Lúcio Pessôa defende a escrita como ferramenta de cura emocional e autoconhecimento no Café com Democracia
O programa Café com Democracia, da Rede de Comitês Populares pela Democracia, recebeu no dia 10 de abril o terapeuta e escritor Lúcio Pessôa para uma conversa sobre o poder terapêutico da escrita. A entrevista, apresentada por Luiz Regadas e exibida pela Rádio e TV Atitude Popular, abordou como o ato de escrever pode ajudar a organizar emoções, aliviar angústias e evitar o adoecimento mental .
Durante o bate-papo, Lúcio explicou que sua trajetória reúne três dimensões que se entrelaçam: a escrita, a terapia e o cuidado com o outro. Autor de seis livros físicos e atuando como terapeuta especializado em TRG (Terapia de Reprocessamento Generativo), ele destacou que o contato com a escrita surgiu ainda na infância como uma necessidade de expressão emocional.
“A escrita entrou na minha vida por necessidade. Eu fui essa pessoa que usou da escrita desde criança para organizar o que sentia”, relatou.
Escrita como espaço seguro e de expressão
Ao longo da entrevista, Lúcio enfatizou que escrever pode funcionar como um espaço seguro para dar vazão a sentimentos que, muitas vezes, não conseguem ser verbalizados em situações cotidianas. Segundo ele, experiências difíceis ou traumáticas, quando não elaboradas, podem gerar sintomas físicos e emocionais.
“A escrita é esse lugar para eu dar vazão ao que está dentro, que muitas vezes eu não sei nem do que chamar”, afirmou.
Ele explicou que, ao colocar no papel emoções reprimidas — como frustrações, conflitos ou angústias —, o indivíduo consegue aliviar a carga interna e encontrar caminhos de compreensão. “Aquilo que eu não disse, eu posso dizer na escrita. E isso vai diminuindo as angústias”, completou.
O poder da releitura e da transformação
Um dos momentos centrais da conversa foi a reflexão sobre o impacto da releitura dos próprios textos. Lúcio contou que foi ao revisitar escritos antigos que percebeu o potencial terapêutico da prática.
“Coisas que eu sentia naquela época já não existiam mais ou existiam de forma diferente”, disse. Para ele, esse processo evidencia como a escrita pode contribuir para a evolução emocional e a ressignificação de experiências.
Escrita terapêutica não exige técnica
Ao contrário do que muitos imaginam, o convidado ressaltou que não é necessário ter domínio da gramática ou talento literário para se beneficiar da escrita. O essencial, segundo ele, é a autenticidade.
“Para escrever com intuito terapêutico, eu não preciso de técnica. Eu preciso de presença e de verdade”, destacou.
Ele alertou que a crença de “não saber escrever” é um obstáculo comum, mas limitante. “Você está escrevendo para você. Não precisa ser bonito, precisa ser verdadeiro”, afirmou.
Benefícios para a saúde mental
Entre os principais benefícios da escrita terapêutica, Lúcio destacou:
- Organização dos pensamentos
- Regulação emocional
- Redução da ansiedade
- Autoconhecimento
- Sensação de protagonismo sobre a própria vida
Segundo ele, até exercícios simples — como listar prós e contras de uma decisão — já ajudam a estruturar o pensamento e diminuir a confusão mental.
Além disso, a escrita pode auxiliar na identificação de emoções. “Quando eu nomeio o que estou sentindo, já abro caminhos muito grandes para me entender”, explicou.
Terapia, medicação e autocuidado
Questionado sobre outras formas de lidar com o sofrimento emocional, Lúcio defendeu uma abordagem integrada. Ele reconheceu a importância da medicação em momentos críticos, mas alertou que ela não resolve a causa do problema.
“O remédio estabiliza, mas quem vai acessar a raiz é o processo terapêutico”, afirmou.
Ele também destacou a importância de práticas complementares, como atividade física, convivência social e espiritualidade. “Cada gesto conta”, resumiu.
Oficinas e impacto coletivo
Lúcio também falou sobre suas oficinas de escrita terapêutica, realizadas em diferentes cidades do país e também em formato online. Segundo ele, esses encontros promovem um mergulho emocional profundo, mas também momentos de leveza e conexão.
“O que mais me marca é quando as pessoas se surpreendem com o que escreveram”, relatou.
Ele contou que muitos participantes, após as oficinas, relatam mudanças significativas na vida, como retomada de estudos, reconciliações familiares e início de processos terapêuticos.
Como começar
Para quem deseja iniciar a prática, o terapeuta sugeriu um exercício simples: responder à pergunta “o que estou sentindo agora?”. A partir dessa reflexão, outras questões naturalmente surgem, abrindo caminho para o autoconhecimento.
“Reconhecer que não está bem é o primeiro passo. Depois, é buscar ajuda ou começar por aquilo que está ao seu alcance”, orientou.
Ao final, Lúcio reforçou que a escrita é uma ferramenta acessível e potente, capaz de transformar a relação do indivíduo consigo mesmo. Em um cotidiano marcado por pressões e silenciamentos, escrever pode ser, antes de tudo, um gesto de cuidado.
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