Da Redação
Lideranças e diplomatas de países do Sul Global reagiram às propostas controversas feitas no Fórum de Davos pelo presidente dos EUA, Donald Trump, reafirmando o compromisso com o multilateralismo tradicional, com a reforma de instituições internacionais e com a defesa de uma ordem global mais justa e representativa.
Após o encerramento do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, uma série de reações políticas e diplomáticas começou a ganhar corpo entre países do chamado Sul Global — termo usado para descrever nações da África, Ásia, América Latina e parte do Caribe e do Pacífico que historicamente reivindicam maior voz e participação nas instâncias internacionais. As movimentações seguem em resposta a declarações e propostas controversas feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entre elas a criação de um organismo denominado Conselho da Paz, lançado no evento e visto por muitos como uma tentativa de construir uma entidade paralela às instituições multilaterais existentes, em especial à Organização das Nações Unidas (ONU).
Para representantes e chanceleres de nações do Sul Global, a abordagem de Trump — que coloca um forte protagonismo norte-americano à frente de um novo conselho com potencial para rivalizar com estruturas como o Conselho de Segurança da ONU — suscitou apreensão sobre os riscos de fragmentação do sistema multilateral tradicional, que tem como base a cooperação entre Estados soberanos e instituições fundadas após a Segunda Guerra Mundial.
Em declarações públicas e em fóruns regionais, líderes de países africanos, latino-americanos e asiáticos ressaltaram que qualquer iniciativa que pretenda discutir paz mundial ou segurança coletiva deve ocorrer dentro de estruturas amplamente legitimadas por um grande número de Estados, como a ONU, e não por um grupo restrito sob liderança hegemônica de um único país. Essa posição foi reafirmada em encontros de ministros de Relações Exteriores e em eventos paralelos ao Fórum de Davos, onde autoridades destacaram que a soberania dos Estados, o respeito às normas internacionais e o papel de instituições multilaterais tradicionais são pilares irrenunciáveis da ordem internacional.
Além de críticas diretas ao formato da proposta surgida em Davos, diplomatas do Sul Global vêm articulando nos últimos meses esforços para ampliar a cooperação regional e reforçar blocos como o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), além de outras plataformas de diálogo como o G77+China, a União Africana e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). Essas iniciativas buscam consolidar um entendimento comum sobre a necessidade de reformar — e não suplantar — o sistema multilateral instituído, tornando-o mais representativo e sensível às realidades de países de média e baixa renda.
Em debates entre chanceleres, foi frequentemente lembrado que o sistema multilateral enfrenta desafios estruturais, incluindo a composição do Conselho de Segurança da ONU e a necessidade de dar voz a países em desenvolvimento que hoje não são membros permanentes com poder de veto. Essa discussão ganhou força em meio à polarização global e às tensões entre grandes potências, destacando a urgência de reformas que reflitam melhor a distribuição de poder e interesses no mundo contemporâneo.
A reação do Sul Global também incorporou críticas ao que muitos veem como um retorno de ênfases unilaterais na política externa de Estados Unidos, cujo discurso e ações em Davos foram interpretados por algumas delegações como uma tentativa de reforçar hegemonia em temas de paz e segurança sem considerar plenamente os mecanismos multilateralmente acordados. Para esses países, soluções duradouras para conflitos — como os relativos ao Oriente Médio, à África e às tensões fronteiriças na Ásia — não podem ser construídas por meio de iniciativas unilaterais ou fóruns exclusivos, mas sim por meio de acordos que contem com a participação ampla de todos os atores afetados.
A posição do Sul Global também reflete uma crítica mais ampla a narrativas de segurança global centradas na lógica da Guerra Fria ou de competição exclusivamente entre potências hegemônicas, defendendo que a cooperação internacional deve ir além de dicotomias geopolíticas e integrar temas transnacionais como combate à pobreza, mudanças climáticas, migrações forçadas, pandemia e desigualdades econômicas — questões que impactam diretamente milhões de pessoas nos países em desenvolvimento.
Em resposta ao que consideram “devaneios” ou tentativas de redesenhar a governança global sem a devida participação de todas as regiões, articuladores diplomáticos do Sul Global têm intensificado consultas internas regionais e trocas de posições com países europeus, latino-americanos, africanos e asiáticos que compartilham valores semelhantes de cooperação multilateral ampliada. O objetivo declarado é apresentar não apenas uma crítica construtiva, mas propostas concretas para reforçar o papel da ONU e de outras instituições multilaterais, assegurando que elas continuem sendo fóruns legítimos para a negociação e solução de conflitos.
No mesmo contexto, alguns países do Sul Global chegaram a propor a realização de cúpulas próprias com foco em temas como reforma do Conselho de Segurança, promoção de economia sustentável, tecnologia para desenvolvimento e direitos humanos, buscando consolidar agendas comuns e fortalecer vozes que consideram subrepresentadas nas instâncias globais dominadas, historicamente, por países do Norte Global.
Essas movimentações refletem não apenas uma oposição pontual a propostas específicas vindas de líderes como Trump, mas uma tendência mais profunda de países do Sul — no conjunto — buscarem maior influência nas decisões que moldam a política internacional, especialmente quando se trata de segurança, paz e governança global. Para esses governos, qualquer tentativa de criar estruturas paralelas sem amplo respaldo internacional pode aprofundar divisões e enfraquecer as instituições que historicamente serviram como canal de diálogo entre nações com interesses e perspectivas diversos.
Em suma, a reação do Sul Global ao que foi visto como propostas controversas durante o Fórum de Davos constitui um reagrupamento diplomático em torno do multilateralismo tradicional, reforçando a importância de instituições existentes, defendendo reformas que promovam maior representatividade e criticando abordagens que possam concentrar poder de decisão em poucos atores — em detrimento de soluções coletivas e legitimadas por ampla adesão internacional.


