“Se a religião já não paga imposto, não pode ser dona de banco”

Sociólogo Osmar de Sá Ponte Jr. analisa investigação da Polícia Federal contra banco ligado ao grupo de Edir Macedo e defende mudanças na legislação para evitar conflitos entre atividade religiosa, política e financeira

A investigação da Polícia Federal sobre operações financeiras envolvendo o banco Digimais, controlado pelo grupo do bispo Edir Macedo, foi o tema do programa Democracia no Ar. A entrevista, conduzida por Sara Goes, recebeu o sociólogo e cientista político Osmar de Sá Ponte Jr., que analisou os possíveis desdobramentos jurídicos, econômicos e políticos do caso. A apuração tem como foco suspeitas de gestão fraudulenta e irregularidades financeiras envolvendo a instituição bancária.

Durante o programa, Osmar avaliou que as investigações representam um teste importante para a credibilidade do sistema financeiro brasileiro e para os mecanismos de fiscalização exercidos pelo Banco Central e pelos órgãos de controle. Para ele, o caso também recoloca em discussão os limites entre atividade religiosa, atuação político-partidária e exploração de negócios privados.

Segundo o professor, o sistema financeiro nacional possui mecanismos rigorosos de monitoramento capazes de identificar movimentações consideradas incompatíveis com as regras do mercado.

“O sistema financeiro brasileiro é altamente controlado. Se não existir funcionário corrupto, ele detecta movimentações atípicas e suspeitas de fraude.”

Na avaliação do sociólogo, caso as suspeitas sejam confirmadas, o episódio poderá revelar um modelo semelhante ao investigado em outras instituições financeiras que recentemente passaram pelo escrutínio das autoridades.

Ele destacou que crimes de gestão fraudulenta possuem elevado potencial de comprometer não apenas uma empresa, mas a estabilidade do sistema financeiro como um todo.

“O que está em jogo não é apenas o interesse privado do lucro. Está em jogo a estabilidade de um sistema que precisa transmitir previsibilidade e confiança.”

Relação entre religião, bancos e política

Boa parte da entrevista concentrou-se na estrutura empresarial construída em torno da Igreja Universal do Reino de Deus e das organizações ligadas ao grupo de Edir Macedo.

Para Osmar, a concentração simultânea de liderança religiosa, controle partidário e atuação no sistema financeiro cria uma situação que merece revisão legislativa.

“Se a religião já não paga imposto, não pode ser dona de banco.”

O cientista político argumentou que igrejas recebem imunidade tributária justamente por exercerem atividades religiosas. Na sua avaliação, permitir que essas mesmas estruturas atuem em setores altamente lucrativos produz uma concorrência desigual.

Segundo ele, esse debate ultrapassa questões ideológicas e diz respeito ao próprio funcionamento do mercado.

“Você tem uma igreja isenta de impostos que também controla uma empresa voltada ao lucro. Isso cria um desequilíbrio que a legislação precisa enfrentar.”

A influência política das grandes igrejas

Durante a conversa, também foi debatida a crescente influência política de grandes organizações religiosas.

Osmar observou que a participação de grupos religiosos na vida pública não constitui, por si só, um problema democrático. Entretanto, considera preocupante quando instituições religiosas passam a exercer influência direta sobre partidos, bancos e estruturas econômicas.

Para ele, esse acúmulo de funções favorece conflitos de interesse e dificulta mecanismos de fiscalização.

“Quando você instrumentaliza a religião para objetivos partidários e econômicos, mistura fé, poder político e interesses financeiros de uma maneira muito perigosa.”

Sistema financeiro e credibilidade institucional

Outro ponto abordado foi o impacto dessas investigações sobre a imagem do sistema financeiro brasileiro.

Segundo Osmar, apesar da gravidade das suspeitas, o fato de órgãos de controle estarem atuando demonstra que as instituições permanecem funcionando.

“A crise mostra justamente que existem mecanismos capazes de detectar irregularidades e proteger o sistema financeiro nacional.”

Na avaliação do professor, preservar a confiança nas instituições financeiras é essencial para manter investimentos, estabilidade econômica e previsibilidade para empresas e investidores.

Avanço da extrema direita na América Latina

O programa também discutiu o cenário político internacional após a confirmação da vitória de Keiko Fujimori na eleição presidencial do Peru.

Para Osmar, os Estados Unidos tendem a ampliar sua influência política sobre a América Latina, especialmente diante da reorganização geopolítica promovida pelos BRICS.

Segundo ele, governos alinhados à extrema direita podem ampliar tensões regionais e fortalecer estratégias de pressão sobre países como o Brasil.

Ele afirmou que a política externa do presidente norte-americano Donald Trump representa uma lógica de enfrentamento permanente.

“O Brasil entrou na mira americana. Não existe mais espaço para neutralidade. Ou você está do lado deles ou será tratado como adversário.”

Crise das democracias

Ao longo da entrevista, o sociólogo também analisou o crescimento da extrema direita em diferentes países e apontou dificuldades enfrentadas pelos partidos progressistas.

Segundo ele, existe uma crise de representação política que ultrapassa governos específicos e alcança mudanças profundas na sociedade contemporânea.

O professor defendeu que setores democráticos precisam construir novas narrativas capazes de dialogar com as transformações sociais.

“O maior problema hoje é a incapacidade de produzir um projeto que alimente esperança no presente e ofereça perspectiva para o futuro.”

Na avaliação de Osmar, esse vazio político acaba sendo ocupado por discursos autoritários que prometem soluções simples para problemas complexos.

Instituições sob pressão

Outro tema debatido foi o papel das instituições democráticas diante do avanço de discursos que buscam desacreditá-las.

Para o cientista político, críticas são legítimas, mas não devem servir para enfraquecer o próprio Estado democrático.

Ele defendeu que investigações, julgamentos e aperfeiçoamentos legais devem fortalecer as instituições, e não abrir espaço para projetos autoritários.

“O fascismo prospera quando consegue destruir a confiança nas instituições. A resposta deve ser aperfeiçoá-las, nunca abandoná-las.”

Ao comentar o caso envolvendo o banco ligado ao grupo de Edir Macedo, Osmar afirmou esperar que as investigações resultem em mudanças legislativas capazes de estabelecer regras mais claras sobre a relação entre organizações religiosas, atividade empresarial e sistema financeiro.


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