Em entrevista ao Democracia no Ar, Reudson de Sousa relaciona mudanças climáticas, gestão das águas e desenvolvimento sustentável, defende projetos estratégicos para o estado e afirma que a prioridade da legislação é garantir água para o consumo humano
As mudanças climáticas já alteram o regime de chuvas, pressionam os recursos hídricos e ampliam os desafios para o abastecimento de milhões de pessoas. Para discutir esse cenário e o papel da gestão das águas no Ceará, o programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, recebeu o secretário do Comitê de Bacias da Região Metropolitana de Fortaleza, Reudson de Sousa. Durante a entrevista, ele explicou como funciona o sistema de gestão dos recursos hídricos no estado, abordou os impactos das mudanças climáticas, comentou projetos estratégicos como a dessalinização da água do mar e ressaltou a importância da participação social nas decisões sobre o uso da água.
Ao longo da conversa, Reudson destacou que a crise climática deixou de ser uma preocupação futura para se tornar um problema concreto, com reflexos diretos sobre o abastecimento, a produção agrícola, a biodiversidade e a economia. Segundo ele, o aumento da temperatura média do planeta modifica o ciclo natural das chuvas e torna os eventos extremos cada vez mais frequentes.
“O planeta está aquecendo e o impacto é muito grande na questão das chuvas.”
Ele observou que o problema resulta de um conjunto de fatores, entre eles a dependência mundial de combustíveis fósseis, o desmatamento, a expansão de atividades econômicas sem planejamento ambiental, o aumento da produção de resíduos, a falta de saneamento e os padrões atuais de consumo.
“O carvão, o petróleo e o gás têm trazido muitas consequências para o planeta. Tudo isso impacta a gestão dos recursos hídricos, impacta o meio ambiente e interfere diretamente no ciclo das águas”, afirmou.
A gestão da água no semiárido
Reudson explicou que a realidade do Ceará exige um modelo permanente de planejamento, já que o estado está inserido no semiárido brasileiro, onde o período chuvoso costuma durar apenas alguns meses por ano.
Nesse contexto, os grandes reservatórios cumprem papel essencial para garantir o abastecimento durante o restante do ano. Entre eles estão os açudes Orós e Castanhão, responsáveis por armazenar água suficiente para atender diferentes regiões do estado.
Segundo o secretário, a gestão dos recursos hídricos ocorre por meio de um sistema integrado composto pelo Conselho Estadual de Recursos Hídricos, pela Secretaria dos Recursos Hídricos, por órgãos como Cogerh, Funceme e Sohidra e pelos 12 Comitês de Bacias existentes no Ceará.
O Comitê da Região Metropolitana de Fortaleza, criado em 2004, reúne representantes do poder público, da sociedade civil e dos usuários da água para deliberar sobre a distribuição dos recursos hídricos em uma área que concentra mais de três milhões de habitantes.
Fortaleza depende da água do interior
Embora esteja localizada no litoral, Fortaleza não possui reservatórios suficientes para sustentar seu consumo ao longo do ano apenas com a água captada na própria região.
Reudson explicou que, quando as chuvas não são suficientes para abastecer os açudes metropolitanos, torna-se necessário transferir água armazenada em reservatórios do interior do estado.
Segundo ele, o abastecimento da capital depende diretamente de uma complexa operação envolvendo os açudes Orós, Castanhão e outros reservatórios estratégicos.
“O maior consumidor de água do Ceará é a Região Metropolitana de Fortaleza”, afirmou.
Esse processo exige negociações constantes entre diferentes Comitês de Bacias, já que a água também atende agricultura, pecuária, indústria, piscicultura e outras atividades econômicas.
A prioridade é o consumo humano
Durante a entrevista, Reudson lembrou que a Política Nacional de Recursos Hídricos estabelece uma ordem clara para o uso da água em períodos de escassez.
“A prioridade é o consumo humano e a dessedentação dos animais.”
Ele explicou que, quando os reservatórios entram em situação crítica, decisões difíceis precisam ser tomadas para garantir o abastecimento da população, mesmo que isso reduza temporariamente a disponibilidade para outros setores produtivos.
Segundo o secretário, essas decisões são tomadas de forma participativa, respeitando critérios técnicos e a legislação vigente.
A importância da participação social
Outro ponto destacado foi o funcionamento democrático dos Comitês de Bacias.
As decisões sobre alocação de água, prioridades de uso e operação dos reservatórios são discutidas por representantes de diversos segmentos da sociedade.
Participam desse processo associações comunitárias, sindicatos, organizações ambientais, prefeituras, órgãos estaduais, usuários da água e representantes dos setores produtivos.
Para Reudson, esse modelo fortalece a transparência e reduz conflitos.
“A gente procura deliberar sempre dentro da melhor orientação técnica e respeitando o marco legal das águas.”
Mudanças climáticas tornam o planejamento ainda mais necessário
Ao comentar os efeitos das mudanças climáticas, o secretário observou que o Ceará vive hoje uma realidade de maior imprevisibilidade.
Períodos de seca prolongada alternam-se com episódios de chuvas intensas e concentradas, exigindo monitoramento permanente dos reservatórios.
Ele lembrou que entre 2012 e 2018 o estado enfrentou uma das mais severas sequências de estiagens da história recente, situação que levou o Castanhão a atingir níveis extremamente baixos.
Segundo Reudson, esse tipo de cenário reforça a necessidade de preservar nascentes, proteger matas ciliares, ampliar o saneamento e estimular o uso racional da água.
Dessalinização e novos desafios
Questionado sobre o projeto de dessalinização da água do mar previsto para Fortaleza, Reudson reconheceu que iniciativas desse porte naturalmente despertam debates ambientais.
Ainda assim, afirmou que diversos países já utilizam essa tecnologia para ampliar a oferta de água potável.
Segundo ele, o objetivo é transformar água do mar em água própria para consumo humano, aumentando a segurança hídrica da Região Metropolitana.
“O futuro pode fazer com que Fortaleza utilize muito mais água do mar para o consumo humano.”
Data centers e desenvolvimento
Outro tema discutido foi a instalação de grandes data centers no Ceará.
Reudson afirmou que há muitas informações equivocadas sobre o consumo de água desses empreendimentos e destacou que boa parte das discussões tem sido acompanhada pelos Comitês de Bacias.
Na avaliação do secretário, o Ceará reúne condições estratégicas para receber novos investimentos graças ao potencial de geração de energia renovável, à localização geográfica e à infraestrutura logística.
Ele defendeu que esse desenvolvimento ocorra acompanhado de planejamento ambiental, transparência e participação social.
Educação ambiental
O comentarista Antônio Ibiapino também participou da entrevista e chamou atenção para a necessidade de ampliar a educação ambiental, especialmente em relação ao uso consciente da água.
Ele argumentou que pequenas mudanças de comportamento, quando multiplicadas por milhões de pessoas, contribuem para reduzir desperdícios e fortalecer a segurança hídrica.
Ao longo da conversa, ambos destacaram que enfrentar as mudanças climáticas exige tanto investimentos públicos quanto participação ativa da sociedade na preservação dos recursos naturais.
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