Contrato do escritório do ex-presidente previa R$ 10 milhões em honorários iniciais e outros R$ 20 milhões condicionados à aprovação do Banco Central; diálogos mostram cobranças de pagamentos, contatos com o banqueiro e articulação de reuniões em Dubai
Da Redação
Chamada: Documentos revelados por O Globo mostram que o escritório de Michel Temer firmou um contrato milionário com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, para atuar na tentativa de venda da instituição ao Banco de Brasília. A operação acabou vetada pelo Banco Central, mas mensagens recuperadas do celular do banqueiro indicam cobranças de pagamentos, negociações diretas com o ex-presidente e articulações internacionais realizadas nas semanas anteriores à liquidação do banco.
Um contrato assinado em 3 de setembro de 2025 estabeleceu que o escritório de advocacia do ex-presidente Michel Temer poderia receber até R$ 30 milhões do Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, para atuar na tentativa de viabilizar a venda da instituição financeira ao Banco de Brasília (BRB). O documento previa R$ 10 milhões em honorários iniciais, divididos em duas parcelas de R$ 5 milhões, além de R$ 20 milhões condicionados à conclusão da operação e à autorização do Banco Central. A contratação foi revelada nesta quarta-feira, 14 de outubro, pelo jornal O Globo, com base em documentos e mensagens extraídos do celular de Vorcaro, e acrescenta novos elementos às investigações sobre as relações entre o banco, escritórios de advocacia e personagens influentes da política brasileira.
A operação que daria origem à maior parcela dos honorários nunca foi concluída. O Banco Central rejeitou a aquisição do Master pelo BRB, encerrando a possibilidade de concretização do negócio nas condições negociadas. Isso não eliminou, entretanto, as cobranças relacionadas aos pagamentos iniciais. Conversas entre Vorcaro e o publicitário Elsinho Mouco, interlocutor próximo de Michel Temer, mostram tentativas sucessivas de obter a transferência dos recursos previstos no contrato, mesmo depois da decisão da autoridade monetária.
O conteúdo dos registros revela uma relação que ultrapassava a apresentação formal de serviços jurídicos. As mensagens documentam contatos diretos entre o ex-presidente e Vorcaro, discussões sobre pagamentos e a organização de encontros internacionais. Também mostram que o escritório contratado pretendia atuar em questões jurídicas e regulatórias relacionadas à decisão do Banco Central, incluindo procedimentos no Tribunal de Contas da União (TCU) e iniciativas de mediação com órgãos públicos.
A existência do contrato não comprova que Temer tenha participado das fraudes investigadas no Banco Master, nem que tenha exercido influência irregular sobre autoridades. Os registros divulgados, contudo, tornam pública a dimensão financeira dos serviços negociados e a natureza das iniciativas previstas para tentar superar obstáculos à aquisição do banco privado por uma instituição controlada pelo poder público.
O acordo foi firmado em um momento particularmente delicado para o Banco Master. A instituição enfrentava questionamentos sobre sua situação financeira e buscava uma solução que envolvia a transferência de suas operações ao BRB, banco público controlado pelo governo do Distrito Federal. A conclusão da transação dependia de autorização regulatória, e a análise do Banco Central se tornou um dos principais obstáculos ao negócio.
A cláusula de êxito estabelecida no contrato criava uma vinculação direta entre a conclusão da venda e o recebimento da maior parte dos honorários. Os R$ 20 milhões adicionais seriam devidos depois que a operação recebesse autorização do Banco Central e fosse formalmente concluída. Como a aquisição foi rejeitada, não se concretizou a condição prevista para esse pagamento.
Os outros R$ 10 milhões tinham natureza diferente. A primeira parcela de R$ 5 milhões estava prevista para a assinatura do contrato, enquanto a segunda seria devida 30 dias depois. As mensagens recuperadas do celular de Vorcaro mostram que Elsinho Mouco passou a acompanhar a liberação desses recursos desde o início de setembro.
