canais políticos e questionou os critérios aplicados a diferentes grupos durante a campanha.
Nadine afirmou que é necessário examinar os fundamentos das decisões e verificar se a legislação está sendo aplicada de maneira consistente. Ela também ressaltou que denúncias contra autoridades devem ser investigadas antes de qualquer conclusão sobre sua responsabilidade.
A jurista chamou a atenção para o risco de concentrar o debate público em acusações ainda não comprovadas, ao mesmo tempo que defendeu o exame crítico das decisões de agentes públicos.
A discussão alcançou a composição dos tribunais superiores e a influência das indicações políticas sobre o Judiciário. Nadine manifestou preocupação com a possibilidade de concentração de poder caso um mesmo grupo político passe a exercer influência predominante sobre os diferentes Poderes da República.
Para ela, a democracia depende da preservação de mecanismos institucionais que permitam fiscalizar o exercício do poder e garantir a aplicação das normas constitucionais. A independência judicial, nesse contexto, é uma condição importante para impedir que interesses partidários se sobreponham aos direitos dos cidadãos.
A entrevistada também defendeu uma discussão sobre a reforma do Judiciário e sobre os critérios de acesso às carreiras jurídicas. Ela relacionou a ampliação da diversidade social nas instituições à expansão do acesso à educação superior e às políticas de inclusão.
Constituição, direitos sociais e soberania nacional
Ao ampliar a discussão para o cenário político brasileiro, Nadine relacionou a disputa eleitoral à preservação dos direitos sociais e da soberania nacional. A jurista manifestou preocupação com o avanço de governos de ultradireita na América do Sul e com possíveis consequências para as políticas públicas e as garantias constitucionais.
Durante a entrevista, ela citou a Operação Condor, mecanismo de cooperação repressiva entre ditaduras sul-americanas, para lembrar os efeitos da perseguição política durante os regimes militares. Nadine ressaltou que a repressão atingiu não apenas lideranças políticas, mas também trabalhadores, professores e militares que se opuseram a práticas autoritárias.
A referência serviu de base para seu alerta sobre a importância de preservar as instituições democráticas e impedir a normalização de discursos que defendem a supressão de direitos.
Nadine também abordou a relação entre soberania nacional e políticas sociais. Ela citou o acesso a medicamentos por meio do programa Farmácia Popular e o funcionamento de hospitais federais como exemplos de serviços que afetam diretamente a vida da população.
A jurista argumentou que a discussão eleitoral precisa considerar as consequências concretas das propostas para quem depende dos serviços públicos, especialmente pessoas com doenças crônicas, crianças e idosos.
Ao falar sobre o programa de governo de Flávio Bolsonaro, afirmou não ter identificado compromissos específicos com a continuidade do Farmácia Popular no documento que consultou. A declaração foi apresentada como parte de sua crítica às propostas da candidatura e de sua preocupação com a manutenção de políticas de saúde.
A entrevistada também expressou receio de que uma mudança de orientação política comprometa a autonomia brasileira nas relações internacionais e a capacidade do país de definir suas próprias prioridades econômicas.
Esperança e participação democrática
No encerramento da entrevista, Nadine retomou a trajetória de resistência à ditadura militar e afirmou que a preservação da democracia depende também da participação das gerações atuais.
“Agora tá nas nossas mãos fazer aquilo que aquelas pessoas fizeram e muito mais”, declarou.
A jurista concluiu sua participação defendendo a importância de manter os direitos conquistados e de reconhecer as consequências das escolhas eleitorais para o funcionamento das instituições. Sua fala relacionou o combate à desinformação à necessidade de garantir acesso à informação, educação e condições para o exercício da cidadania.
A entrevista do Café com Democracia colocou em discussão um problema que vai além da circulação de notícias falsas: a capacidade de a sociedade avaliar informações em um ambiente marcado pela disputa política e pela velocidade das redes digitais. Ao tratar da liberdade de expressão, da responsabilidade das plataformas e da atuação das instituições, Nadine Borges defendeu que a democracia depende de cidadãos capazes de formar suas opiniões com acesso a informações verificáveis e de instituições submetidas às regras constitucionais.
Assista à entrevista completa:
📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
👥 Torne-se membro do nosso canal no YouTube: https://www.youtube.com/tvatitudepopular/join
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O





