Atitude Popular

“Temos o dinheiro necessário, só que está nas mãos erradas”

Em análise no programa Trilhas da Soberania, Ladislau Dowbor afirma que o problema central do mundo não é a falta de riqueza, mas a captura da economia global por estruturas financeiras, militares e informacionais sem controle democrático

A edição mais recente do programa Trilhas da Soberania, realizada em parceria entre a TV Código Aberto, a Rede Lawfare Nunca Mais, a Rádio TV Atitude Popular e a Rede pela Soberania, colocou no centro do debate um dos temas mais urgentes do cenário contemporâneo: a economia em tempos de guerra. O economista Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP e referência no estudo das desigualdades, da financeirização e da reorganização do poder global, foi o convidado principal da transmissão, conduzida por Heitor Aragón, com comentários da advogada Ludmila Cindra e do pesquisador Reynaldo Aragon.

Ao longo da conversa, Dowbor apresentou uma leitura ampla sobre a escalada dos conflitos internacionais, a deterioração dos mecanismos de governança global e a forma como guerras abertas, guerras híbridas, disputas por recursos e operações econômicas se articulam num mesmo processo de desorganização planetária. Para ele, o pano de fundo do atual momento histórico é um sistema mundial cada vez mais concentrado, desregulado e incapaz de responder às necessidades humanas mais básicas.

Logo no início, o economista situou o debate para além da análise conjuntural da guerra no Oriente Médio e da tensão entre as potências. “O problema central é de governança”, afirmou. Na avaliação dele, a economia, o dinheiro, a comunicação e os sistemas de manipulação já operam em escala global e em velocidade instantânea, enquanto as instituições políticas permanecem presas a uma lógica de outra época, incapazes de impor limites ao poder financeiro e militar.

Dowbor descreveu o presente como uma travessia perigosa, em que a humanidade se vê diante de um sistema “absolutamente irresponsável e dramático”. Ao lembrar a destruição de Gaza, a permanência de guerras e ameaças abertas contra povos e civilizações inteiras, ele apontou que o século XXI convive com níveis de barbárie incompatíveis com qualquer noção de avanço civilizatório. “No plano global não há mais regras do jogo”, resumiu, recuperando o diagnóstico de líderes europeus para reforçar que o mundo vive um vazio de comando político diante de forças cada vez mais concentradas.

Um dos eixos mais fortes de sua fala foi a desigualdade global. Segundo ele, os 15% mais ricos da população do planeta concentram uma fatia desproporcional da renda e da riqueza, enquanto a maioria da humanidade permanece do lado de fora da “farra” do enriquecimento. Para demonstrar o tamanho da distorção, Dowbor recorreu a dados internacionais e sustentou que o mundo já produz bens e serviços em volume suficiente para garantir uma vida digna para todos. O impasse, insistiu, não é produtivo, mas distributivo e político.

“Temos produto suficiente. O que a gente produz de alimento no mundo dá para 12 a 14 bilhões de pessoas. Nós somos 8 bilhões”, disse. Em outro momento, reforçou a mesma ideia com uma síntese direta: “O problema não é econômico, é de organização político-social”.

Essa formulação serviu de base para uma crítica profunda ao discurso da escassez, frequentemente mobilizado para justificar austeridade, corte de direitos e compressão do gasto social. Para Dowbor, a insistência em apresentar direitos como custo e políticas públicas como ameaça ao equilíbrio fiscal serve, na prática, para blindar estruturas de apropriação privada da riqueza social. Em vez de faltar dinheiro, o que existe é uma ordem econômica desenhada para fazer o excedente subir para o topo.

Foi nesse ponto que o professor aprofundou sua análise sobre a financeirização. Ele citou o peso de conglomerados como BlackRock, Vanguard e State Street, descrevendo um capitalismo em que a velha figura do industrial que explora o trabalho na fábrica já não dá conta de explicar o mecanismo principal de acumulação. Hoje, segundo ele, a extração de valor se dá de maneira muito mais difusa, automatizada e penetrante, atravessando desde os sistemas bancários até os cartões de crédito, os planos de saúde, o agronegócio, as plataformas digitais e os fluxos globais de investimento.

Ao explicar essa engrenagem, Dowbor procurou traduzi-la em exemplos cotidianos. Mencionou que pequenas frações de renda retiradas de bilhões de pessoas, em diversas partes do mundo, alimentam fortunas gigantescas controladas por grupos que quase nunca aparecem no debate público. “Não é mais mercado, é um grupo”, afirmou, ao comentar a presença cruzada desses fundos em conselhos de administração de empresas estratégicas.

O diagnóstico também alcançou os Estados Unidos, país que, segundo ele, combina fragilidade econômica crescente com poder militar gigantesco. Na leitura do economista, Washington tenta compensar sua perda relativa de centralidade produtiva e econômica com a preservação de instrumentos de coerção, entre eles o aparato bélico e o papel internacional do dólar. O quadro, disse ele, é ainda mais grave porque esse poder já não se submete nem às próprias regras internas, nem aos limites multilaterais que emergiram no pós-guerra.