Em 4 de setembro, um dia depois da assinatura do acordo, o publicitário procurou o banqueiro para solicitar o comprovante de transferência assim que o pagamento fosse realizado. Em contatos posteriores, voltou a perguntar sobre a situação dos honorários. Em uma dessas ocasiões, Vorcaro informou que estava no Banco Central e que só poderia conversar mais tarde. A cobrança continuou nas semanas seguintes, mesmo depois de frustrada a aquisição do Master pelo BRB.
No fim de outubro, o banqueiro relatou dificuldades para administrar a situação da instituição. Em novembro, afirmou que tentaria realizar uma transferência, mas mencionou os problemas financeiros enfrentados pelo banco. Em 7 de novembro, Elsinho voltou a solicitar providências, afirmando que havia compromissos pendentes no escritório e que o pagamento estava atrasado.
Quatro dias depois, em 11 de novembro, o publicitário informou que metade do valor havia entrado. O registro sugere a realização de ao menos um pagamento, mas não esclarece, isoladamente, a qual obrigação se referia a transferência nem permite comprovar o montante total efetivamente recebido pelo escritório. Também não há, na documentação divulgada até agora, confirmação do pagamento integral dos R$ 10 milhões iniciais.
Atuação jurídica previa questionamentos ao Banco Central
O contrato do escritório de Temer contemplava uma série de providências relacionadas à situação regulatória do Banco Master. Entre elas estavam o acompanhamento de uma ação judicial envolvendo o Banco Central, a atuação em representação apresentada ao Tribunal de Contas da União e a busca de mediação junto a órgãos competentes.
O documento também fazia referência ao diretor Renato Lemos, cuja atuação na análise da operação era contestada pelo Master. A instituição atribuía ao dirigente parte das dificuldades enfrentadas na tentativa de aprovação do negócio e considerava suas decisões prejudiciais à negociação.
A contratação de advogados para representar uma empresa perante órgãos reguladores e tribunais é uma atividade juridicamente permitida. Honorários condicionados ao resultado de uma demanda também podem integrar contratos profissionais, respeitadas as normas aplicáveis. A relevância do caso decorre das circunstâncias específicas da negociação: um ex-presidente da República, com ampla experiência institucional e relações construídas ao longo de sua trajetória política, foi contratado para atuar em uma operação financeira de grande porte que dependia da aprovação de uma autoridade pública.
A distinção entre representação jurídica regular e eventual interferência indevida depende das atividades efetivamente realizadas, dos contatos estabelecidos e da existência de provas de condutas incompatíveis com a legislação. O valor contratado, mesmo elevado, não constitui demonstração automática de irregularidade. Da mesma forma, a existência de contatos com agentes públicos precisa ser examinada à luz de seu conteúdo e de suas finalidades.
As mensagens divulgadas não esclarecem integralmente quais serviços foram executados pelo escritório, quais documentos jurídicos foram produzidos ou se houve reuniões com integrantes do Banco Central relacionadas ao contrato. Esses elementos são relevantes para compreender a extensão da atuação profissional e sua relação com as decisões administrativas tomadas durante o processo.
O Banco Central acabou rejeitando a operação entre Master e BRB. Posteriormente, em novembro de 2025, decretou a liquidação extrajudicial de instituições do conglomerado Master, apontando grave crise de liquidez, comprometimento de sua situação econômico-financeira e violações das normas aplicáveis ao sistema financeiro. A autoridade monetária também informou ter identificado inconsistências em carteiras de crédito negociadas entre o Master e o BRB, encaminhando elementos às autoridades responsáveis pela investigação de possíveis ilícitos.
Esse contexto ajuda a dimensionar a importância das negociações frustradas. O BRB é uma instituição financeira pública e, por isso, operações capazes de comprometer seus recursos, sua estrutura patrimonial ou sua exposição a riscos possuem consequências que ultrapassam os interesses comerciais dos acionistas privados envolvidos.
