Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay pressionam governo Trump contra novas tarifas ao Brasil

Da Redação

Grandes empresas com forte presença no mercado dos Estados Unidos pediram ao governo de Donald Trump que não imponha novas tarifas sobre produtos brasileiros. Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay apresentaram manifestações ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, alertando que a sobretaxa pode aumentar custos de produção, prejudicar consumidores norte-americanos e afetar empregos e investimentos dentro dos próprios Estados Unidos.

As manifestações foram apresentadas no âmbito da investigação conduzida pelo USTR com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana. O procedimento analisa políticas brasileiras que o governo Trump classifica como prejudiciais aos interesses comerciais dos Estados Unidos e pode resultar em uma tarifa adicional de 25% sobre produtos importados do Brasil.

A reação das empresas revela um problema para a estratégia comercial de Trump. Companhias que produzem e empregam nos Estados Unidos argumentam que determinados produtos brasileiros são necessários para suas próprias operações e não podem ser substituídos rapidamente por fornecedores locais.

Tesla alerta para impacto sobre a indústria americana

A Tesla argumentou que as decisões comerciais precisam considerar a realidade das cadeias internacionais de fornecimento. A empresa afirmou que diferentes componentes utilizados pela indústria norte-americana ainda dependem de fornecedores brasileiros.

Segundo a fabricante de veículos elétricos, a imposição de restrições antes que existam alternativas suficientes dentro dos Estados Unidos pode reduzir a competitividade das empresas do próprio país e elevar os custos para os consumidores.

A companhia pediu que determinados insumos provenientes do Brasil sejam incluídos na lista de exceções da eventual sobretaxa. A posição da empresa chama atenção também pela relação de seu principal acionista, Elon Musk, com Donald Trump e setores da direita norte-americana.

Coca-Cola quer preservar insumos brasileiros

A Coca-Cola apresentou uma demanda específica relacionada à produção de bebidas nos Estados Unidos. A empresa pediu a manutenção das exceções para insumos de laranja provenientes do Brasil e a inclusão de derivados de limão entre os produtos protegidos da sobretaxa.

O argumento é que esses produtos são necessários à fabricação de bebidas e não podem ser substituídos rapidamente por produção doméstica. A cobrança adicional, segundo a empresa, elevaria custos e poderia criar problemas na cadeia de abastecimento, sem contribuir para os objetivos declarados da investigação comercial.

O Brasil ocupa uma posição relevante no fornecimento de produtos cítricos para o mercado norte-americano. Essa dependência ajuda a explicar por que empresas que atuam diretamente nos Estados Unidos passaram a pressionar o governo Trump por exceções.

Nestlé pede exceção para café solúvel e colágeno bovino

A Nestlé também apresentou pedidos de exclusão. A companhia quer que café solúvel sem sabor e colágeno bovino provenientes do Brasil fiquem fora das novas tarifas.

A empresa argumenta que esses insumos não são produzidos em quantidade suficiente nos Estados Unidos e são necessários para manter linhas de produção no país.

A manifestação evidencia um dos efeitos das guerras tarifárias. Uma tarifa sobre produtos importados não atinge exclusivamente o exportador estrangeiro. Quando a indústria do país importador depende de matérias-primas, alimentos ou componentes produzidos no exterior, parte do aumento de custos pode chegar às fábricas, ao comércio e aos consumidores locais.

eBay alerta para impacto sobre pequenos vendedores

O eBay concentrou sua manifestação no comércio de bens usados e seminovos. A empresa pediu que esses produtos sejam completamente excluídos das novas tarifas.

A plataforma argumentou que a cobrança atingiria consumidores de baixa renda, pequenos vendedores e microempresas que utilizam o comércio internacional de produtos de segunda mão.

Segundo a empresa, taxar esse tipo de mercadoria não contribuiria para enfrentar as práticas brasileiras questionadas pelo governo norte-americano e poderia produzir distorções econômicas sem alcançar os objetivos anunciados pela investigação.

Bauducco alerta para empregos e investimentos nos EUA

A Bauducco também se manifestou contra os efeitos da sobretaxa. A empresa brasileira possui uma fábrica na Flórida e realiza um investimento estimado em US$ 200 milhões para ampliar sua produção no mercado norte-americano.

A companhia argumentou que a imposição das tarifas pode atrasar investimentos, aumentar custos e afetar a criação de empregos nos Estados Unidos. Segundo a empresa, os recursos obtidos com a comercialização de produtos importados do Brasil contribuem para financiar a expansão da produção em território norte-americano.

Pressão empresarial expõe custo interno do tarifaço

As manifestações das empresas mostram que a disputa comercial com o Brasil enfrenta resistência dentro do próprio setor empresarial que opera nos Estados Unidos. O debate deixa de ser apenas uma negociação entre os governos de Brasil e Estados Unidos e passa a envolver companhias preocupadas com os efeitos das medidas sobre suas operações.

O governo Trump justifica a investigação com críticas ao Pix, a decisões do Supremo Tribunal Federal relacionadas a empresas de tecnologia, a acordos comerciais firmados pelo Brasil e às regras brasileiras para o mercado de etanol. (

A posição apresentada por Tesla, Coca-Cola, Nestlé, eBay e Bauducco introduz outra perspectiva no debate. Para essas empresas, a imposição indiscriminada de tarifas pode atingir justamente companhias, trabalhadores e consumidores norte-americanos que o governo afirma pretender proteger.

O USTR deverá considerar as manifestações apresentadas durante a consulta pública antes das próximas decisões sobre a investigação. Enquanto o governo Trump avalia novas barreiras contra o Brasil, algumas das maiores empresas interessadas no comércio entre os dois países deixam registrado que o custo da disputa não ficará restrito ao lado brasileiro.