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O lançamento do pacto contra o feminicídio expõe uma contradição profunda da sociedade brasileira: enquanto o país aplaude discursos de proteção às mulheres, preserva pactos masculinos que sustentam a violência


Enquanto Brasília assistia ao lançamento do pacto nacional contra o feminicídio, algo maior do que uma cerimônia institucional estava sendo encenado. O gesto político carregava a biografia de um homem que atravessou o Brasil profundo antes de atravessar o poder. Um nordestino que saiu da fome, do chão de fábrica e das violências estruturais para, já na velhice, tentar romper uma das engrenagens sociais mais resistentes do país: o pacto masculino que naturaliza a violência contra mulheres.

O esforço político apresentado ali tenta inaugurar uma nova era nas relações entre homens e mulheres. Não apenas com campanhas educativas, mas com uma mudança cultural que exige que homens encarem a própria formação afetiva e social. Os discursos foram recebidos com emoção. Houve lágrimas, aplausos e textos celebratórios. A cerimônia foi uma grande demonstração de boa vontade institucional, um gesto simbólico potente, mas que corre o risco de, ao amanhecer do dia seguinte, ainda não apresentar a profundidade de políticas concretas capazes de atravessar as estruturas onde a violência realmente se reproduz.

Mas existe uma porta que permanece aberta enquanto os aplausos ecoam.

Uma porta social, simbólica e afetiva. A porta que sempre encontra espaço para o homem que chama feminicida de herói, que transforma agressão em bravata e que constrói narrativas onde violência vira desentendimento conjugal. A mesma porta que acolhe o homem que violentou esposa e filha, desde que ele seja útil, carismático, produtivo ou apenas integrante do pacto invisível que organiza a urbanidade masculina.

Não existe lugar mais sujo e seguro do que a amizade entre dois homens.

Sujo porque conhece bastidores, fragilidades e episódios que jamais atravessam o espaço público. Seguro porque funciona como escudo emocional e político, onde divergências ideológicas podem ser toleradas, mas a exposição moral raramente é permitida. Dentro desse pacto silencioso, a pergunta nunca é quem foi ferida. A pergunta passa a ser quem precisa ser protegido.

Essa contradição não precisa de justificativa porque ela é estrutural. A sociabilidade masculina aprendeu a sobreviver ridicularizando aquilo que ameaça desmontá-la. Denúncia vira cancelamento. Proteção vira fofoca. Testemunho vira exagero. A linguagem é reorganizada para esvaziar o peso da violência e devolvê-la ao campo da subjetividade, como se agressão fosse apenas um desencontro emocional entre adultos.

O subterfúgio mais perigoso é a ideia de que violência doméstica pertence ao foro íntimo e pessoal. A velha tese de que dentro de casa ninguém deve interferir transforma o lar no espaço onde o Estado hesita e a sociedade recua. É ali que a amizade masculina opera como escudo silencioso, protegendo vínculos enquanto vidas femininas seguem expostas.

Essa contradição atravessa inclusive aqueles que discursam contra desigualdades estruturais. Ela aparece quando o mesmo empresário do jornalismo progressista que sustenta redações com forte presença feminina mantém laços de amizade com um analista que vocaliza discursos redpill. Discursos que, na prática, normalizam a deslegitimação da experiência feminina diante da violência.

Nas redações e nos bastidores, muitas mulheres aprendem a conviver com esse constrangimento. Algumas silenciam por sobrevivência profissional. Outras racionalizam o desconforto em nome de projetos políticos maiores. Existe sempre a exceção que legitima o pacto oferecendo o álibi perfeito. Nada protege mais o machismo do que uma mulher autorizando sua permanência.

O pacto masculino não precisa de formalização. Ele se alimenta da compreensão tácita de que homens podem divergir em política, ideologia e estratégia, mas existe uma fronteira onde a crítica para e a proteção começa. Essa fronteira é onde denúncias se tornam incômodas, vítimas viram ruído e a amizade se converte em salvaguarda moral.

O esforço institucional de romper esse pacto é monumental. Ele exige mais do que políticas públicas. Exige que homens desmontem a pedagogia afetiva que aprenderam desde a infância. A pedagogia que ensina que proteger o amigo é mais urgente do que proteger a vítima e que preservar o vínculo masculino é mais importante do que enfrentar a violência que ele, muitas vezes, abriga.

O pacto contra o feminicídio representa um avanço histórico e também um espelho incômodo. Ele revela que o Estado pode tentar romper o ciclo, mas a sociedade ainda se organiza para preservá-lo. Enquanto esse acordo subterrâneo continuar sendo tratado como lealdade e não como cumplicidade, o país seguirá celebrando discursos transformadores durante o dia e reproduzindo pactos silenciosos durante a noite.

No Brasil, ainda existem muitas portas fechadas para as mulheres e muitas portas abertas para proteger homens uns dos outros.

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