A análise das responsabilidades relacionadas às operações entre os dois bancos, entretanto, constitui uma questão distinta da contratação do escritório de Temer. Para estabelecer eventual conexão entre as irregularidades investigadas e os serviços jurídicos contratados, seriam necessárias provas específicas sobre a participação de pessoas, pagamentos e atos realizados no processo de negociação.
Mensagens mostram contatos diretos entre Temer e Vorcaro
Os registros obtidos por O Globo indicam que o relacionamento entre o ex-presidente e o controlador do Master não se limitava à atuação de Elsinho Mouco. Dois dias depois de o contrato ter sido encaminhado ao banqueiro, Temer enviou uma mensagem pedindo que Vorcaro entrasse em contato. Na mesma data, os dois conversaram por telefone durante dois minutos e 16 segundos.
Outras ligações foram registradas nos dias 9, 10 e 17 de setembro de 2025, período que coincidiu com as tentativas de superar os obstáculos regulatórios à aquisição do banco pelo BRB. As informações comprovam a existência de comunicação direta, mas não revelam o conteúdo das conversas telefônicas.
A documentação também apresenta referências a uma viagem aos Emirados Árabes Unidos organizada semanas depois. Em 22 de outubro, Temer informou a Vorcaro que preparava uma agenda em Dubai para o início de novembro. Em mensagens posteriores, tratou dos horários de chegada e da possibilidade de reunir o banqueiro com interlocutores locais.
No dia 4 de novembro, o ex-presidente mencionou a organização de encontros com representantes de Dubai e do Iraque, previstos para ocorrer em sequência em um hotel da cidade. Os registros revelam uma participação ativa de Temer na articulação da agenda internacional, embora não permitam estabelecer quem eram todos os interlocutores, quais propostas foram apresentadas ou se os encontros produziram algum resultado financeiro.
A organização dessas reuniões ocorreu quando a tentativa de venda ao BRB já havia sido frustrada e o Banco Master enfrentava dificuldades crescentes. A instituição buscava alternativas para sua continuidade, enquanto Vorcaro mantinha contatos com empresários e potenciais interessados em operações financeiras.
Poucas semanas depois, em 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava embarcar para Dubai. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado Master. Os fatos fazem parte da cronologia da crise, mas a coincidência do destino da viagem com a cidade mencionada nas mensagens não demonstra, por si só, relação entre os encontros organizados por Temer e as condutas investigadas que levaram à prisão.
As autoridades passaram a examinar operações financeiras e movimentações de recursos associadas ao banco, incluindo carteiras de crédito negociadas com o BRB. As investigações ganharam alcance institucional à medida que documentos e aparelhos eletrônicos apreendidos revelaram contatos do banqueiro com empresários, políticos, advogados e integrantes do Judiciário.
Relação começou com projeto de documentário sobre ex-presidente
O histórico de mensagens mostra que os contatos entre Michel Temer e Daniel Vorcaro antecedem a crise final do Banco Master. Em outubro de 2023, o banqueiro procurou o ex-presidente, apresentou-se como representante da instituição financeira e solicitou que seu número fosse registrado. Temer respondeu à mensagem e posteriormente indicou Elsinho Mouco para dar continuidade às conversas.
O assunto inicial estava relacionado a um projeto de documentário sobre a trajetória política do ex-presidente. A produção, intitulada 963 Dias, teve orçamento informado de R$ 12 milhões e buscou patrocinadores privados. Segundo a reportagem de O Globo, o fundo Moriah Asset, ligado à família Vorcaro, adquiriu uma cota de patrocínio de R$ 1 milhão em 2023.
A participação no financiamento do projeto constitui um elemento relevante para reconstruir a origem do relacionamento entre o banqueiro e os interlocutores de Temer. O patrocínio, contudo, não comprova que tenha existido contrapartida irregular nem que a contratação posterior do escritório estivesse condicionada ao apoio à produção audiovisual.
O intervalo de aproximadamente dois anos entre o primeiro contato e o contrato para a operação Master–BRB mostra que as relações foram mantidas antes da tentativa de venda do banco. A presença de Elsinho Mouco em ambos os momentos também evidencia seu papel como interlocutor recorrente entre o ex-presidente e o empresário.