Dowbor chamou atenção para a dívida pública norte-americana e para a maneira como a hegemonia do dólar permite aos EUA exportar custos, financiar bases militares espalhadas pelo mundo e sustentar um padrão de poder descolado de sua capacidade produtiva real. Daí a importância, em sua avaliação, das iniciativas de países que buscam mecanismos alternativos de comércio e liquidação fora da moeda norte-americana, como parte de uma tentativa de reorganização da soberania econômica global.

Questionado sobre o fechamento do Estreito de Ormuz e a ameaça ao petrodólar, ele indicou que o tema precisa ser entendido dentro de uma crise estrutural mais ampla: a de uma potência que se acostumou a manter privilégios por meio do controle monetário, militar e tecnológico. Nessa lógica, qualquer perturbação relevante no circuito energético internacional atinge não apenas mercados e preços, mas o próprio mecanismo de sustentação da hegemonia estadunidense.

A discussão avançou então para a dimensão cultural da crise. Ludmila Cindra destacou o papel das indústrias culturais e da comunicação de massa na formação de uma mentalidade assentada na dominação, na competição e no desrespeito aos que não ocupam posições de poder. Dowbor concordou com a leitura e afirmou que a violência não é apenas um instrumento militar ou político, mas também um padrão cultural disseminado e naturalizado.

“É uma cultura”, respondeu, ao comentar a recorrência de filmes e narrativas baseadas em tiro, humilhação, poder e submissão. Para ele, a lógica do espetáculo, do engajamento e da maximização da atenção se tornou um motor decisivo da degradação da vida pública e da saúde mental. Daí sua defesa de que o debate sobre economia hoje não pode ignorar a indústria da atenção, o papel da publicidade e o controle privado das infraestruturas de circulação da informação.

Nesse ponto, o economista criticou a captura comercial das tecnologias digitais e sustentou que a revolução tecnológica não foi acompanhada por uma revolução institucional correspondente. As ondas eletromagnéticas, a infraestrutura comunicacional e os sistemas digitais, observou, deveriam operar como bens públicos universais, e não como canais privatizados de extração de renda e manipulação da atenção coletiva.

A mesma lógica, segundo ele, atravessa o universo acadêmico e científico. O diálogo entre Dowbor e Reynaldo Aragon ganhou força quando o pesquisador abordou a apropriação privada da produção intelectual do Sul global por grandes editoras e plataformas internacionais. O professor respondeu com exemplos próprios e classificou esse sistema como uma sobrevivência de outra era. “Isso é pré-história”, disse, ao criticar o fato de pesquisadores produzirem conhecimento com recursos públicos, entregarem esse conteúdo gratuitamente a revistas privadas e depois terem de pagar para acessar o próprio trabalho.

Dowbor defendeu que a universidade seja pensada menos como escada individual de prestígio e mais como centro irradiador de conhecimento socialmente útil. Para ele, a revolução digital criou condições inéditas para democratizar o acesso à ciência, à formação e ao saber técnico, desde que a circulação do conhecimento deixe de ser travada por patentes, paywalls, copyrights predatórios e mecanismos de prestígio excludentes.

O economista também comparou modelos civilizatórios e chamou atenção para a importância da cooperação como princípio organizador. Em contraste com a glorificação do ego, da competição e do mérito como justificativa da desigualdade, ele insistiu que o verdadeiro desafio contemporâneo é construir sistemas que coloquem as capacidades científicas, produtivas e tecnológicas a serviço da maioria. A humanidade, afirmou, já sabe o que precisa fazer. O que falta é força política para reordenar prioridades e enfrentar os grupos que capturam riqueza, decisões e infraestrutura.

Ao aproximar o debate global do caso brasileiro, Dowbor lembrou experiências em que a ampliação da renda na base da sociedade produziu dinamização econômica, geração de demanda, emprego, arrecadação e circulação produtiva. Em vez de um gasto improdutivo, a redistribuição aparece, em sua visão, como alavanca racional de desenvolvimento. A crítica ao receituário austero, portanto, não parte apenas de uma perspectiva moral, mas também de uma visão econômica concreta.

Na reta final do programa, ele condensou sua interpretação do momento histórico numa formulação que soou como síntese política de toda a conversa. “Temos o dinheiro necessário, só que está nas mãos erradas. Temos todas as tecnologias que precisamos, temos produto suficiente. Sabemos tudo o que deve ser feito. O problema é de organização político-social”.

A afirmação resume a espinha dorsal do debate promovido pelo Trilhas da Soberania. Em tempos de guerra, a crise não se restringe ao campo de batalha. Ela atravessa moedas, cadeias produtivas, informação, tecnologia, subjetividade e soberania. E, segundo Ladislau Dowbor, compreender esse sistema exige deslocar o olhar: menos a crença na escassez inevitável, mais a denúncia dos mecanismos que concentram riqueza, desorganizam a vida coletiva e bloqueiam a possibilidade de uma ordem internacional mais justa.

Referências

Livro citado: This Is for Everyone, de Tim Berners-Lee
Livro citado: A geração ansiosa, de Jonathan Haidt
Livro citado: A sociedade do custo marginal zero, de Jeremy Rifkin
Filme citado: Taxi Driver
Autor citado: Paulo Freire
Relatório citado: UBS Global Wealth Report
Marco histórico citado: Acordo de Bretton Woods

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