A documentação divulgada até agora não permite identificar a totalidade dos encontros realizados nesse período ou das atividades desenvolvidas pelos participantes. Ainda assim, a sequência de mensagens apresenta uma cronologia que envolve patrocínio cultural, contatos pessoais, contratação de serviços jurídicos e articulações empresariais internacionais.
Esses fatos ganharam relevância pública porque o Banco Master passou a ser investigado por irregularidades financeiras de grande dimensão. A reconstrução de suas relações com pessoas que exerceram cargos de destaque na República tornou-se uma das frentes de acompanhamento jornalístico do caso.
A proximidade entre agentes privados e autoridades ou ex-autoridades é uma realidade presente em atividades empresariais e jurídicas. O ponto que exige atenção institucional surge quando essas relações envolvem interesses submetidos a decisões do Estado, especialmente em setores regulados e operações com participação de instituições públicas.
Nesse cenário, a transparência sobre contratos, pagamentos e serviços prestados contribui para esclarecer se os vínculos permaneceram no âmbito profissional ou se ultrapassaram os limites legalmente permitidos.
Contrato acrescenta nova dimensão às investigações do Master
A revelação dos honorários negociados pelo escritório de Michel Temer amplia o conhecimento público sobre a estratégia adotada pelo Banco Master para tentar concluir sua venda ao BRB. O contrato demonstra que o banco estava disposto a desembolsar valores expressivos para obter assistência jurídica e regulatória em uma negociação da qual dependia parte de sua reorganização financeira.
Os R$ 30 milhões previstos não devem, entretanto, ser tratados como valor comprovadamente recebido pelo ex-presidente. A maior parcela, de R$ 20 milhões, dependia de uma condição que não se realizou. Os R$ 10 milhões iniciais foram objeto de cobranças documentadas, mas a extensão dos pagamentos permanece sem esclarecimento completo nos registros apresentados.
Também não há demonstração de que Temer tenha interferido ilegalmente na análise conduzida pelo Banco Central ou participado das operações financeiras suspeitas realizadas pelo Master. A avaliação de eventuais responsabilidades depende de elementos que vão além da existência do contrato e das mensagens divulgadas.
Segundo O Globo, Michel Temer e Elsinho Mouco foram procurados para comentar as informações e não haviam respondido até a publicação da reportagem. A ausência de manifestação não permite presumir reconhecimento das alegações ou irregularidades.
O conjunto documental, por outro lado, apresenta questões objetivas que poderão ser esclarecidas por informações adicionais: quais atividades foram efetivamente realizadas pelo escritório, quais pagamentos foram recebidos, qual era a finalidade dos encontros internacionais e de que maneira os serviços contratados se relacionavam às tentativas de aprovação da operação pelo Banco Central.
A liquidação do Master e as investigações sobre suas relações com o BRB também colocaram em evidência os mecanismos de fiscalização do sistema financeiro e o papel de diferentes agentes na negociação de instituições submetidas a dificuldades econômicas. A identificação dos responsáveis por eventuais fraudes exige examinar operações, contratos, documentos contábeis e decisões administrativas individualmente, sem confundir vínculos comerciais com participação criminosa.
No caso de Michel Temer, os registros divulgados nesta quarta-feira estabelecem a existência de uma contratação milionária e de contatos diretos com Daniel Vorcaro durante um período decisivo para o Banco Master. A conclusão da venda ao BRB, que permitiria o pagamento dos honorários de êxito, não ocorreu. Permanecem sem confirmação pública integral os valores efetivamente recebidos e a extensão dos serviços prestados.
A documentação acrescenta, assim, uma nova dimensão à reconstrução da crise do Banco Master: além das operações financeiras sob investigação, revela o investimento do banco em serviços profissionais destinados a enfrentar obstáculos jurídicos e regulatórios. O esclarecimento desses vínculos dependerá da análise dos





